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Crítica | Dragão Vermelho

por Leonardo Campos
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Nossas cicatrizes tem o poder de nos lembrar que o passado foi real.
Hannibal Lecter em carta para Will Graham

Brett Ratner foi o cineasta escalado para assumir a última incursão de Anthony Hopkins como o canibal psicopata Hannibal Lecter em Dragão Vermelho. Também com um estilo próprio, sem o grafismo de Ridley Scott ou as simbologias sutis de Jonathan Demme, o diretor da vez investiu no desenvolvimento de um filme mais brando, psicologicamente envolvente e com uma dinâmica com momentos de violência mais amenos, num caminho também interessante para fechar uma trilogia que foi aberta mais adiante com o bem-intencionado, mas equivocado A Origem do Mal. Ao longo dos seus 115 minutos de duração, o enredo consegue prender a nossa atenção, há personagens com bom desenvolvimento dramático, mas a sensação é de que “já vimos tudo isso antes”, talvez pelo fato de não haver um distanciamento significativo entre Hannibal e essa nova empreitada, deslocadas cronologicamente por menos de 03 anos de produção e lançamento.

Desta vez, o enredo foca em Will Graham, personagem desenvolvido com destreza no ótimo desempenho de Edward Norton. Ele é um agente do FBI que por pouco não morreu nas mãos de Hannibal Lecter (Anthony Hopkins). Após se salvar, consegue mandar o psicopata para a prisão. Após o traumático acontecimento, ele se refugia com a esposa (Marie-Louise Parker) e o filho para uma região distante do ocorrido, tendo em vista estabelecer um modo de vida mais ameno, sem as emoções e perigos das investigações criminais que tanto fascinam, mas também ofertam risco de vida. Não demora, no entanto, para ele ser convocado por Jack Crawford (Harvey Keitel), interessado na perspicácia de Graham para a resolução de um novo e aterrorizante caso. Inicialmente reticente, o agente se sensibiliza com a causa, afinal, famílias estão no alvo de um engenhoso assassino, nomeado pela mídia como “Fada dos Dentes”.

Para levar adiante a sua investigação, Will precisa de informações sobre o assassino e melhor compreensão do perfil criminal. Para isso, reencontrará com o seu algoz, o canibal psiquiatra Hannibal Lecter, enclausurado na prisão de segurança máxima que vimos em O Silêncio dos Inocentes, narrativa que cronologicamente, se passa antes dos acontecimentos de Dragão Vermelho. O audacioso Dr. Lecter topa colaborar, salvo que algumas regalias lhe sejam previstas, porém, ao passo que o caso começa a ser solucionado, a vida de Graham entra em perigo, pois o psiquiatra manipulador também arruma uma estratégia para passar informações pessoais do policial para o psicopata “Fada dos Dentes”, interpretado com muita eficiência pelo desempenho dramático de Ralph Fiennes, ator que se entrega ao personagem monstruoso, figura que também traz consigo alguns traços de humanidade que permitem entender o que se passa em sua mente turva, perturbada pela criação trágica com a sua avó castradora e algumas formas de abandono.

Como é comum nas produções inspiradas no universo literário de Thomas Harris, pontos importantes da história da arte ganham conexões com o desenvolvimento da trama e aqui, temos um paralelo com O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida do Sol, pintura de William Blake que alegoriza passagens do Apocalipse, livro de encerramento da Bíblia Sagrada. Com roteiro de Ted Tally, dramaturgo que concebeu o roteiro de O Silêncio dos Inocentes, o filme traz um elenco extraordinário, complementado por Philipe Seymour Hoffman e Emily Watson, figuras que conseguem dar suporte aos diálogos dos membros da linha de frente, isto é, os protagonistas. Ainda sobre o assassino, o “monstro” desta versão não se conecta com o jeito Ed Gein de customizar roupas com peles, tampouco põe as suas vítimas num poço ou as abandona num rio. Aqui, o criminoso morde as suas vítimas utilizando a dentadura da avó, uma senhora já falecida, castradora e item maléfico na formação do caráter do rapaz, perturbado pela presença da mulher que insiste em aparecer nos seus momentos de alucinação.

