Nem bem um ano depois de A Regra de Três, Jeffery Deaver retornou à sua ex-pugilista profissional e agente especial Constant Marlowe criada para sua quadrilogia de contos interligados A Boneca Quebrada, com Downstate, uma curta novela também lançada pela iniciativa Amazon Original Stories que coloca a protagonista durona na caça do misterioso Sr. X, fundamental ao crime organizado de Illinois, mas que ela não tem ideia quem exatamente é. E, como se isso não bastasse, ela é inadvertidamente envolvida no furto de uma loja de conveniências por um jovem cuja prisão e transferência para uma instituição correcional de péssima reputação soa estranho para ela.
Novamente em uma cidadezinha minúscula que parece adormecida por completo, além de ser cercada por intermináveis milharais, Constant vai aos poucos descobrindo que há muito mais abaixo da superfície enganosa do local, em mais uma história de Deaver que se apoia em reviravoltas baseadas nas percepções rasas que normalmente temos sobre o que nos é apresentado como fato. Em outras palavras, o autor trabalha cuidadosamente em cima de aspectos do cotidiano que se apresentam como uma coisa, mas que são outra coisa bem diferente e bem mais sinistra, evitando revelações e twists que estejam muito distantes dessa sua convenção, o que torna o que ele faz muito mais palatável, distante de invencionices retiradas da cartola só para agradar leitores que acham que o importante é ser surpreendido por algo que completamente inesperado.
O que se destaca nessa novela, mais do que o obrigatório “momento pugilista” de Marlowe em que ela ritualisticamente guarda sua arma e a de seu oponente em um cofre portátil para sair no soco, é o puro senso de justiça da agente, que é incapaz de deixar para trás um jovem que, mesmo tendo furtado uma loja, lhe parece inofensivo por natureza e cujo tratamento que ele recebe é completamente desproporcional para o que ele fez. Claro que, como se espera de obras assim, a conexão entre o caso maior que a agente foi investigar sobre o crime organizado e o caso menor do jovem que furta “raspadinhas” que se materializa na sua frente têm conexão, e essa conexão é que faz com que a história mantenha sua coesão, sem jamais perder de vista a ação e a tensão que culmina em uma sequência em um armazém no meio de um milharal, algo que é por si só assustador.
Por outro lado, tenho para mim que Deaver precisa ampliar o escopo de Constant Marlowe. Mesmo que cada história em que ela participe seja diferente uma da outra, a estrutura geral é a mesma, inclusive e especialmente as ações da agente, como se a personagem estivesse presa a um caminho específico e imutável do qual ela não pode se desviar. Se é intenção do autor continuar usando Marlowe como protagonista – e há outra novela posterior a essa, lançada em 2026 -, seria de seu interesse mergulhar mais no lado pessoal dela para além de seu relacionamento com o promotor público Evan Quill, com personalidade diametral oposta à dela, o que é um clichê, sei bem, dando-lhe mais dimensões do que apenas a detetive antissocial que resolve tudo na combinação entre pancadaria e cérebro por meio do uso de sua bem conectada rede de contatos.
Se já está na hora de Jeffery Deaver expandir o que sabemos sobre sua protagonista, Downstate, por outro lado, consegue ainda se segurar bem como um thriller policial com todos os ingredientes clássicos que o leitor pode esperar de uma história rápida e satisfatória que é para ser consumida praticamente de uma sentada só sem sequer o conhecimento prévio de Constant Marlowe, já que há o cuidado de manter cada livro autocontido. É a combinação ideal de protagonista interessante, casos normalmente bem construídos e uma narrativa simpática e descompromissada para ocupar aquela tarde chuvosa de domingo.
Downstate (EUA, 2025)
Autoria: Jeffery Deaver
Editora original: Amazon Original Stories
Data original de publicação: 14 de janeiro de 2025
Páginas: 126
