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Crítica | Dublê de Anjo

por Fernando JG
352 views (a partir de agosto de 2020)

Desta vez, Tarsem Singh assume definitivamente os riscos estéticos de seu próprio cinema. Se em A Cela já é possível ver a sua capacidade fantasiosa, imaginativa, com uma construção cênica que parece promissora, em Dublê de Anjo, o cineasta entrega uma produção impecável, com cuidado, soberba e rigorosidade formal. Por meio de um filme que vai além do comum, o cineasta traz para o seu enredo uma discussão de base, mas que parece ser muito importante para o desenvolvimento da sua narrativa: o que pode a arte? Com essa questão, Tarsem tenta solucionar os problemas humanos de seu protagonista através da introdução da literatura como um gesto que move e salva o outro, transformando o ser humano e suas convicções de descrença. 

Tarsem, que dirigiu recentemente o incrível clipe de Lady Gaga, 911, do disco Chromatica, com inúmeras referências ao cinema do inalcançável e invejável Alejandro Jodorowsky, um dos maiores esteticistas do cinema mundial, tem na sua bagagem uma obra especial: The Fall. O longa do diretor indiano é um mergulho interartes, trazendo, nas mais distintas camadas fílmicas, um retorno à essência da arte, quase de maneira bruta. Com uma fotografia excelente, uma cinematografia com identidade própria, Tarsem Singh produz uma película com um argumento que mistura fantasia e realidade, literatura e história, imaginação e razão, e certamente merece o devido reconhecimento pelo que faz, tanto no plano do argumento de seu longa, quanto em toda a parte técnica e compositiva de seu filme. 

O filme inicia-se com a Nona, como é conhecida a Nona Sinfonia, ou Sinfonia nº9, de Beethoven, uma peça que brinda o humanismo. E é sobre o poder de humanização da arte que Tarsem costura a subcamada da sua obra. De que serve a literatura? Se achou interessante a discussão até o momento, e ainda não viu a obra, e não quer saber de um spoiler importantíssimo e chocante, não avance a leitura! Ou continue por conta e risco a partir deste momento. 

SPOILERS!

Roy Walker (Lee Pace), um dublê que trabalha em produções norte-americanas da década de 20, sofre um duro acidente e, ao que tudo indica, perde os movimentos da cintura para baixo, e não sente mais nada, nem beliscões, cócegas, nada. Enquanto está internado para o tratamento, o melancólico paciente conhece Alexandria (Catinca Untaru), uma garotinha que quebrou o braço numa queda e está no hospital para acompanhamento, e travam uma amizade, que começa por conta de uma decisão de Roy, atraindo a pequena Alexandria. O dublê passa a contar histórias fantásticas de grandes heróis para a mocinha, e ela se envolve e viaja pelo tempo-espaço através da imaginação fértil que só uma criança é capaz de ter. Aos poucos ele vai minando a confiança dela, e é que então entendemos o porquê ele vai ganhando a sua amizade. Depois de tê-la cativado, ele pede que ela vá buscar alguns remédios na despensa; inocente, não sabia Alexandria que tudo fazia parte de um plano suicida. Roy se mataria neste mesmo dia, por overdose. Como o título do filme indica (The Fall), seria o declínio irreversível de um homem. 

Com um admirável e arriscado argumento, o diretor trabalha sempre com o diálogo entre o real e o imaginário, transitando de uma estética para a outra com uma facilidade perceptível. O domínio sobre os aspectos cinematográficos se mostram muito evidentes. Gravado em cerca de 28 países, o trabalho com a imagem, com o esteticismo propriamente dito, é o que chama mais a atenção. 

Além das diversas referências ao dadaísmo de Dalí, o que já tinha sido explorado em A Cela, o longa caminha no sentido mais contemplativo possível, com planos-abertos em momentos estratégicos, sobretudo em cenas que envolvem a natureza, destacando contrastes tonais próprios dela, sem a utilização de efeitos de computação gráfica. Em alguns momentos lembra o paisagismo – computadorizado – de As Aventuras de Pi.  Algo que vale a pena destacar é a soberba fotografia da arquitetura indiana, com um foco cerrado nas cores policromáticas dos edifícios, sobretudo da escadaria. 

Em filmes que envolvem uma passagem do real para o imaginário, as cenas de transição precisam ser bem articuladas, tanto no retorno para o real, quanto na volta para a ficção, do contrário, evidencia um fracasso tremendo na montagem fílmica. E aqui estas cenas são muito bem executadas, sempre de modo sutil, atravessando sem grandes dificuldades de um polo para o outro. O domínio técnico é impecável. 

O roteiro é forte e dá bastante liga para que os atores possam atuar, pois são desenvolvidas diversas histórias, uma dentro da outra. A personagem infantil é muito bem pensada, genuína, inocente na medida certa, e, sobretudo, tem uma confiança sobre o papel que assume, o que é notável pela excelência que desenvolve. A relação autêntica entre Roy e Alexandria é também um dos pontos altos do filme, e emociona em inúmeras passagens. 

Ao discutir pequenas instâncias sobre a morte, e em todas as narrativas contadas há o signo dela, do fim definitivo, o longa parece apontar sempre para a situação de seu próprio personagem, que já está decidido a fazer esse movimento sem  retorno de descensão. No entanto, o mais interessante é que Tarsem Singh incute, no subplano de trama, o poder que a arte exerce sobre o ser humano, um poder redentivo, de busca de si mesmo e de transformação. Ao contar a historinha para a pequena Alexandria, no entanto com uma finalidade que era uma decisão de colocar um fim na própria vida, Roy Walker aos poucos recupera, através da literatura e do exercício contístico, de contar uma estória, a vontade de estar vivo novamente, revolvendo uma sensibilidade humana que já havia se perdido dentro de si. Sua alma é salva, não pela Alexandria, como ele pensa, mas pelo poder movente que a arte exerce. Roy vai do declínio ao ápice. 

Um filme denso, referencial, com cargas de intensidade altíssimas, mas delicado, sensível e muito bonito esteticamente, Dublê de Anjo reflete a força de coisas simples do cotidiano rotineiro, mas que são capazes de produzir uma transformação verdadeira no núcleo duro da vida, como em Roy. Uma viagem sensorial através do tempo e da imaginação, a película de Tarsem Singh é um remendo gigantesco pelo seu A Cela, e uma marca importante dentro de sua própria carreira como um diretor que surpreende pela manipulação cinematográfica rigorosa de suas produções. 

Dublê de Anjo (The Fall, Estados Unidos, Índia, 2006)
Direção: Tarsem Singh
Roteiro: Dan Gilroy, Nico Soultanakis
Elenco: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Daniel Caltagirone, Leo Bill, Kim Uylenbroek, Marcus Wesley
Duração: 117 min. 

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