Um ponto interessante do roteiro de Tally, algo devidamente administrado pela direção de Ratner, é pensar que assim como no primeiro filme, Dragão Vermelho opta por deixar o excesso e a obviedade de lado, nos apresentando a avó através de um excelente trabalho de som, sem os flashbacks que explicam demais as coisas. Sobre o modo de operação do psicopata, antes de matar os humanos de sua lista, o assassino tem o hábito de dizimar os animais de estimação das famílias, além de colocar pedaços de espelhos nos olhos das vítimas, na intenção de que pareçam vivas. Tudo muito ritualístico e macabro, oriundo de uma mente perturbada. Um dos pontos de virada é o símbolo chinês que nos remete ao título do filme, deixado na árvore de uma das famílias assassinadas, fruto de um assassino que se orgulha do que faz. É uma assinatura, equivalente ao inseto, a mariposa da morte, deixada na garganta das vítimas em O Silêncio dos Inocentes. Ainda sobre simbologia, os espelhos simbolicamente representam mau agouro, um dos tantos elementos significativos expostos em cena para compor a filosofia proposta pelo filme.

Ademais, sobre os seus aspectos estéticos, Dragão Vermelho cumpre as suas funções com uma equipe competente, capaz de construir uma estrutura narrativa visualmente atrativa e artisticamente eficiente. Na direção de fotografia, o veterano Dante Spinotti, eficiente nas escolhas que vemos na tela, compõe quadros que vão da magnitude dos planos mais abertos e explicativos para momentos mais claustrofóbicos, voltados ao processo de inserção da angustia temática na visualidade fílmica. Danny Elfman, um profissional de renome na indústria, entrega uma trilha sonora com três ou quatro momentos de inspiração, mas o resto é pouco envolvente e não consegue se equiparar em momento algum com as texturas de Howard Shore e Hans Zimmer para as produções antecessoras. Kristi Zea, no design de produção, retorna para assumir a composição dos espaços, num trabalho tão interessante quando o realizado em O Silêncio dos Inocentes, sempre focada nos detalhes e na construção de significados para cada adereço posto em cena. A cena de abertura no escritório do Dr. Lecter foi inspirada no espaço de produção intelectual de Freud, ambientação que traz uma rápida menção ao inseto do primeiro filme, oportuna relação de homenagem, mas também de conexões temáticas entre as tramas que englobam o universo Hannibal.

Por sinal, ao falar do psicanalista, para quem já leu ou conhece, é comum relacionar a trama com o que Freud nos fala sobre a renúncia dos instintos no elucidativo O Mal Estar da Civilização, texto publicado em 1939 e ainda muito atual. Para o psicanalista, a negação dos instintos está na essência do processo civilizatório. Em suma, ao trazer Freud para esta reflexão, penso que o psicopata não se insere no viés social porque há fronteiras que o impedem de realizar os seus atos. A civilização, como nos coloca o pai da psicanálise, é erguida sob a renúncia dos instintos mais profundos. Apesar de tentar conter-se e vigiar-se a todo instante, o assassino acaba cedendo a esses instintos, pois dialogam mais forte no embate entre as vozes que habitam a sua labiríntica mente. Ainda sobre interpretações periféricas, Dragão Vermelho aborda na seara sociológica questões como a interferência da mídia na resolução de casos policiais (e o personagem Freddy Lounds paga um alto preço pela intromissão no lugar e na hora errada) e também a questão do abandono social (o assassino é fruto do abandono da mãe e dos maus tratos da avó). E não é apenas o psicopata traumatizado que representa esse lado instinto reprimido. Hannibal é parte deste processo, um monstro comparado ao bicho-papão, aos arquétipos sombrios dos clássicos contos populares, um ogro contemporâneo que assusta e, concomitantemente, num paradoxo da humanidade, fascina ao representar o lado sombrio de nossas vidas.

Dragão Vermelho (Red Dragon, EUA – 2003)
Direção: Brett Ratner
Roteiro: Ted Tally
Elenco: Edward Norton, Anthony Hopkins, Marie-Louise Parker, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Anthony Heald.
Duração: 115 minutos

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