Crítica | Dr. Mabuse, O Jogador (1922)

estrelas 5,0

Dr. Mabuse é um desafio à primeira vista. Filme silencioso com quase 5h de duração* e dividido em duas partes, a primeira, O Jogador e a segunda, O Inferno do Crime, que por sua vez são subdivididas em atos, nos quais acompanhamos a história central sob duas perspectivas diferentes, uma mais filosófica e psicológica (a primeira parte) e outra mais sociológica e ligada ao ‘entretenimento expressionista’ (a segunda parte).

Escrito por Fritz Lang e sua esposa Thea von Harbou, o roteiro de Dr. Mabuse foi baseado na obra de Norbert Jacques, e teve uma meta dramática simples: apresentar a história do doutor do título, um psicanalista, apostador, manipulador criminoso e hipnotizador que usava de suas habilidades para enganar outros apostadores, controlar ações na Bolsa de Valores, induzir seus inimigos ao suicídio ou mandar matá-los. Homem de negócios, cidadão comum, viciado em jogos de azar e de homens, doente mental: o “homem das mil faces” é, ao mesmo tempo, uma representação de todos os controladores sociais e vítima patética de seus próprios jogos.

Para nos mostrar a saga de Mabuse, Fritz Lang investiu em dois módulos estético-formais no decorrer do filme. O primeiro, em O Jogador, é ágil e composto por motivos dramáticos ligados à filosofia, à crítica social e a uma série de temas alegóricos e metafóricos, um pouco como em Metropolis, M – O Vampiro de Dusseldorf e O Testamento do Dr. Mabuse, isso só para ficar na primeira fase alemã da carreira do diretor. O segundo, em O Inferno do Crime, é propositalmente arrastado e composto basicamente pelo “cerco” e “consequências” de ações derivadas da primeira parte. Neste bloco, o diretor aposta no espetáculo cinematográfico da investigação, do suspense, dos filmes de gângster e até do western, se considerarmos a atmosfera externa da excelente sequência do tiroteio (sequência que Hitchcock parece ter visto diversas vezes antes de conceber a sua cena semelhante em O Homem Que Sabia Demais de 1934).

O jogo de gato e rato visto em O Inferno do Crime acaba por dar um caminho distinto àquele que o diretor apresentara em O Jogador, algo que não poderia ser diferente – afinal, ele está mostrando duas linhas de acontecimento distintas, não poderia tratá-las da mesma forma –, mas que acaba por estabelecer uma diferença de qualidade entre ambas. Se num primeiro momento temos apresentação rápida de conflitos, indicação de problemas, evocações psicológicas e sugestões das mais diversas, no segundo, ficamos mais à superfície, quase ‘curtindo’ a investigação por si só e observando a derrocada de um manipulador selvagem como Mabuse.

Esse tom de brincadeira com gêneros e com a própria trama é verbalizado pelo diretor em um diálogo do filme, onde ele faz piada interna com o movimento que surgira no cinema alemão após a I Guerra e do qual ele próprio era um membro; diálogo, aliás, que dependendo de como for lido, terá significados diferentes tanto dentro da história de Dr. Mabuse quando no contexto da Alemanha do início dos anos 1920:

_ Qual sua posição em relação ao Expressionismo, Doutor?

_ O Expressionismo é uma mera brincadeira… mas por que não? Tudo hoje é uma brincadeira…!

Ao filmar a história de um psicanalista manipulador de vidas e destinos, Fritz Lang dava o pontapé inicial em sua recorrente crítica ao uso abusivo do poder, à escravidão ou servidão (física, moral e psicológica) de pessoas, ao aproveitamento das fraquezas do outro para proveito próprio e ao crime como cédula organizada e sempre um passo à frente de um quase incompetente setor policial ou investigativo.

Fruto de uma República de Weimar entregue a praticamente todos os problemas reais que aparecem no roteiro, Dr. Mabuse é uma visão densa e questionadora sobre o “comando dos invisíveis”, a sempre presente desculpa para que todos se submetam a determinada situação porque “eles” (os invisíveis de muitas faces, que são todos mas não são ninguém ao mesmo tempo) não estão disponíveis, não se interessam pelo fato ou, declaradamente, não irão fazer nada a respeito.

Utilizando cenários pontualmente expressionistas, montagem ágil, simbólica e dialética (especialmente na primeira parte), guiando um elenco afinadíssimo e com um enredo de término épico e anticlimático ao mesmo tempo, Fritz Lang faz em Dr. Mabuse o seu primeiro grandioso ‘ensaio de uma época’, um suspense expressionista de caráter político que não tinha medo nenhum de denunciar o que via e jogar, assim como seu protagonista, com as cartas oferecidas pelo tempo. O resultado é o que vemos hoje: um filme cuja mensagem, por mais cifrada que seja pela estética e pela forma, consegue se fazer escandalosamente atual.

O jogo desonesto de Dr. Mabuse parece nunca ter fim.

* Existem várias versões para este filme. A que eu tive oportunidade de assistir foi realizada pela Murnau Foundation Restoration no ano de 2010 (excelente trabalho, por sinal!) e tem a seguinte divisão: 155 minutos para a primeira parte (O Jogador) e 116 minutos para a segunda parte (O Inferno do Crime), totalizando 271 minutos.

Dr. Mabuse, O Jogador (Dr. Mabuse, der Spieler – Ein Bild der Zeit) – Alemanha, 1922
Direção:
Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou (baseado na obra de Norbert Jacques).
Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Aud Egede-Nissen, Gertrude Welcker, Alfred Abel, Bernhard Goetzke, Paul Richter, Robert Forster-Larrinaga, Hans Adalbert Schlettow, Georg John, Charles Puffy
Duração: 271 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.