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Crítica | Downton Abbey – 1ª Temporada

por Gabriela Miranda
7 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5

A tragédia do naufrágio do Titanic molda o cenário de incertezas causadas pelas tradições em que a família Crawley está inserida. O fato histórico serve como premissa para o desvelar da trama baseada na questão da herança machista da aristocracia inglesa, passada para o homem com parentesco mais próximo e jamais para uma mulher. Contudo, a propriedade Downton Abbey, é habitada e administrada com a ajuda de empregados, como era regra à época. A hierarquia é o que equipara de certa forma os papéis nesses dois mundos, o acima da escada da cozinha e o abaixo dela.

É de imensa curiosidade antropológica percorrer os avanços sociais e econômicos mundiais a partir do retrato dessa família e seus criados. Existem muitos personagens e muitas histórias pessoais e compartilhadas, o que oferece vários caminhos para a progressão roteiro. É uma concepção de um núcleo, uma amostragem que pode muito bem fazer referência à sociedade em geral. O interessante é notar a devoção por parte de alguns membros da criadagem como Carson, que embora muito atento e rigoroso ao decoro exigido por sua função de mordomo tem grande afeto pela família e sente responsabilidade em prezar pelo bom funcionamento desse lugar que ele também chama de lar.

O relacionamento com os serviçais se estreita com a filha mais nova, Sibyl, que se apaixona pelo motorista comunista. Essa aproximação sugere a discussão de igualdade social e a quebra de padrões impostos pela sociedade, que são reavaliados. Até então, a realidade feminina se restringia à espera de uma proposta de casamento bem sucedida e apropriada, sem possibilidade de voto ou qualquer papel que simulasse uma responsabilidade social além das dependências da casa.

Apesar dessa posição, as personagens femininas são encarnadas com muita determinação e oferecem lampejos de desejo por independência e oportunidades novas dentro do cenário urbano profissional. Para auxiliar no desenvolvimento e na desenvoltura da história que as paredes escutam em Downton Abbey, existem personagens chave que descrevem o pensamento de então e traçam uma reflexão social. A Condessa Matriarca, Violet, personifica os antigos costumes, o estilo de vida baseado nas aparências e poucas verdades ditas em voz alta com muita sutileza, tudo de acordo com a etiqueta aristocrática.

Matthew, o herdeiro, é um advogado liberal que se incomoda com a dinâmica com os serviçais e tem ideias irreverentes. Uma cena tocante é quando ele finalmente percebe que aquele modo de vida que ele critica têm validade factível na vida das pessoas que partilham desses hábitos e que, existe uma real necessidade de manter certas situações porque isso demonstra a responsabilidade para com as pessoas que dependem da propriedade de Downton Abbey.

Mais do que apenas uma observação de costumes e desmandos, essa série traz para nosso conhecimento a primeira vez que se utilizou a luz elétrica na casa. São fatos corriqueiros, mas fantásticos para entender as transformações sociais e psicológicas das pessoas da época. Imaginar como as pessoas lidavam com essas novidades ultra modernas que para nós constitui o básico do cotidiano, tanto que não é possível ter uma real compreensão do que se aprecia hoje, de tanto que estamos com olhos fatigados de inovações e reproduções. É preciso perguntar o que de fato e como essas novidades potencializaram o presente estágio de comportamento humano.

O que são finais de semana?! Para um aristocrata trabalho não existe. Então dias de folga não fazem sentido. Essa frase dita por Violet resume bem a questão de contraste entre uma maneira obsoleta de ver a vida e outra em arranjo mais próximo da realidade de hoje. A constituição de organização social e trabalhista começa a ganhar um sentido que contradiz o modelo vigente de sociedade. Os romances e segredos de cada personagem, seja ele aristocrata ou empregado, vão preenchendo e amarrando a história somando-se às coisas a serem observadas nessa série aclamada pelo público.

Downton Abbey – 1ª temporada (2010)
Criador: Julian Fellowes
Roteiro: Shelagh Stevenson, Tina Pepler
Direção: Brian Percival, Ben Bolt, Brian Kelly
Elenco: Maggie Smith, Hugh Bonneville, Elizabeth McGovern, Dan Stevens, Jessica Brown-Findlay, Laura Carmichael, Jim Carter, Brendan Coyle, Lesley Nicol, Sophie McShera, Siobhan Finneran, Michelle Dockery, Rob James-Collier, Phyllis Logan, Joanne Froggatt
Duração: 65 min. (cada episódio)

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