Crítica | Dragged Across Concrete

Como afirmei em minha crítica de Confronto no Pavilhão 99, S. Craig Zahler é um nome a ser seguido. Apesar de nenhum de seus filmes até agora (apenas três, contando com o objeto da presente crítica) ter sido lançado em grande circuito cinematográfico em lugar algum, nem mesmo nos EUA, ganhando lançamento limitadíssimo simultâneo às plataformas de VOD, o fato é que o tipo de filme que ele faz é único nos dias de hoje. Dragged Across Concrete é mais uma prova disso e, também, de sua tendência em repaginar e trazer para os anos 2000 a brutalidade de vários estilos de filme dos anos 70.

Começando com Rastro de Maldade, ele abordou o western de horror. Com Confronto, ele mergulhou profundamente na onda setentista dos “filmes de prisão” como Papillon e Alcatraz – Fuga Impossível. Agora, com Dragged Across Concrete (um dia o filme terá seu título vertido para o português oficialmente, mas a tradução direta é Arrastado Através de Concreto), ele procura trabalhar os filmes policiais de moral dúbia, flertando até mesmo com o subgênero italiano do poliziotteschi, herança que um de seus protagonistas deixa bem clara. Mas, em comum em todos eles há a violência extremada, explícita e pesada, com personagens torturados e que carregam grandes pesos em seus ombros.

Mas Zahler é um diretor autoral, acrescentando o seu próprio estilo mais verborrágico, de queima extremamente lenta, que costuma levar a explosões de fúria e sangue no terço final de obras bem longas, muitas vezes lembrando a pegada de Quentin Tarantino, mas sem fazer concessões à leveza ou às magníficas apropriações e explorações da cultura pop que o diretor de Pulp Fiction notabilizou-se em fazer. Zahler, de certa maneira, parece querer ser o Sam Peckinpah moderno, trabalhando temas sociais relevantes de maneira discreta dentro de uma estrutura niilista, que torna difícil, se não impossível, gostar ou torcer por esse ou aquele personagem. Zahler tem uma visão suja e pessimista de mundo e ele em momento algum procura podá-la ou torná-la mais agradável ou acessível ao público hoje mal-acostumado com filmes de ação ininterrupta repletos de efeitos especiais, o que, aliás, é uma das razões para suas obras não terem o alcance que deveriam ter (a Lionsgate prometeu lançamento em grande circuito nos EUA se ele cortasse e editasse substancialmente o filme, o que ele se recusou terminantemente a fazer).

A história é simples. Dois policiais veteranos da cidade fictícia de Bulwark, Brett Ridgeman (Mel Gibson) e Anthony Lurasetti (Vince Vaughn) são suspensos sem pagamento por seis semanas depois que seus atos de brutalidade policial são filmados e publicados por um telejornal. Desgostoso por ter dedicado uma vida inteira ao trabalho policial, com aparentemente ótimos resultados, Ridgeman decide ingressar no crime – no estilo “ladrão que rouba ladrão” – e, para isso, alicia seu parceiro. Claro que o plano dá errado e a espiral de violência sai do controle.

Como se pode ver, é uma premissa clichê do começo ao fim. Mas, como já tive oportunidade de reiterar em outras críticas, clichês, por si só, não são ruins. Tudo depende de como eles são utilizados e Zahler sabe manobrá-los e inseri-los magistralmente em sua terceira empreitada na cadeira de diretor e quinta na de roteirista. Para começar, o cerne da narrativa, objeto da sinope acima, é algo que vem preludiado de uma cuidadosa construção de personagens, começando por Henry Johns (Tory Kittles), recém-saído da prisão, que tenta voltar à vida “normal” na medida do possível, tentando tirar a mãe da prostituição e cuidar de seu irmão cadeirante. A ambientação neo-noir já começa forte aqui, com Zahler trabalhando de maneira inclemente esse submundo em que o criminoso não tem saída que não seja continuar sendo criminoso. Da mesma maneira que Johns, Ridgeman também tem seus problemas familiares, com sua filha Sara (Jordyn Ashley Olson) volta e meia sofrendo ataques na região empobrecida onde moram e sua esposa Melanie (Laurie Holden), ex-policial, sofrendo de esclerose múltipla. Ao colocar os dois personagens em posições semelhantes, o roteiro de Zahler não quer dizer que eles são iguais e nem pede simpatia por eles. O que ele faz é trazer contexto para o que cada um deles faz e é aí que ele estabelece um jogo sobre certo e errado, retidão moral e honra cujo resultado o espectador só verá bem lá no final dos 159 minutos de projeção.

Em meio aos dois personagens, há, claro, Lurasetti, que é dragado para o plano de Ridgeman, mas que Ridgeman deixa claro que só é para ele aceitar por ele mesmo e não por amizade, lealdade o ou qualquer outro sentimento nobre desse tipo. Afasta-se, portanto, a desculpa de que pelo menos um da dupla está ali por razões altruístas que talvez pudessem justificar seus atos. Não. A sujeira não sai assim tão fácil, assim como a sujeira que recai nos ombros de Henry Johns lá na outra ponta. Não há inocentes aqui e Zahler sabe muito bem disso.

