Número de temporadas: 1
Número de episódios: 40 (previsão)
Período de exibição: 2 de fevereiro de 2026 – [em andamento no momento da escrita desta crítica].
Há continuação ou reboot?: Esta novela é um remake de Dona Beja (1986).
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Araxá, no início do século XIX, era um território de conflitos políticos entre Minas Gerais e Goiás, cidade pequena onde a moral conservadora orientava o dia a dia e a violência contra mulheres era a norma, vista em contratos matrimoniais e nos mais diversos tipos de abuso. Em fevereiro de 2026, a HBO Max finalmente colocou no ar a sua segunda novela original, Dona Beja, criada a partir da obra de Wilson Aguiar Filho, que originou o fenômeno da TV Manchete em 1986. A produção da Floresta investiu numa cidade cenográfica de 1.710 metros quadrados e mais de três mil peças de figurino para recriar o Brasil imperial, apostando numa releitura alinhada com críticas contemporâneas a papéis de gênero e ao conhecimento mais claro e mais amplo sobre esses espaços históricos, com mudanças positivas que vão do figurino à mobília. Esse capítulo inicial apresenta Ana Jacinta de São José antes do rapto pelo ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Motta, usando a inocência perdida como mola dramática para a transformação dela em cortesã poderosa.
A opulência visual da obra impressiona pela pesquisa de indumentária que flerta com o trabalho de Beth Filipecki em produções como Nos Tempos do Imperador e Capitu, recriando texturas e volumes do período do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves com rigor estético aplaudível. A fotografia aproveita locações em Paraty e as construções cenográficas no Rio de Janeiro para criar composições que lembram o romantismo pictórico do século XIX, enquanto a direção de arte traz uma paleta mais saturada, servindo para reforçar a artificialidade teatral da sociedade retratada. Todavia, a riqueza técnica da obra não alcança o seu conteúdo dramático. Os diálogos básicos demais comprometem camadas de complexidade psicológica que deveriam sustentar esses personagens num contexto tão denso de violência estrutural, misoginia institucionalizada, corrupção política e hipocrisia cristã e patriarcal. A edição pouco dinâmica praticamente denuncia os enormes problemas de bastidores, que incluíram troca de direção e conflitos com a equipe durante filmagens iniciadas em outubro de 2023, criando descontinuidades narrativas que afetam diretamente o ritmo do drama.
Grazi Massafera traz performance estática, blasé, insossa, com pouca extensão dramatúrgica para uma personagem tão importante, indo e vindo entre registros melodramáticos e contidos sem nuances intermediárias que tornariam Beja uma personagem bem mais magnética. David Junior, como Antônio, já mostra uma presença cênica mais consistente, entre ingenuidade romântica e deslocado pragmatismo. André Luiz Miranda constrói João Carneiro com dignidade que desafia estereótipos raciais perpetuados em telenovelas de época, representando homens negros livres e prósperos que a historiografia oficial frequentemente apaga. A escolha de elenco diverso racialmente e a inclusão de personagem transgênero interpretada por Pedro Fasanaro atualizam o universo ficcional sem anacronismo forçado, considerando que documentos históricos comprovam a existência dessas realidades silenciadas.
Nem sempre uma releitura é algo ruim, especialmente quando revisita figuras históricas sob perspectivas que o tempo presente permite enxergar com maior clareza analítica. A versão de 1986, com Maitê Proença, transformou Ana Jacinta em símbolo erótico de transgressão feminina, enfatizando escândalo e sensualidade numa abertura política pós-ditadura que celebrava as liberdades recém-conquistadas. A versão de 2026 muda o eixo para empoderamento político e econômico da protagonista, dialogando com debates contemporâneos sobre autonomia corporal, violência de gênero e reconstrução de narrativas após traumas. A HBO Max aposta em distribuição global para mais de 100 países, colocando esta releitura como produto cultural que explora problemáticas brasileiras do século XIX com questões universais sobre poder, desejo e vingança. A novela não alcança a excelência dramática que sua ambição técnica promete, permanecendo como um bom trabalho que, infelizmente, tropeça demais em seu conteúdo, mas que ainda consegue propor debates interessantíssimos sobre como sociedades constroem e destroem mulheres que ousam existir fora dos padrões predeterminados ou tidos como “normais”… especialmente do ponto de vista masculino.
Dona Beija – Capítulo 1 (Brasil, 2 de fevereiro de 2026 )
Criação: António Barreira, Renata Jhin, Daniel Berlinsky
Direção: Hugo de Sousa, Bia Coelho, João Bolthauser, Rogério Sagui, Thiago Teitelroit
Roteiro: Maria Clara Mattos, Cecília Giannetti, Clara Anastácia, Ceci Alves
Elenco: Grazi Massafera, David Junior, André Luiz Miranda, Bianca Bin, Pedro Fasanaro, Erika Januza, Deborah Evelyn, Indira Nascimento, Bukassa Kabengele, Thalma de Freitas, Luciano Quirino, Isabela Garcia, Otávio Müller, Kelzy Ecard, Tuca Andrada, Werner Schünemann, Lúcia Veríssimo, Ricardo Burgos, George Sauma, Joana Solnado, Paulo Mendes, Bruna Spínola, Dudu Pelizzari, Manuela Duarte, Marcello Escorel, Gabriel Godoy, Nikolas Antunes, João Villa, Catharina Caiado, Isabelle Nassar, Antônio Fragoso, Rita Pereira, Cláudio Mendes, Othon Bastos, Miguel Rômulo, Caroline Abras, Paulo Giardini, Roberto Bomtempo, Elisa Lucinda, Elizabeth Savala, Virgílio Castelo, Fábio de Luca, Lucinha Lins
Duração: 42 min.
