Crítica | Duas Rainhas

Por mais que um realizador tenha potencial, estreias nem sempre são uma tarefa simples. Diretores geniais tiveram começos discretos no cinema, como é o caso de Stanley Kubrick, que possuiu como primeiro filme o apenas satisfatório Medo e Desejo.  Em Duas Rainhas, temos a estreia na direção de Josie Rourke, conhecida por seu notável trabalho no comando de peças de teatro britânicas. No cinema, porém, seu desempenho inicial não passa de regular.

O longa apresenta Mary (Saoirse Ronan), princesa que, ainda criança, foi prometida ao filho mais velho do rei Henrique II, Francis, e então foi levada para França. Contudo, quando Francis morre e Mary volta para a Escócia, ela tenta derrubar sua prima Elizabeth I (Margot Robbie), a Rainha da Inglaterra, mesmo que isso custe sangue e vínculos afetivos.

Logo nos 15 minutos iniciais, fica evidente o problema no ritmo de Duas Rainhas. Além do bocado de informações jogados no colo do público sem a menor sutileza, repare como até o letreiro inicial mostra-se longo, a direção de Rourke impede a assimilação dos temas e dilemas do longa. A rivalidade entre as rainhas, a disputa entre católicos e protestantes e a relação entre Mary e o irmão recebem um tratamento preguiçoso do roteiro, escrito por Beau Willimon, sendo impossível envolver-se com o que é proposto pelo longa.

Em contrapartida, o trabalho técnico de Duas Rainhas mostra-se vistoso, tornando a experiência agradável aos olhos pelo menos. Dos figurinos detalhados aos cenários precisamente montados, o longa reconstrói com perfeição a Inglaterra do século XVI. Aliás, visualmente, Rourke inteligentemente contrapõe a paleta dos ambientes escoceses e ingleses, utilizando o azul no primeiro e dourado no segundo, servindo para evocar a rivalidade entre os reinos e as duas rainhas. A diretora ainda acerta ao escolher planos gerais, valorizando seus espaços.

Além disso, a dupla de protagonistas está ótima, auxiliando na imersão do espectador, visto que as atrizes constroem duas personagens interessantes. Saoirse Ronan e Margot Robbie interpretam rainhas extremamente diferentes, valorizando o trabalho de cada uma. Ronan é impecável ao transmitir como a coragem de Mary, por vezes, soa como arrogância, através do olhar superior e postura reta, sendo essa sua ruína. Porém, a intérprete ainda se aproveita dos momentos mais íntimos da rainha para revelar a doçura e delicadeza dela, ressaltando como era uma boa pessoa, apenas moderna de mais para sua época. Já Robbie vai na linha oposta, ressaltando com sutileza como Elizabeth precisava esforçar-se para manter a imagem de líder, visto que era insegura devido a sua doença de pele, algo destacado pelo  bom trabalho de maquiagem, pintando seu rosto de branco.

Falando nas duas personagens, um dos poucos momentos interessantes de Duas Rainhas ocorre justamente quando elas encontram. Portanto, é lamentável que o longa tenha demorado tanto para proporcioná-lo, gastando tempo desnecessário com tramas amorosas e religiosas apressadas que não convencem. Veja, por exemplo, como John Knox (que desperdício de David Tennant) serve apenas para pontuar traições dentro da corte escocesa, mas o personagem jamais é desenvolvido pelo roteiro. Se as duas rainhas são as duas únicas personagens interessantes dentro do filme, Rourke foi ingênua ao não priorizar as duas por completo.

Além disso, a obra não potencializa seus conflitos. Mary descobre que o marido a traiu com o melhor amigo e, na cena seguinte, perdoa-o. O mesmo ocorre com a insolência do irmão. Ou seja, a película é um drama sem nenhuma cena realmente dramática, visto que tudo é resolvido com uma incômoda facilidade. Aliás, o filme também se mostra confuso tematicamente, flertando com uma abordagem feminista, às vezes, e religiosa em outros momentos. No entanto, no fim, não fala com incisão sobre nada.

Curiosamente, esses são erros que poderiam ser resolvidos na mesa de edição, cortando o conteúdo desnecessário da película e girando a trama apenas em torno da Mary e Elizabeth. Com mais experiência no cinema, a diretora Josie Rourke poderia evitá-los. Porém, o resultado abaixo do esperado de Duas Rainhas não significa que a realizadora deve repensar sua atuação no cinema, pelo contrário. Rourke extrai atuações fortes de sua ótima dupla de atrizes e constrói um longa visualmente esplendoroso, ou seja, possui bastante talento. Quem sabe seu futuro como realizadora não a revele como grande diretora.

Duas Rainhas (Mary Queen of Scots) – EUA e Reino Unido, 2018
Direção: Josie Rourke
Roteiro: Beau Willimon
Elenco: Saoirse Ronan, Margot Robbie, Guy Pierce, David Tennant, Jack Lowden, Joe Alwyn, Gemma Chan, Martin Compston, Ismael Cruz, Brendan Coyle, Ian Hart, Adrian Lester
Duração: 125 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.