Crítica | Doomsday Clock #12: Desesperançado do Homem

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  • Há SPOILERS! Leia a crítica de Watchmen aqui. Leia as críticas de Antes de Watchmen aqui. E leia as críticas de todas as edições de Doomsday Clock aqui.
  • A nota acima é para esta última edição e para a série como um todo.

Toda criança vem com a mensagem de que Deus ainda não está desesperançado do homem.

Rabindranath Tagore

Esta 12ª e final edição de Doomsday Clock me trouxe um número bem grande de sentimentos e dificultou bastante a minha análise final da obra, olhando para toda a jornada que Geoff JohnsGary Frank empreenderam. Inicialmente, a série “só” tinha a intenção de colocar o Universo Watchmen em contato com o Universo DC, formalizando as explicações sobre o fim dos Novos 52 e o início do Renascimento. Não, não era pouca coisa e mesmo assim nós já tínhamos a noção de que as consequências dessa saga respingariam em toda a DC, o que de fato acabou acontecendo… mas não sem uma boa dose de anticlímax.

Numa edição especial, bem maior que o normal (49 páginas), vemos o roteiro retomar a narrativa de onde parou em Um Erro Que Dure Toda a Vida, com os dois azulões se encontrando. A primeira coisa que nós esperamos — ou melhor, que foi prometida para nós, por isso queremos que aconteça… não só por fanboyzismo — é uma verdadeira briga entre os dois personagens, mas ela não acontece. E mesmo que isso seja imensamente frustrante, fica bem claro o por quê o autor resolveu seguir pelo caminho da “resolução no papo“. O foco da minissérie acabou indo para um plano maior do que o previsto e mesmo que a gente não tenha tido de verdade respostas para todas as perguntas aqui, a essência do projeto foi explicada… e uma Nova Era para o Dr. Manhattan se apresenta no final, inclusive dando piscadelas (em termos de possibilidade) para o que Damon Lindelof fez na série da HBO.

Nesse desfecho, em vez de brigas realmente importantes (porque vá lá, existem lutas acontecendo como pano de fundo, mas com um nível de empolgação não muito distante do zero), temos um convergir de ideias e uma exposição final de propósitos, ou seja, Doomsday Clock ganha mais status de “arrumadora de casa” e de “calendário de publicações futuras da DC” do que uma saga com enorme importância em si mesma capaz de, através de ações intricadas, sólidas e com um peso dramático real, mudar a vida de personagens e situações da editora. No fim das contas pode parecer a mesma coisa, mas não é. O que tivemos aqui terminou sendo a introdução de uma teoria com alguns poucos feitos práticos sobre a DC Comics. Isso faz com que a gente se sinta enganado em certa medida, já que não existiu uma real (fixa) ligação entre esta dimensão e a de Watchmen, havendo apenas a possibilidade de o garotinho Clark Osterman conseguir voltar para cá, como fez seu pai adotivo (que se dissipou no nada — morreu — para viver o sonho de uma vida com Janey Slater… pelo menos foi o que eu entendi).

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Dentre os grande eventos criados por Manhattan aqui, temos a explicação final sobre o estabelecimento dos Universos e o motivo deles existirem. Tudo gira em torno de uma visão de esperança, de possibilidade de melhora para a humanidade encarnada pelo Superman, e é justamente por causa dele que temos Terras, Crises e varações diferentes dos mesmos personagens pelo Universo afora. Demorou um pouco, mas foi apenas quando chamado a atenção para um “motivo pelo que lutar“, que um descontente com a humanidade como o Dr. Manhattan direcionou o olhar para outro ponto do horizonte. E desfez tudo o que havia feito “de ruim”… fazendo também outras coisas bem interessantes a seguir, como acabar com as armas nucleares de seu mundo no presente e passar os poderes para o menino Osterman, o “Dr. Manhattan Jr.” antes de desaparecer. Aqui ele planta uma semente de esperança e espera que esse garoto seja o Superman deste Universo sombrio.

Essa nova perspectiva do personagem é muito bonita, consideravelmente brega — ainda mais para uma série que se pretendeu épica — mas ainda assim, bonita. E o roteiro de Geoff Johns consegue passar muitíssimo bem esse sentimento, com painéis (viva a grandiosa arte de Gary Frank e as fantásticas cores de Brad Anderson!) que chegam a nos emocionar. O estabelecimento das Terras como as conhecemos em toda a História da editora, a realidade dos Novos 52 salva na Terra-52, a volta oficial da Sociedade da Justiça, a recolocação da antiga Legião dos Super-Heróis e do antigo Superboy, além de promessas para uma Crise dos Mestres do Tempo e uma Crise Secreta, para a volta dos Velhos Deuses, para o surgimento da Terra 5G e um possível crossover entre Marvel e DC, sendo citados aqui Thor e Hulk (este, como “green behemoth“) são pontos de destaque derivados de tudo o que aconteceu nestas doze edições.

Como disse no começo, foi um bom encerramento, mas eu não consigo deixar de amargar pontadas de anticlímax e até mesmo a sensação de ter sido parcialmente enganado. Mais uma vez, além do original, o plano de Ozymandias acaba sendo envolto em mistérios e quase morre na praia. A conclusão que a gente tira disso tudo é: pelo amor dos Deus, vamos parar de buscar algum sentido ou ordem na linha do tempo ou nos Universos da DC, porque a editora não vai parar de bagunçar e complicar tudo de novo. Esta é a moral da história.

Nos vamos na próxima Crise, onde tudo isso será apagado, esquecido, encapsulado, etc etc etc…

Doomsday Clock #12: Discouraged Man  — EUA, 18 de dezembro de 2019
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank
Arte-final: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Letras: Rob Leigh
Capa: Gary Frank, Brad Anderson
Editoria: Amedeo Turturro,  Brian Cunningham
49 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.