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Crítica | Dredd: O Juiz do Apocalipse (2012)

por Ritter Fan
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O fato de Dredd ser uma adaptação da famosa HQ do Juiz Dredd, personagem criado por John Wagner e Carlos Ezquerra em 1977 para a clássica publicação britânica 2000 AD é o menos importante aspecto deste longa dirigido por Pete Travis, com roteiro de Alex Garland. Afinal, o grande destaque desta pequena, mas não minúscula, co-produção internacional, está na brilhante economia narrativa e na quase perfeita execução das sequências de ação em espaço confinado, com o uso de extrema violência em um contexto pós-apocalíptico.

Com um preâmbulo brevíssimo que eficientemente contextualiza esse futuro em que os sobreviventes de um apocalipse nuclear se aglomeraram em megalópoles batizadas de Mega-City (One, Two, Three e assim por diante), com um sistema penal que reúne a figura do policial, do juiz e do executor em uma só pessoa, os chamados Juízes, a ação logo começa quando Dredd, o mais temido deles, vivido por Karl Urban que, diferente de Sylvester Stallone em sua adaptação galhofa de 1995, jamais tira o capacete, exatamente como nos quadrinhos, é obrigado a fazer dupla com a “estagiária de Juíza” Cassandra Anderson (Olivia Thirlby), que tem poderes psíquicos, de forma a testá-la, em um caso que começa como um “simples” assassinato, mas que acaba com os dois tendo que enfrentar uma gangue de traficantes da droga Slo-Mo liderada por Madeline “Ma-Ma” Madrigal (Lena Headey, mais má que Cersei Lannister e com rosto desfigurado com um ótimo trabalho de maquiagem) em um gigantesco conjunto habitacional, basicamente uma cidade em si mesma, que se torna uma prisão. É, para todos os efeitos, a versão sci-fi e sem artes marciais de Operação Invasão, do ano anterior, com resultado tão satisfatório quanto.

O objetivo de Dredd e Anderson é capturar ou exterminar os bandidos, de preferência sobrevivendo ao final, em uma estrutura básica em que ambos simplesmente andam pelas escadas e corredores escuros da torre. É dentro dessa simplicidade toda que Garland mostra sua criatividade no roteiro, evitando ao máximo situações repetitivas e gradativamente aumentando o grau de destruição que a gangue ensandecida controlada por Ma-Ma imprime sobre os dois juízes sem nenhum traço de preocupação pelos civis que ali vivem. Por seu turno, apesar de toda a violência vilanesca de Ma-Ma, a característica de policial, juiz, júri e executor dos protagonistas, uma belíssima sátira particularmente atual que Wagner e Ezquerra inteligentemente estabeleceram como pilar de sua criação, jamais perde foco. Muito ao contrário, Garland, em toda sua economia (fico imaginando o desequilíbrio do roteiro dele entre linhas de diálogo e descrições de ações e da ambientação), torna a sátira dos criadores dos personagens ainda mais salientes ao costurá-la na infraestrutura da história sem qualquer espaço para gracinhas, piadas ou exageros dramáticos, jogando no colo do espectador a responsabilidade de separar uma coisa da outra e entender o mote da história.

Mas não tem roteiro que funcionaria direito sem a pegada crua e visceral de Pete Travis na direção, que não se esquiva de trabalhar close-ups de Urban fazendo “meia-cara” de mau o tempo todo sem tornar tudo ridículo e as cores mudas e o uso de sombras de Anthony Dod Mantle na fotografia, além dos precisos cortes que mantém a ação funcionando, mas sem desnortear o espectador que Mark Eckersley consegue impor na montagem. É, no frigir dos ovos, uma aula magna de como fazer ação suja, violenta e tensa sem recorrer a CGI onipresente, pirotecnias estrondosas e cacoetes narrativos que tanto assolam as produções modernas em uma espécie de competição de quem consegue fazer mais cortes, escurecer mais a tela, ou trabalhar ângulos de câmera mais enlouquecidos.

Urban também merece aplausos, pois não é todo ator que se dispõe a fazer papeis em que apenas sua boca aparece ao longo de toda a projeção, sem exceções. Mesmo não sendo um virtuoso de sua profissão, o ator é muito autoconsciente do tipo de papel que consegue fazer e ele se entrega ao que faz de coração, realmente convencendo o espectador de seu drama ou, como é o caso aqui, de sua infalibilidade. Em Dredd, mais do que em qualquer outro filme dele (talvez apenas com exceção de seu papel em The Boys), ele mostra que, se tivesse nascido antes, poderia ter sido um dos melhores brucutus dos anos 80. A intensidade da atuação de Urban amplificada pela direção de Travis é tanta que a presença de Thirlby como Anderson – o “rosto” dos juízes, por assim dizer – torna-se um detalhe insignificante ao ponto de ser possível concluir que, se a personagem não existisse, não faria lá muita diferença para o desenrolar da história.

Dredd é “pá pum”, um excelente longa-metragem de ação que usa suas limitações integralmente ao seu favor, entregando soluções originais e elegantes para uma premissa óbvia e batida em um conjunto harmônico e sem gorduras salientes demais que, de quebra, em momento algum retira a essência de seus personagens ou a sátira do material original, mesmo levando-se completamente a sério o tempo todo. Nunca entenderei seu fracasso nas bilheterias, mas já me dou por satisfeito simplesmente por esse filme existir e ser tão bom como é.

Dredd: O Juiz do Apocalipse (Dredd, EUA/Reino Unido/África do Sul/Índia – 2012)
Direção: Pete Travis
Roteiro: Alex Garland (baseado em personagens criados por John Wagner e Carlos Ezquerra)
Elenco: Karl Urban, Olivia Thirlby, Lena Headey, Wood Harris, Domhnall Gleeson, Warrick Grier, Deobia Oparei, Francis Chouler, Daniel Hadebe, Rakie Ayola, Langley Kirkwood, Edwin Perry, Karl Thaning, Michele Levin
Duração: 95 min.

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