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Crítica | Drácula, de Bram Stoker

por Leonardo Campos
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O Vampiro, de John Polidori, em 1819. A Família Vurdalak, de Alexei Tolstói, de 1847. A Dama Pálida, de Alexandre Dumas, de 1849. Drácula, de Bram Stoker, de 1897. Tantos personagens, muitas obras, vários vampiros. O brevíssimo panorama não delineou outras obras acerca da temática, mas nos permite reconhecer o campo de atuação dos vampiros na literatura para afirmar: nenhum deles conseguiu o mesmo impacto e legado que o conde elaborado pelo irlandês Bram Stoker, alegoria para a época de busca por supremacia da Inglaterra, nação que se encontrava diante dos conflitos políticos e sociais europeus que demarcaram a virada do século XIX.

Importante ressaltar, no entanto, que Drácula é um personagem mais importante que o próprio “livro” que o veiculou. Não que a narrativa epistolar de Bram Stoker seja indigna de ocupar o patamar das obras literárias importantes e bem escritas, mas apesar da sua importância como objeto de análise histórica, além de alguns recursos narrativos fora dos padrões para o romance romântico, a expansão diante das produções oriundas da era da reprodutibilidade técnica eclipsou o personagem literário, nos distanciando cada vez mais distantes do texto, em prol de suas representações visuais ao longo do século XX e nas primeiras décadas do século XXI.

Creio que o excesso de vampiros na cultura da mídia diminui o exercício diletante ao ler o romance de Stoker. No entanto, aos interessados em conhecimento e aprofundamento na mitologia do personagem, a leitura vai além do mero entretenimento, tornando-se um manual de análise de um complexo contexto histórico, politicamente e socialmente tensos e agitados. Drácula, de Bram Stoker, flerta com o imperialismo que dominou as nações industrializadas ao longo do século XIX, com o ódio ao estrangeiro, as novas doenças, além de retratar a luta patriarcal pela manutenção das mulheres em seus “devidos” lugares, haja vista os primeiros passos de emancipação feminina que se delinearam em alguns pontos da Europa.

Ao lado de Frankenstein e O Médico e o Monstro, Drácula integra a Santíssima Trindade do horror no bojo da literatura, personagens excessivamente reciclados na cultura audiovisual posteriormente, alvo de interesse da indústria cultural até os dias atuais. As dualidades comuns ao período estão bem delineadas no romance: o bem contra o mal, o devasso contra o virtuoso, etc. O mito não é fruto exclusivo da obra de Stoker, mas já trafegava pela cultura desde os povos babilônicos. A versão que conhecemos é a que se aproxima do folclore eslavo.

Graças ao numeroso arcabouço de releituras cinematográficas, televisivas e versões para o público juvenil, a história do vampiro inimigo da luz e da religião, capaz de se transformar em indesejados animais que “habitam” a noite, é imaginado de maneiras amplamente distintas pela maioria das pessoas que dizem “conhecer” Drácula. Na verdade, muitas já assistiram a um dos filmes ou leu uma revista em quadrinhos, mas grande parte sequer teve acesso a uma das páginas do livro de 1897, erguido por meio dos polifônicos pontos de vista dos personagens.

Diante do exposto, vamos ao conteúdo da obra: narrada no formato epistolar, a obra ora traz depoimentos dos personagens, ora recortes de jornais e outros gêneros textuais. Cronologicamente, a história parte da Inglaterra, em 1890, com Jonathan Harker, advogado britânico, pouco experiente, indo ao encontro do Conde Drácula na Transilvânia, tendo em vista prestar consultoria jurídica para uma transação imobiliária. O caminho, narrado por meio de descrições que reforçam a presença de elementos góticos, recursos que deixariam qualquer design de produção de cinema encantado com a precisão de detalhes, é repleto de curvas sinuosas e mistério, da população que tem medo do conde, aos elementos da paisagem soturna.

Após chegar ao castelo, Harker se surpreende com a delicadeza e os modos de Drácula. Com o tempo, percebe que a gentileza, na verdade, é puramente estratégica, pois o homem tem interesse em mantê-lo por lá. Sem nunca demonstrar fome, tampouco ter seu reflexo no espelho, o novo cliente de Harker começa a levantar suspeitas em excesso. Drácula também é visto se comportando como um bicho, a caminhar pelas paredes do castelo, mas ainda assim, Harker não o consegue interpretar como vampiro. Mais adiante, os dois perdem contato. Harker sai do castelo e fica em Budapeste por um tempo, com estado de saúde fragilizado depois da estadia na Transilvânia.

Logo mais, a melhor amiga de Mina, esposa de Harker, começa a apresentar problemas de sonambulismo e demência. O Dr. Van Helsing é chamado para resolver o problema. Lucy não consegue encontrar a salvação, Mina é tentada e seduzida, mas o final feliz é garantido. Drácula é caçado por Harker, Van Helsing e um grupo de pessoas crentes nas maledicências do folclore, o que culmina no esperado “felizes para sempre” do desfecho, traduzido diferentemente em diversas releituras da obra, muitas delas, pessimistas.