Mas Zahler sabe mais do que isso. Seu texto é repleto de diálogos asquerosos lidando com violência policial e preconceito racial, sem que ele precise recorrer a discursos de crítica social. Ele costura pequenos comentários, como quando Melanie diz que “não sabia que era preconceituosa até começar a morar aqui” ou quando Ridgeman conversa com seu ex-parceiro e agora chefe Calvert (Don Johnson) sobre como é irritante o mundo ser dotado de câmeras para todo o lado, “condenando” o bom trabalho policial de antigamente. Zahler não prega. Ele apenas coloca, com extremo naturalismo e realismo, o tipo de comentário que volta e meia não só ouvimos as pessoas falarem com a maior tranquilidade do mundo, como nós mesmo acabamos falando sem nem perceber (ou escolhemos não perceber). O roteiro não condena ninguém. Ao contrário, ele joga para o espectador essa função, função que poderia ser resumida muitas vezes como “percebeu o que eu quis dizer, ou você acha normal?”. Zahler está afiadíssimo aqui, mais do que em seus trabalhos anteriores e talvez ele saiba diante do tempo que ele emprega para incutir suas ideias principalmente nos personagens de Gibson e Vaughn (trabalhando juntos novamente depois de Até o Último Homem).

Aliás, o diretor novamente extrai de Vaughn uma atuação assombrosa e, trabalhando pela primeira vez com Gibson, ele consegue do ator uma espécie de versão mais realista, comedida – mas sem perder todos os traços de loucura – de seu Martin Riggs, em Máquina Mortífera. A dupla estabelece uma química imediata, fazendo-nos crer, já na (in)ação inicial, que eles trabalham juntos há muitos anos, com toda uma linguagem corporal própria que ao mesmo tempo revela profundo respeito mútuo e um certo ressentimento de Ridgeman em relação a Lurasetti, já que o primeiro, como ele mesmo diz, está desde os 27 anos de idade sem crescer na carreira. Tory Kittles tem menos tempo de tela, mas, com o pouco que tem, ele faz muito, entregando um personagem igualmente de moral dúbia, mas que o texto de Zahler impregna de um quê de honradez que dialoga bem com as dúvidas da dupla policial.

Mas o espectador tem que estar preparado para um passo lento, bem lento, o que poderá afastar muita gente, ainda que, para mim, as quase 2h40′ tenham passado em um piscar de olhos. E, quem já viu os dois filmes anteriores do diretor e espera o mesmo tipo de “recompensa” de antes, poderá sair frustrado. Zahler faz uma outra espécie de obra aqui, bem mais contemplativa, bem mais preocupada com seu texto e com as atuações do que com a preparação para uma combustão espontânea ao final. Seu lado romancista – ele é autor de cinco obras de ficção – fala bem mais alto em Dragged Across Concrete e a veia de um diretor autoral é inafastavelmente mais saliente. Suas marcas registradas ainda são evidentes, porém, só que esperar apenas mais do mesmo é receita para desapontamentos.

Aliás, da mesma forma que Zahler parece amadurecer e graduar-se com esse filme, seu colega Benji Bakshi, diretor de fotografia de todos os seus filmes, também chega a um outro nível com uma magnífica fotografia noturna ao longo do clímax estendido, trabalhando iluminação natural, reflexos e luzes amareladas evocando podridão em um equilíbrio perfeito que resume o espírito de toda a obra. Evocando a sujeira dos policiais setentistas e fazendo uso de uma razão de aspecto mais ampla do que o padrão de seu trabalho anterior, Bakshi ganha no caráter épico, sem, porém, afastar-se da abordagem inerentemente intimista que o roteiro exige. É, sem dúvida alguma, seu trabalho mais delicado e bonito com Zahler até agora.

Dragged Across Concrete é o terceiro acerto seguido na ainda curta e substancialmente desconhecida filmografia de S. Craig Zahler, mas o filme sedimenta seu estilo, mostra que ele não está confortável em apenas repetir o que o espectador espera dele e não abre mão de uma pegada autoral que é cada vez mais rara de se ver por aí. Sorvendo inspiração diretamente dos anos 70 e retrabalhando estruturas narrativas e enxertando diálogos duros e cheios de significado, o diretor oferece a seus fieis seguidores (sim, quase como um culto!) uma obra-prima.

Dragged Across Concrete (Canadá/EUA – 22 de março de 2019)
Direção: S. Craig Zahler
Roteiro: S. Craig Zahler
Elenco: Mel Gibson, Vince Vaughn, Tory Kittles, Michael Jai White, Laurie Holden, Jennifer Carpenter, Thomas Kretschmann, Justine Warrington, Jordyn Ashley Olson, Udo Kier, Matthew MacCaull, Primo Allon, Don Johnson
Duração: 159 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.