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Crítica | Drácula 3000 – Escuridão Infinita

por Leonardo Campos
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Antes de começar a análise do questionável Drácula 3000, farei uma breve excursão por alguns registros históricos da figura dos vampiros apresentados em Voivode: Um Estudo Sobre Vampiros, do pesquisador Cid Vale Ferreira. Em seu manancial de informações devidamente organizadas, o autor nos revela a descrição de um panfleto de 1488, impresso em Nuremberg, documento intitulado “Sobre o cruel tirano Voivode Drácula”. O material aponta que o rei tirano mencionado em algumas produções que abordam a mitologia do maior personagem vampiro do nosso imaginário cultural era maldoso, vil, empalava as suas vítimas e as fazia cometer canibalismo, uma cabal representação da dominação mortal deste monstro também conhecido por se banhar com o sangue de suas servas e de jovens da região, tudo isso antes de ser convertido ao cristianismo pelo rei da Hungria. Passado tenebroso, não e mesmo? Na versão anos 2000, produzida por Wes Craven, o protagonista dirigido por Patrick Lussier é o vampiro da geração MTV, sexy, pop e subversivo, integrante de uma cultura cinematográfica que já tinha trabalhado exaustivamente a sua mitologia. O que sobrou, então, para esta ultrajante versão que avança um milênio?

A resposta é um sonoro “nada de interessante”, pois Drácula 3000 – Escuridão Infinita não dialoga bem com a complexidade histórico do personagem e entrega para o seu público uma narrativa tão infame que nos perguntamos, durante a sessão, onde ficou o bom senso de quem regeu, escreveu e investiu dinheiro num projeto tão sem vida. A menção ao estudo de Cid Vale Ferreira foi resgatada porque lembro exatamente do momento em que lia o estudo e tinha como planejamento, saber qual rumo possível para o avanço temporal depois que da chegada do vampiro aos anos 3000. Você sai de uma zona de compreensão ampla de um personagem e adentra, ao chegar neste filme, num processo de diluição de qualquer complexidade dramática em prol da profusão de bobagens para entretenimento barato. Criatura inicialmente solidificada na cultura literária, tendo a Inglaterra, a França e a Alemanha como principais contribuintes para a construção de sua extensa mitologia, o vampiro aqui é representado por uma versão tosca do clássico romance de Bram Stoker.

O ponto de partida da literatura é perdido até mesmo para os personagens situados no ano 3000, era assustadoramente estéril intelectualmente, haja vista que os personagens apresentam profundo desconhecimento de dados históricos. Parece que a sociedade passou por processo de involução e as pessoas ficaram mais burras, vazias e pueris. Dirigido e escrito por Darrell Roodt, o filme nos apresenta o vampiro secular situado numa nave em órbita, intitulada Demeter. Ela é encontrada por um grupo de exploradores que sequer imaginam os perigos que podem se originar de tal condução misteriosa. Quem lidera a missão de análise do local é o Capitão Van Helsing (Casper Van Dien), acompanhado de Aurora (Erika Eleniak), o ajudante 187 (Coolio), Mina (Alexandra Kamp), Humvee (Tiny Lister Jr.), o estereótipo do negro brutamontes, e o professor Arthur (Grant Swanby), grupo que mais tarde descobrirá a origem de Drácula, remetida ao âmbito da fictícia Galáxia Carpatiana, referência luxuosa ao Monte Cárpatos, local onde Nosferatu, uma das primeiras adaptações da lenda criada por Stoker para o cinema, viveu em determinado período.

Para quem espera por referências sofisticadas, talvez essa tenha sido a única tentativa que posso destacar como memorável. Ademais, a nave perdida é um feixe de interrogações. Eles encontram apenas um esqueleto com um crucifixo cravado e alguém com uma noção mínima de História diz que na época que data o abandono da nave, o catolicismo tinha sido proibido. Há também caixões cheios de areia. A crise se estabelece quando um dos personagens, figura que não consegue ficar por alguns instantes sem usar drogas, procura por alguma coisa que lhe sirva neste segmento e se corta em sua busca. O sangue derramado, mesmo que mínimo, desperta o lendário Conde Drácula (Langley Kirkwood), criatura que ganha a cena sem charme algum, tampouco aura assustadora. Ele é fruto dos figurinos equivocados de Wolfgang Ender e da maquiagem tosca de Clinton Smith. Os seus atos são disfarçados pelos efeitos visuais nada operacionais de Cassiano Prado, setor que teria sido melhor se suprimido, tamanha a baixa qualidade do material finalizado. É tudo muito constrangedor e óbvio, com os personagens a circular pela nave e lutar pela manutenção de suas vidas diante da ameaça com dentes pontudos e muita sede de sangue.

No limiar da morte e da vida, alijado das considerações morais que regem a sociedade, Drácula é levado do atmosfera gótica entre o século XIX e a chegada do século XX para o ano 3000, um período pouco mencionado no filme, sem qualquer reflexão contextual que nos faça sentir inseridos numa sociedade que em tese deveria ser bem avançada, mas como já mencionado, parece ter atravessado um enorme retrocesso, inclusive tecnológico. Fim dos tempos! Os corredores metálicos da nave, parte integrante do design de produção de Jonathan Mely, buscam emular a linguagem da ficção científica, mas o orçamento baixo não permitiu o estabelecimento de um espaço que atenda as pretensões em questão. A trilha sonora, devo dizer, consegue ser ainda mais inexpressiva, uma decepção para um filme de vampiro que poderia, ao menos, salvar-se no campo da musicalidade. O trabalho de Michael Hoening, compositor da produção, não atende aos requisitos mais básicos e enterra ainda mais os personagens e a história no que diz o subtítulo brasileiro para o filme, isto é, numa “escuridão infinita”. Em suma, tenebroso, sem graça, bobo e uma afronta ao imaginário popular em torno do complexo Conde Drácula.

Drácula 3000: Escuridão Infinita (Dracula 3000/Estados Unidos/África do Sul, 2004)
Direção: Darrell Roodtr
Roteiro: Ivan Milborrow, DarrellRoodt
Elenco: Casper Van Dien, Erika Eleniak, Coolio, Alexandra Kamp, Grant Swanby, LangleyKirkwood, Tommy ‘Tiny’ Lister, UdoKier
Duração: 86 min

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