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Crítica | Drácula de Bram Stoker

Dentes, sangue e efeitos clássicos.

por Ritter Fan
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Quando Winona Ryder, como uma maneira de amenizar sua partida surpresa da produção de O Poderoso Chefão III por exaustão, levou o roteiro de Drácula, escrito por James V. Hart para a apreciação de Francis Ford Coppola, ela não tinha muita esperança que o cineasta abraçasse o projeto, mas, segundo ela própria, seus olhos se iluminaram já no título, em razão de o romance de Bram Stoker ser um de seus favoritos. E esse foi o início de um processo que levaria o diretor a revitalizar e ao mesmo tempo alterar radicalmente a imagem audiovisual do Rei dos Vampiros e que seria, também, seu último – até o momento – sucesso comercial.

Coppola, que na década de 90 já não tinha absolutamente mais nada a provar como diretor, decidiu desafiar-se, recusando qualquer uso de efeitos que não fosse efeitos de câmera, ou seja, basicamente revertendo ao Cinema do começo do século XX, de certa forma aproximando sua obra da tecnologia da época em que o material fonte foi escrito (1897), nos primórdios da Sétima Arte. Com isso, tudo o que vemos em Drácula de Bram Stoker é fruto de um trabalho no melhor estilo da velha guarda cinematográfica fundindo cenários, filmagens em locação, figurinos, maquiagem e efeitos óticos que fazem de tudo para recontar a história clássica, permanecendo ao mesmo tempo próximo do original, inclusive – e especialmente – com o uso do artifício narrativo das correspondências que Stoker famosamente utilizou e que é um dos vários fatores que tornam inesquecível seu romance, mas também criando identidade própria e marcante que faz desse “novo velho” Drácula tanto do autor original quanto de Coppola.

Os triunfos técnicos já começam no belíssimo e trágico prelúdio que narra com violência e lirismo a queda do Conde Vlad Dracul (Gary Oldman) com o suicídio de sua querida Elisabeta (Winona Ryder) em um momento shakespeariano que o leva a renunciar Deus e a ganhar vida eterna que cobra um terrível preço. É um início poderoso, com Oldman – de longe a melhor escalação de elenco do longa – imediatamente abraçando seu papel que, se pensarmos bem ele vive de três maneiras bem diferentes, como guerreiro, como um idoso monstro isolado em um castelo e, finalmente, como um cavalheiro conquistador. O retorno ao presente do filme, em que, sem perder tempo, vemos R.M. Renfield (Tom Waits canalizando o Salvatore de Ron Perlman, em O Nome da Rosa) internado como servo comedor de insetos de Drácula e o corretor de imóveis Jonathan Harker (Keanu Reeves) partindo para a Transilvânia para vender propriedades em Londres para o Conde Drácula, deixando sua noiva Mina Harker (também Ryder, como uma suposta reencarnação de Elisabeta) na companhia de sua melhor amiga Lucy Westenra (Sadie Frost).

O roteiro de Hart é certeiro na forma de narrar a história e a direção de Coppola mostra precisão no que focar, preferindo trabalhar a presença de Oldman como Drácula como o centro das atenções, uma decisão mais do que acertada. O trabalho de próteses práticas que transformam o ator em um vampiro idoso de centenas de anos, depois o rejuvenesce ao mesmo tempo que o converte em um lobisomem são excelentes, assim como toda a atmosfera gótica que o design de produção de Thomas E. Sanders (em seu primeiro trabalho), a direção de arte de Andrew Precht (responsável por Hook, a Volta do Capitão Gancho, seu primeiro longa, no ano anterior) e a fotografia do veterano Michael Ballhaus (Os Bons Companheiros) conseguem tão magistralmente evocar.

Curiosamente, porém, o desafio auto imposto por Coppola de só usar técnicas antigas para os efeitos especiais, por mais admirável e corajosa que possa ser, acaba sendo uma armadilha. E a armadilha está não no seu emprego, mas sim no exagero e Drácula de Bram Stoker chega a ser uma espécie de glossário de efeitos especiais óticos. Temos aceleração de frame rate, retroprojeção, dupla exposição, fechamento de íris, pinturas matte, perspectiva forçada e mais um sem número de técnicas clássicas que acabam, em seu agregado, em razão de sua repetição à exaustão, transformando o longa no equivalente gótico de um desfile de escola de samba. Reparem quantas vezes o braço de Drácula se estende, o quanto vemos os olhos dele projetados no horizonte, o quanto as sombras são usadas e vocês notarão o quanto Coppola estava se sentindo o proverbial “pinto no lixo”, divertindo-se em seu oficio, mas esquecendo o comedimento, o que acaba quebrando o pouco de terror que há no longa e transformando o próprio drama no equivalente old school dos blockbusters entupidos de computação gráfica. Não me entendam mal, porém, pois eu prefiro muito mais um monstro de efeitos práticos do que um que nada mais é do que um desenho animado sobreposto a um longa, mas há limite para tudo e Coppola exagera demais da conta aqui.

No entanto, esse não é o único problema do longa. Repararam como elogiei efusivamente a escalação de Gary Oldman? Pois bem, ele é o único contraponto que há no filme para os trabalhos de interpretação tenebrosos de Reeves e Ryder. Vamos primeiro combinar que os dois nunca foram – e ainda não são – bons atores, mas eles sempre souberam usar suas limitações em seu favor. Mas, aqui, especialmente Reeves é o equivalente humano a uma maçaneta de porta de castelo na Transilvânia (é importante não confundir ator “gente boa” com ator bom) e Ryder, um pouco melhor, pelo menos conseguindo por vezes parecer que sabe o que é atuar (ajuda o contraste com a fraquíssima Frost, claro). Nem mesmo o grande Anthony Hopkins ajuda, pois o papel que tem, o do notório caçador de vampiros Abraham Van Helsing (além de narrador e do padre que diz a Vlad que Elisabeta não entrará no reino de Deus), é, na melhor das hipóteses, caricato.

Esses fatores negativos tiram uma boa parcela do poder que o filme poderia ter se a escalação do casal britânico (composto de dois atores do lado errado do Atlântico que não sabe fazer o sotaque britânico, aliás…) tivesse sido mais inspirada e se Coppola tivesse se contentado a usar de forma parcimoniosa seus tão queridos – e bem-vindos – efeitos de câmera. De forma alguma, porém, Drácula de Bram Stoker deixa de ser muito bom e, mais ainda, de ser uma grande reviravolta no interesse vampírico cinematográfico em geral e no Conde Drácula em particular, retirando do clássico personagem aquela imagem bela, sem dúvida, mas engessada do monstro de cabelos pretos lambidos, fraque impecável e capa preta de interior vermelho que durou por tantas décadas.

Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker’s Dracula, EUA – 1992)
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: James V. Hart (baseado em romance de Bram Stoker)
Elenco: Gary Oldman, Keanu Reeves, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Richard E. Grant, Cary Elwes, Billy Campbell, Sadie Frost, Tom Waits, Monica Bellucci, Michaela Bercu, Florina Kendrick, Jay Robinson
Duração: 128 min.

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