Crítica | Downhill (2020)

Já passamos da discussão sobre a produção de remakes ou isso ainda está em pauta? Porque em produções como Downhill (2020), refilmagem do ótimo filme sueco Força Maior (2014), temos o impulso de fazer perguntas aos quatro ventos sobre a necessidade desse tipo de produção, e pior, em tão pouco tempo entre o original e a criação para preguiçosos, como é o caso.

Já passamos da discussão sobre a produção de remakes ou isso ainda está em pauta? Porque em produções como Downhill (2020), refilmagem do ótimo filme sueco Força Maior (2014), temos o impulso de fazer perguntas aos quatro ventos sobre a necessidade desse tipo de produção, e pior, em tão pouco tempo entre o original e a criação para preguiçosos, como é o caso. Porque se estamos falando de um intervalo de pelo menos uma década entre um lançamento e outro, é possível compreender o apelo, mesmo que a discussão sobre necessidade artística permaneça. Falamos aí de nova tecnologia, de um mundo consideravelmente diferente e todo um contexto onde será possível ao menos separar visual e conceitualmente os projetos. Nada disso é válido para Downhill.

Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell formam aqui o casal que sustenta a briga desenvolvida pelo roteiro, mas que os esforços de Jesse ArmstrongNat Faxon e Jim Rash só conseguem transformar em uma briga de casal que atira para diversos lados mas não consegue alcançar lugar nenhum. Chega a ser irritante imaginar que a Searchlight Pictures (ex-Fox) tenha investido dinheiro em uma refilmagem que sequer se dá o trabalho de repetir os problemas matrimoniais de uma forma que fizessem o espectador pensar em algo e não apenas que observasse ações simplórias e reações insossas de uma briga causada por uma mistura de desespero, impulso e covardia do homem que correu sozinho da “avalanche controlada” em vez de procurar levar consigo os filhos e mulher ou ficasse no lugar para protegê-los.

A casca dos eventos do roteiro de Ruben Östlund é mantida aqui, mas nutrida por um ensaio cômico maior e mais fácil. Por um lado, isso ganha pontos por parecer orgânico na tela, mas aí devemos os cumprimentos à dupla protagonista, que não à toa sagrou-se no gênero e sabe como apresentar esse tipo de comportamento mesmo em cenários onde o espaço para o riso é limitado ou onde a comédia é mais comprometida com o seu lado ácido do que com o seu lado puramente divertido. E logo voltamos ao problema original, que é a falta de profundidade do roteiro. Para um enredo que pretende utilizar a acidez (humorística ou não) como linha de costura, o mínimo que se deveria fazer era tratar o problema com foco e não sair espalhando situações que geram becos sem saída e, no fim, nenhuma delas diz ou representa algo minimamente importante para os indivíduos.

Se a personagem de Julia Louis-Dreyfus tem um pouco mais de sorte nisso (a despeito da forma como o roteiro a expõe no final), o personagem de Will Ferrell sofre mais as penas de um roteiro que descomplica e emburrece não só a história como um todo, mas os atores, suas motivações e principalmente aquilo que se poderia tirar do grande impasse descortinado pelo filme. Afinal, há uma boa quantidade de camadas reflexivas exploradas no roteiro original. Aqui, entretanto, notamos apenas indicações simples ou o início de uma discussão de assuntos que nunca são verdadeiramente explorados ou ganham um encerramento satisfatório, a exemplo da própria atitude de Pete ou da discussão de Billie com Charlotte (Miranda Otto) sobre o que configura ou não uma traição ou sobre a felicidade num relacionamento.

Na simplicidade do conflito e na espera de algo além do óbvio, o público fica mesmo com belas paisagens na tela, cenas de pessoas esquiando e supostamente um ajuste moral no fim do filme. Se o espanto, na verdade, é mais uma insatisfação por ter pedido tempo vendo algo assim, fica cada vez mais inabalável a constatação de que (a maior parte das) refilmagens parecem obedecer a uma amaldiçoada cartilha de preguiça narrativa e comprovação de que eram absolutamente desnecessárias. Downhill é só mais uma confirmação da regra.

Downhill (2020) — EUA, 2020
Direção: Nat Faxon, Jim Rash
Roteiro: Jesse Armstrong, Nat Faxon, Jim Rash (baseado em roteiro original de Ruben Östlund)
Elenco: Julia Louis-Dreyfus, Will Ferrell, Miranda Otto, Zoe Chao, Zach Woods, Julian Grey, Kristofer Hivju, Ammon Jacob Ford, Giulio Berruti, Nadiv Molcho, Jono Bergmann, Peter Schorn, Ferdinand Ramml, Kimberly Rydell
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.