Crítica | Domingo Sangrento (2002)

A energia que Paul Greengrass imprime na direção de cada um de seus filmes históricos é possivelmente a grande marca que o distingue dentre os cineastas da atualidade. O britânico é um caso interessante da perfeita junção entre o estilo de direção e o tema abordado por ele. Sua câmera cheia de ansiedade e vigor se ajusta muito bem ao retrato de eventos históricos trágicos, que exigem a criação de tensão, drama e desespero. Ele não costuma reservar grandes surpresas nesses casos. Já sabemos o que Greengrass fará quando lança um novo filme dessa natureza, mas ele o faz tão bem que não é possível ficar indiferente ao seu efeito arrebatador. De Domingo Sangrento a 22 de Julho, passando por Vôo United 93, o diretor manteve-se bastante fiel à sintaxe que criou no primeiro filme. O longa-metragem de 2002, que foi a grande sensação do Festival de Berlim do mesmo ano, é apontado ainda hoje como a sua grande obra-prima.

Impressiona que o cinema tenha se calado por longos trinta anos acerca do infame massacre de católicos norte-irlandeses nas ruas de Derry, em 30 de janeiro de 1972. Mas, se era para quebrar de vez o silêncio, seria difícil imaginar uma forma mais visceral do que a escolhida pelo diretor britânico. Domingo Sangrento assume uma proposta clara desde o seu começo e a cumpre com perfeita coerência do início ao fim. O longa-metragem não dedica quase nenhum tempo para a apresentação de personagens ou para que o público tente se conectar a eles por qualquer motivo que não sejam os eventos históricos em si. O espectador também não é introduzido ao curso dos eventos que culminaram naquele protesto. Ele é simplesmente engolido por sua mecânica e lançado ao caos junto com os manifestantes. Essa ausência de didatismos e de exórdios é o primeiro grande acerto do filme. Domingo Sangrento não é um capítulo de livro de História. É um recorte. Uma experiência audiovisual que captura a agonia de um dia histórico.

Os personagens e suas motivações serão conhecidos em meio ao seu exercício político. Para isso, a gramática de Greengrass entra em ação enervando o público de todas as formas possíveis. O tom hiper-realístico é garantido pela câmera nas mãos todo o tempo, com enquadramentos despreocupados e que emulam um amadorismo bastante interessante. A câmera se esconde dos tiros, foge com os manifestantes e flagra conversas importantes atrás dos batentes das portas. A montagem, por sua vez, segue o diapasão turbulento da direção. São muitos cortes secos, que tornam quase todos os planos extremamente curtos, imprimindo um ritmo propositalmente apressado e algo desordenado aos acontecimentos. Os fade cuts ajudam a separar a narrativa em pequenos blocos. Outros destaques da composição linguística do filme são a fotografia chuvosa e granulada e a trilha sonora ausente (que parece ter sido substituída por telefones que tocam ininterruptamente, tornando a experiência ainda mais agitada e estressante para o público).

A direção e a montagem, especialmente, jogam para o ar qualquer possibilidade de construir cenas melodramáticas. Limitam o escopo de sentimentos aos paroxismos de inquietação, repugnância e indignação diante da crueldade dos fatos mostrados. Contudo, ainda que os grandes trunfos de Domingo Sangrento sejam os seus elementos de linguagem, são dignos de nota também a excelente atuação de James Nesbitt, interpretando o deputado Ivan Cooper, e alguns diálogos notáveis (como era de se esperar em um filme político de Paul Greengrass). O discurso final do parlamentar que organizara a manifestação pacífica (e covardemente reprimida) mantem o tom sóbrio e honesto de todo o filme. Não parece descolado do restante nem tentando conquistar o espectador a todo custo. Surge como resultado orgânico dos eventos mostrados com tamanha potência ao longo de quase duas horas de projeção. Quando Cooper indaga ao governo britânico – “Vocês sabem o que fizeram hoje?” – ou prenuncia – “Vocês deram a maior das vitórias ao IRA e vão colher tempestade” –, suas palavras reverberam genuinamente no público.

Não seria razoável, no entanto, pensarmos Domingo Sangrento apenas como um filme cru, seco e documental, afinado tão somente com a realidade histórica que exibe na tela. É exatamente por se dedicar tanto ao calor dos acontecimentos (sem dar nenhum descanso ao espectador) que ele deixa, até o último momento, algo por acontecer. Algo guardado e com certa urgência por se manifestar. Quando a trilha sonora aparece pela primeira vez, já nos créditos, podemos experimentar esse sentimento inteiramente novo ao discurso da obra. É somente quando surgem os primeiros acordes de Sunday Bloody Sunday, da banda irlandesa U2, que podemos sentir, enfim, a desolação e o luto dos norte-irlandeses naquele fatídico domingo. Domingo Sangrento guarda esse sentimento como um grito preso à garganta e o transforma em uma canção (valorizando-a como poucos filmes optariam por fazer) tão possante quanto os eventos maravilhosamente filmados por Paul Greengrass.

Domingo Sangrento (Bloody Sunday) – Irlanda, 2002
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Paul Greengrass
Elenco: Nicholas Farrell, Declan Duddy, Gerard McSorley, Kathy Kiera Clarke, Allan Gildea, James Nesbitt, Gerard Crossan, Tim Pigott-Smith, Mary Mouldes
Duração: 110 minutos

 

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.