Crítica | Doutor Sono (2019)

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  • Pode conter SPOILERS do FILME O Iluminado, então caso não tenha visto, não aconselho que leia o texto.

Hoje é inquestionável que O Iluminado é no mínimo primeira prateleira do cinema de horror, acontece que nem sempre foi assim. O próprio Stephen King é um dos críticos pessimistas remanescentes da sua adaptação de 1980, por acreditar numa indulgência de Stanley Kubrick ao modificar o material fonte da maneira que bem entendeu para criar o grande clássico, atitude que lhe rendeu – pasmem – até indicação no Framboesa de Ouro como “Pior Diretor”, algo inimaginável se tratando de um dos maiores diretores de todos os tempos. O tempo passou e o filme foi ganhando a notoriedade que merecia, talvez superando em níveis de glorificação o próprio livro, algo que provavelmente motivou Stephen King, recentemente em 2013, a continuar a história de origem setentista. 

Numa década em que seu renome ganhou muita notoriedade conforme as diversas adaptações anuais de suas obras com seu envolvimento direto, o desafio de Doutor Sono seria buscar um equilíbrio entre a continuidade do clássico com um processo adaptativo que lhe agradasse, algo que esse mesmo ano provou ser bem perigoso. Perigoso porque nem sempre a mente inegavelmente criativa do escritor para conceitos fantasiosos funciona quando transposto em literal para as telas. Os livros têm essa vantagem do leitor imaginá-las a sua maneira, algo que para o filme não é possível, porque vai ter de escolher uma forma direta para abordá-las no audiovisual. É papel do roteirista enxugar o máximo possível desses elementos a contorná-los para uma atmosfera mais alegórica possível, algo que o cineasta escolhido, Mike Flanagan, já tinha feito com certa competência em Jogo Perigoso, mas que não atingiu a máxima do potencial por uma limitação de ter que transcrever tudo o que o livro original colocava, tanto que o final reflete bem a problemática que cito.

O que Kubrick fez na época foi trazer uma interpretação sua sobre esses conceitos e aplicá-las na quebra de clichês do gênero. Tanto que todos os elementos sobrenaturais, ainda que bem expostos no filme dele, tinham o benefício da dúvida. Será que o Hotel tinha mesmo o sobrenatural ou aquilo tudo foi fonte da paranoia de isolamento? Dúvida essa que não existe nesse filme, e isso é logo estabelecido nos primeiros minutos, que recriam a atmosfera kubrickiana e dão continuidade com base na afirmação de que sim, aqueles seres fantasmagóricos são reais, Danny tem poderes psíquicos e não é o único com isso. A partir daí, a narrativa com calma irá amadurecer essa resposta, na forma como irá trabalhar o estudo de personagem na vida adulta de Danny, e em como lentamente estabelecerá a nova premissa da história. 

A primeira metade será essencialmente dedicada à melancolia consequencial traumática dele, viciado em álcool e com tendência ao comportamento agressivo como o pai, o roteiro irá propor uma jornada de descobrimento do personagem em paralelo à introdução de novos elementos do mundo dos “Iluminados”, apresentando uma equipe de caçadores dessas pessoas dentro de uma subtrama de uma menina que foi sequestrada por eles e está fugindo, com outra subtrama de outra menina que provavelmente será a próxima vítima deles. A princípio, essa divisão de três núcleos distintos soa bem episódica, onde cada um deles é entrecortado por novas pontas soltas. Dentro de um filme longo, essa estruturação da edição instiga a curiosidade de saber como serão feitas as conexões, e toda a forma grandiosa como Flanagan vai concebendo esses acontecimentos pequenos amplifica a expectativa em atmosfera para o crossover entre elas, caindo num ar ambiciosamente épico dentro dos alicerces fantasiosos envolvidos. 

Dentro do seu estilo assumidamente mais visual, o diretor é feliz em flutuar muito bem entre a referência, o adaptativo e sua própria linguagem. A inserção de jump scares e a manipulação sonora escancarada nas cenas mais tensas são bem balanceadas pelas escolhas de câmera abertas e remetentes ao clássico. O diretor tem a habilidade de fazer com que elas se complementem ao invés de naturalmente criar contrastes entre estilos, com exceção de algumas cenas, a típica armadilha de “mostrar demais” com a consequência de perder o impacto é contornada pela boa distribuição desses elementos em tempo de tela e, principalmente, pelo espaço geográfico das cenas. Se o caráter mais global passeando entre diversos cenários se desprende do horror claustrofóbico do original, ao menos essa organização inteligente de espaços garante uma crescente até que naturalmente o filme volte ao Hotel, o que leva a um desfecho significativamente mais aterrorizante do que o resto do clima do filme, e embora menos dosado na evocação referencial ao antecessor, não retira a eficiência da mescla atmosférica previamente construída até esse momento.

O talento do elenco também ajuda bem a vender a veracidade da mistura, com as motivações bem amarradas pelo roteiro, os atores sobram nos personagens. Em especial, Ewan McGregor surpreende com o grau de destreza na introspecção de sua performance, transitando entre um homem quebrado e um conselheiro sobrenatural aconchegante, parte essa inclusive que poderia ter sido melhor explorada, mas que serviu de grande apoio para as ótimas interações com a motriz da história: Aba, interpretada por Kyliegh Curran. A atriz mirim transita de forma bem confortável entre a caça e a caçadora, à medida que a ingenuidade vai sendo suprida pela coragem criada diante dos descobrimentos de seus dotes. Fechando uma possível tríade principal, Rebecca Ferguson entrega uma vilã memorável, maquiavélica e ameaçadora em pose, manipulativa e até dócil em fala, persistente na forma como persegue seu objetivo e ao mesmo tempo fragilizada por ele, tornando-a mais densa e complexa. Os personagens ao redor dos 3 não são tão desenvolvidos, mas cumprem bem os seus respectivos papeis, com exceção de Emily Alyn Lind, que parecia ser também um desses pilares na primeira metade, mas acaba não tendo tanta relevância quanto o roteiro pintava. Com algumas modificações, poderia-se até retirá-la da história para enxugar a duração sem perder o clima, embora a forma como foi posicionada garantiu um didatismo eficiente para o universo ser expandido.

Expansão essa que parece gratuita, tendo em vista que a história fecha um arco bem definido, mas ela tem sentido alegórico com a própria mensagem que King queria em sua obra. Assemelhando-se à segunda parte de It, o escritor quer contornar o medo em superação, não só de Danny como do mundo como um todo, cheio de “Iluminados”, pessoas com dons que caem frequentemente em desgraça por não serem acreditados ou por serem caçados por isso. A sensação mais otimista ao sair de Doutor Sono talvez seja o seu grande divisor, porque é uma antítese ao cinismo característico de Kubrick em toda a sua concepção anterior, que foi tão respeitada. Ainda assim, acredito que Flanagan tenha atingindo um equilíbrio dimensional entre as duas linguagens e fez uma continuação à “altura” do que poderia, e no processo, também fez o seu melhor filme.

Doutor Sono (Doctor Sleep, EUA – 2019)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan
Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Emily Alyn Lind, Jacob Tremblay, Cliff Curtis, Carl Lumbly, Zahn McClarnon e Bruce Greenwood.
Duração: 152 minutos

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.