Cheio de excentricidades, Drácula carrega terra da Transilvânia para qualquer lugar que viaje, pois é preciso do solo do local para garantir o seu bem estar. Com personagens bem elaborados, profundos psicologicamente, o romance de Stoker é um bombardeio de críticas de cunho político e social. No que diz respeito ao território feminino, Drácula aborda as mulheres numa perspectiva polêmica, mas na época ainda em germinação teórica e política. As mulheres seduzidas pelo vampiro se tornam agressivas sexualmente, máquinas de sensualidade e sexualidade exorbitante, contraponto das belas, recatadas e virginais, transformadas em feras sexuais que precisavam ser detidas.

Os críticos consideram a obra uma versão gótica da guerra dos sexos, haja vista a representação da liberdade feminina na figura de Mina. Era uma época de mudanças no campo da ciência, com pesquisas em relação ao sangue (não se conhecia ainda os tipos). Muitas doenças, em especial, a sífilis, quase desconhecida e de efeitos devastadores, assustavam as pessoas, dai a crescente alusão do vampirismo e do sangue ao “mal”. A alegoria da contaminação do sangue por conta da chegada de estrangeiros na Inglaterra também está presente em cada trecho do livro. O “outro” que vinha de fora e ousava se estabelecer entre os ingleses era tratado como os leprosos da Idade Média.

Drácula também abre precedentes para outras discussões tangenciais: o homoerotismo nas relações do vampiro com Jonathan, questões que ficam bem delineadas quando assistimos às adaptações, em especial, a versão de Coppola, de 1992. Parte integrante da cultura pop, Drácula é um dos personagens literários mais adaptados para as narrativas da era da reprodutibilidade.

Escrita por um autor que se debruçou na mitologia dos vampiros em busca de algo mais próprio, o romance não teve o respeito que tem nos dias atuais, isto é, o sucesso na posteridade, um reconhecimento que não consegue ser contemporâneo. À guisa de curiosidade, o dedicado Stoker morreu na mesma semana do naufrágio do Titanic, tragédia que eclipsou a sua partida. Inicialmente o teatro, depois a indústria cultural e a sociedade do espetáculo trataram de resgatar o seu legado por meio de um numeroso painel de produções, como apontado anteriormente.  Drácula sobrevive!

Drácula (Inglaterra, 1897)
Autor: Bram Stoker
Editora no Brasil: Editora Landmark
Tradução: Eduardo Alves
Páginas: 432

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6 comentários

Zezão 1 de novembro de 2018 - 17:57

Nunca consegue terminar esse livro.

Desde o ano passado, lê pouquíssimos livros de terror (Frankenstein e Allan Poe), então pode ser uma falta de costume com o gênero, mas não acredito nisso.

As primeiras páginas tem um suspense ímpar, em que se acresce os elementos que vão apresentado de pouco em pouco, a ameaça, grande ameaça, que se avizinha.

Desde o diálogo no hotel, até as rezas dos cidadãos dali e tudo o mais (como um homem pode ser tão burro?!), ao encontro com os lobos na estrada.

Os Personagens são cativantes, a Lucy é alguém que você corre as páginas para ter certeza que nada de ruim aconteceu. E nisso está, com certeza, a maior qualidade desse livro, que se perde, infelizmente.

As cartas, muitas vezes, discorrem sobre o mesmo acontecido, ou ficam muito tempo, mais que o necessário, em algo. Chega a um momento que não se aguenta mais. Precisa de tantas cartas para apresentar o Van Helsing? Ou tantos encontros do dracula com a pobre coitada que, mais uma vez, terá uma transfusão de sangue?

O Frankestein é um exemplo de como mostrar o necessário, tão somente. Pretendo dar uma terceira chance em breve, já que tenho na estante.

Acho que a crítica está justíssima, esquecendo meu ranço.

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Dan Oliver 31 de outubro de 2018 - 22:59

Excelente obra. Tenho uma edição. O jogo epistolar é muito interessante. O texto se estende um pouco além do que deveria, na minha opinião, mas não é nada que tire o grande mérito do Stoker. Prende até o final e não decepciona. Talvez se tivesse feito o sucesso que o autor esperava na época quem sabe não teria ganhado uma continuação…

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Dan 31 de outubro de 2018 - 16:44

Li o livro recentemente e gostei demais. Entretanto acredito que algumas passagens não seriam vistas com bons olhos hoje em dia. O extremo conservadorismo de Stocker, em especial quanto à xenofobia e machismo, não envelheceram bem. As cartas entre Lucy e Mina dizendo o quanto os homens são honrados e maravilhosos, enquanto elas, “simples mulheres”, pouco seriam dignas de seu amor soam risíveis.
Mais do que isso, acho que o filme tem um problema estrutural (muito bem “consertado” por Coppola): o excesso de coincidências. É incrível que Jonathan seja noivo de Mina, que por sua vez é amiga de Lucy, a qual é pretendida por 3 homens, dentre os quais o Dr. Seward, responsável por cuidar de Renfeld (e qual é, afinal, a ligação deste com Drácula?) e pupilo de Van Helsing. A impressão que fiquei é que só tinham 5 pessoas em Londres. Não havia o menor motivo para o Drácula ir atrás justamente de conhecidos de Jonathan.

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Anônimo 31 de outubro de 2018 - 13:17
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Dr. Destino 31 de outubro de 2018 - 09:01

Sempre tive interesse em ler, mas nunca pude por falta de organização do tempo… Em breve pretendo corrigir este erro

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Pedro, o Homem Sem Medo 29 de outubro de 2018 - 19:24

Ainda não tive a oportunidade de ler, mas já tenho em minha modesta coleção. Se for tão bom quanto Frankenstein, eu irei adorar.

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