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Crítica | Duas Irmãs, Uma Paixão

por Karam
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estrelas 2

Duas Irmãs, Uma Paixão poderia certamente se chamar Duas Horas, Vinte Minutos. Explico: apesar de apresentar-nos um panorama narrativo animador (um triângulo amoroso que envolve duas irmãs e um jovem poeta: o célebre Friedrich Schiller), trata-se de um filme nulo, vazio, quase sem propósito, e que em sua forma é tão equivocado quanto em seu conteúdo. E tudo o que conseguimos tirar dele ao final da sessão, ou seja, o que fica martelando em nossas cabeças durante os créditos finais é o pensamento “Duas Horas, Vinte Minutos/Duas Horas, Vinte Minutos/Duas Horas…”, o seu tempo de duração – que, em termos psicológicos, dura uma eternidade.

Embora por vezes a direção de arte e o figurino, que costumam ser pontos fortes em filmes de época, nos brindem com toques de requinte e elegância; a fotografia se esforce para criar alguns quadros de beleza admirável; o alemão (e sua musicalidade particular) esteja em perfeita sintonia com o clima romântico que perpassa a maior parte do tempo de projeção do filme… não há “maquiagem técnica” que cubra com precisão absoluta os visíveis (vários) defeitos desta bagunça.

Do ponto de vista do roteiro, é incrível como o filme insiste num narrador que vez ou outra aparece para nos “contar a estória”… e como é fácil perceber que a presença desta voz onisciente é absolutamente desnecessária! Além disso, tal insistência aponta Duas Irmãs, Uma Paixão para uma direção semelhante àquela seguida pelos chamados “filmes baratos” – o que certamente não condiz com as pretensões Art House da obra. Os envolvidos falharam miseravelmente em seus objetivos.

Ainda tratando do roteiro, logo percebe-se também que o ritmo do filme é falho pois a sua narrativa não possui um foco. Ao invés de ater-se à estranha/interessante relação entre as irmãs – e então a partir dessa relação construir e sedimentar o personagem do poeta –, conflitos desimportantes surgem com destaque inexplicável e, ao invés de adicionarem novas camadas à obra, só servem para tirar a estória dos trilhos. A ambição é grande, mas a “entrega”, minúscula. A única coisa que explica as duas horas e vinte de muito tédio é a ânsia pelo épico – mas que fique claro que o épico aqui jamais é alcançado, pois não há fôlego, nem força, nem arte suficientes para a concretização de tal objetivo. Nenhuma grande cena, nenhum grande desdobramento. Vazio, vazio, vazio, e um pouquinho de entretenimento descartável. O que poderia ser um fascinante estudo de personagem acaba se tornando apenas (deixe-me usar uma palavra vaga que condiga com a vagueza do filme) algo que ousa ser o que não é, e nem chega perto de ser. Em prol do landscape de uma narrativa extensa, sacrifica-se o potencial de condução dramática de protagonistas ímpares. Uma pena.

A ascensão do poeta e a queda da família das irmãs, assim como a forçada relação da mãe delas com dinheiro são subtemas que soam deslocados e sem o desenvolvimento necessário para sejam devidamente assimilados pelo espectador. No fim das contas, só servem para deixar mais claro que este filme deveria pertencer às duas irmãs e sua intrincada ligação – e não aos pormenores provincianos que as circulam. Para falar a verdade, nem mesmo Revolução Francesa ou qualquer outro acontecimento histórico deveria tirar o brilho das famigeradas protagonistas. Nem mesmo Schiller! Ele é apenas uma ferramenta narrativa que permite com que as personalidades das irmãs e a dinâmica de sua relação sejam expostas.

O que acontece aqui é o seguinte: o que muitas vezes serviria de bom tempero à estrutura do filme, acaba, através de uso descerebrado e exagerado, em overdose! – doce ou salgada, aí é você quem decide.

A montagem possui momentos capengas, como aquele em que Caroline abandona Schiller e Charlotte, num acesso de raiva. Inclusive, a transição entre cenas, sobreposições, fusões… ah!, existem diversas escolhas de mau-gosto que contribuem para empobrecer o filme visualmente; além, é claro, de chamar atenção para seus floreios desconcertantes e ocultar o valor narrativo das cenas em questão.

Escolhas da própria direção são questionáveis, como a insistência em um zoom-in quase cômico em algumas ocasiões. Ainda assim, há de se elogiar a bela mise-en-scène elaborada por Dominik Graf naquela cena, perto do final, em que as irmãs observam o amante doente na cama. A escuridão que as cobre e as transforma em meras silhuetas + o paralelismo entre as suas figuras denunciado pela disposição do enquadramento compõem um quadro digno de filmes Art House. Triste constatar que momentos como este são raríssimos aqui.

As atuações, como a maioria dos críticos vem destacando, são ótimas e a ideia por trás do projeto é louvável. A execução é que deixa muito a desejar, e a lentidão com que a narrativa é conduzida só confirma a sua falta de foco. O humor tem seus bons momentos, mas nada digno de qualquer destaque. As personagens femininas, todas, são fortes e isso é um ponto alto.

O veredicto fica assim: Duas Estrelas, Sem Perdão.

Duas Irmãs, Uma Paixão (Die geliebten Schwestern) — Alemanha, Áustria, Suíça, 2014
Direção:
Dominik Graf
Roteiro:
Dominik Graf
Elenco: Henriette Confurius, Florian Stetter, Hannah Herzsprung,  Claudia Messner, Ulrich Blöcher, Ella Gaiser, Eva-Maria Hofmann, Klaus Lehmann, Maja Maranow, Philipp Oehme, Philipp Otto, Andreas Pietschmann, Peter Schneider, Anne Schäfer, Eli Wasserscheid, Ronald Zehrfeld
Duração: 138 min

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