Crítica | Dora e a Cidade Perdida

plano crítico dora e a cidade perdida

“Essa não é a selva. É o Ensino Médio. É vida ou morte.’

Embora seja considerado “cinema para crianças”, o transporte da popular personagem Dora, a Aventureira para a sua encarnação em carne e osso surpreende pela maturidade em como concilia o realismo do live-action com o surrealismo da animação. Por possuir em essência, pelo menos no material original, um caráter pedagógico enorme, o seu longa-metragem poderia simplesmente encaminhar-se para os mesmos rumos, com uma mensagem positiva exposta da maneira mais simplória possível para os pequenos. Em contrapartida a isso, os responsáveis por essa adaptação assumem os vícios do desenho animado de maneira irônica, contudo, ao mesmo tempo recusam machucar a pureza da produção que os inspirou. Dora cresceu, no caso, não mais sendo uma criança. Porém, ela manteve a mesma espirituosidade de antes. Por exemplo, a garota consegue quebrar a quarta-parede – conversando com o espectador – e sempre apresenta uma canção quando a oportunidade pede – ou não. Em suma, no seu coração mora um otimismo que não poderia soar mais antiquado para o mundo exterior, que é recheado de perigos os quais Dora nunca nem pensaria que existissem. Ora, apenas na nossa sociedade um conceito como o do Ensino Médio seria um pesadelo para a juventude. De certa maneira, a única característica que permanece a mesma entre uma mídia e outra é a própria protagonista, interpretada por Isabela Moner de um modo propositalmente cartunesco – e, consequentemente, imensamente encantador.

Logo, o que James Bobin procura investir como propósito moral do seu longa-metragem mora nos contrastes entre uma juventude que ele considera pura e um mundo corroído pelas contradições humanas. O cineasta possui no seu currículo, curiosamente, o comando dos mais recentes longas-metragens envolvendo os Muppets, personagens famosos por estrelarem obras irônicas também consumidas por crianças. O universo daqueles fantoches sempre se pautou em um contraste de espírito com eles – no caso da obra de 2011, o teatro dos personagens encontrava-se em pedaços e eles precisavam se reerguer depois de anos no ostracismo. Já nesse longa, Dora é engolida por um cenário inesperado, após ter que passar um tempo com os seus tios na cidade grande. Lá, a garota reencontra Diego (Jeffrey Wahlberg), seu primo e um dos personagens mais importantes da animação. O jovem, porém, mudou, se esqueceu das aventuras que viveu com a prima na infância e, para piorar, se envergonha da personalidade excêntrica que ela manteve. De longe, os melhores momentos contínuos da obra serão os situados nesse segmento, embora a criatividade ressurja bastante em posteriores situações pontuais – como na cena animada, que reforça o teor criativo na reinvenção de Dora e sua mitologia. Mesmo com a ameaça da inocência da garota ser estragada pelo contato com o Ensino Médio, a relação que a obra cria, entre a essência do desenho animado e a possibilidade constante de sua ruptura, consegue engrandecê-la ainda mais no fim das contas.

Esquecendo um pouco o universo juvenil, a cidade grande some para dar lugar à mata, porque rapidamente o roteiro da obra opta por realocar Dora no ambiente a que ela pertence – o de aventureira. Dada uma busca por uma cidade perdida de ouro, a menina precisa confrontar vilões que perseguem seus pais. Existe, porém, uma considerável perda de virtudes nessa transição, especialmente porque nenhum dos demais coadjuvantes consegue superar a excelente atuação de Moner. Ainda que seja a mais exótica dos personagens, Dora é também a mais genuína, o que não acontece, em contrapartida, com o papel de Eugenio Derbez. Em termos de comédia, o seu longa é bem mais irregular que qualquer Muppets. Embora isso seja um pesar, a narrativa permanece esclarecida no que tange o seu propósito restaurador. Um dos exemplos, já no seu começo, é a distinção que se cria entre o caçador de tesouros, aquele com intenções gananciosas, e o aventureiro, aquele com intenções generosas. Na verdade, Dora é uma protagonista construída de maneira a representar uma conexão esquecida entre a natureza e os seres humanos. Pode parecer complexo para uma obra destinada a crianças, mas essa pretensão é enraizada na narrativa de uma maneira espirituosa. O grande truque de um filme como esse é conseguir usar os elementos de gênero, como a comédia, a aventura e a fantasia, e o próprio arco da personagem principal, para criar um discurso – que não perde de vista o entretenimento e as risadas – coerente.

Os choques da garota no Ensino Médio, a sua conversa incessante com o espectador ou animais que não falam, as músicas cantaroladas ora ou outra, e a esperança irritante percebida pelos antagonistas. Essas oportunidades todas geram momentos engraçados que, em paralelo a isso, sustentam a seguinte verdade: a menina é um pote de ouro, o verdadeiro tesouro que mora em um mundo que se perdeu em meio a sua seriedade. É quase um pecado permitirem que Dora se sinta triste em certos momentos da obra. E isso parte de uma construção da personagem que não a minimiza como caricatura, mas consegue tornar seus traços cartunescos críveis e, mais que isso, admiráveis. Justamente quando opõe a animação original à austeridade do mundo exterior, elementos lúdicos como a raposa de máscara – ou seria raposo – ou o macaco de botas ganham um caráter extraordinário a mais. O primata Botas, por sinal, torna-se, mediante as constantes conversas do longa com a realismo e o surrealismo, um personagem mágico, mesmo que não seja antropomórfico como na série – o que é mais chamativo quando a computação ultrapassada não consegue ser realista. A adaptação de Dora, a Aventureira para o cinema, assim sendo, contribui para concretizar a menina e seu mundo enquanto partes da cultura pop merecedoras de prestígio pela gente. Não seria, portanto, equivocado pontuar, pois a própria Moner pontuou em entrevista, a garota como uma super-heroína – capaz de resgatar pessoas, preservar a natureza e mudar vidas.

Dora e a Cidade Perdida (Dora and the Lost City of Gold) – EUA/Austrália, 2019
Direção: James Bobin
Roteiro: Nicholas Stoller, Matthew Robinson
Elenco: Isabela Moner, Danny Trejo, Jeffrey Wahlberg, Benicio del Toro, Eugenio Derbez, Temuera Morrison, Eva Longoria, Michael Peña, Nicholas Coombe, Madeleine Madden, Adriana Barraza, Q’orianka Kilcher
Duração: 102 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.