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Crítica | “Dolores Dala Guardião do Alívio” – Rico Dalasam

por Matheus Camargo
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Onze minutos e cinquenta e seis segundos. Quantos sentimentos, quanta nuances, quantas experiências podem ser expressadas nesta pequena fração de vida? Quando a música é capaz de moldar e esculpir nossa concepção de “tempo”, quando a cabeça está meramente aqui mas a alma se perde nas batidas e nas vivências escondidas em cada linha, quando perdemos a lucidez e nos encontramos num universo lúdico criado pelos sons, é aí que nos damos conta do tamanho poder da arte. É isso que Dolores Dala Guardião Do Alívio faz. Constrói uma dualidade-dor-alívio extremamente identificável que flui como água, infiltrando as brechas deixadas pelos traumas e ansiedades, e que, ainda assim, não se esquece de nos lembrar do que realmente importa: a jornada.

Rico se eleva ao fazer parte dos verbos e substantivos mas nunca se esquece de ser sujeito, sentinela do alívio ou um corpo preto na periferia do Brasil tentando redescobrir coisas que nos foram negadas desde o começo. Recheado de reflexão sobre a história e o conhecimento das cicatrizes que foram deixadas mas que, de vez em quando, se abrem novamente para nos lembrarem da nossa força e das nossas subjetividades. E o quão necessário é falar sobre subjetividade nesse campo que não inclui nenhum relacionamento ou pessoa que foge do “arquétipo social” que exclui a pessoalidade de cada ser. Encontramos no trabalho uma bagagem de dores e emocionalidade que parecem se posicionar tão distante de nossos corpos ou almas, e que fardo. Que fardo é andar por suas complexidades sem poder nem mesmo ousar sentir algo. 

Mudou Como? e sua capacidade de dar-se consciência da situação abusiva vivida e discutida com uma dualidade metafórica intensa “Me julga e dá a sentença / E com uma frase de amor me faz absolvido”; Braille flutuando entre as questões de um relacionamento inter-racial que morre e nasce a cada verso apaixonado mas consciente, num sample tangível de Channel do Frank Ocean e um humor relacionável “Minha mãe disse que eu me fudi / Minha amiga disse: Assim, cê palmita”. Nas andanças de ônibus Circular 3 pelas suas emoções e experiências pessoais juntas aos conselhos tenros maternos, chegamos à Vividir, contemplativa, necessária, nostálgica. Quantos pedaços de nós ficaram perdidos, dissolveram-se em dunas de desejos negados ou mares de lamentos nunca escutados?

Mesmo em todo o seu poder eletrizante, Dolores Dala respira entre arfadas que quase destoam entre si. Queremos ouvir mais de tudo que o extended-play tem a dizer, o que é suprido pela confirmação de uma segunda parte a ser lançada, no objetivo de trabalhar ainda mais os temas ressaltados em suas faixas. Ficamos na ansiedade de escutar mais de suas experimentações e observar esse espaço sendo construído com mais e mais beleza e transformações. O rap nunca esteve tão vivo, latejante, real. Deixem-nos falar sobre nossas duplicidades, deixem-nos desconstruir essa imagem ilusória, deixem-nos gritar o que sentimos. É gratificante escutar nossos medos e receios sendo diluídos na melhor forma de alívio: a arte.

É nesse ponto que Dolores Dala Guardião do Alívio pulsa com tanta firmeza e força. Quando sua liberdade é tamanha que transpassa os ouvidos e acalma o coração, impregna na mente, toca a alma e dança, rodopia, sem cansar. Quanta importância exala desses punhos e dessas vozes que se levantam para tratar feridas antecedentes? Não há adjetivo que resuma, e nunca haverá. Que possamos estar sempre livres para falar, desconstruir e malear nossas concepções, nossas vivências, nossas lutas diárias. Eu só posso descrever de um jeito: meu Deus… que alívio.

Aumenta!: Vividir
Diminui!:

Dolores Dala Guardião do Alívio
Artista: Rico Dalasam
País: Brasil
Lançamento: 28 de maio de 2020
Gravadora: Independente
Estilo: Rap, R&B

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