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Crítica | Dublê de Corpo

por Leonardo Campos
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Um embaralhado desdobramento dramático diante do sofisticado exercício da linguagem cinematográfica, realizado por um dos estetas mais importante do cinema moderno, Brian De Palma, diretor que durante bastante tempo, resgatou o legado de Alfred Hitchcock e imprimiu características próprias ao entregar relações metalinguísticas com demasiado esmero. Assim é como podemos classificar e complementar Dublê de Corpo, suspense de 1984 com os habituais efeitos de pós-produção, enquadramentos oriundos de uma câmera voyeurística e excesso de reviravoltas que nos reforça constantemente o caráter manipulador do que chamamos por convenção de sétima arte. Em seu processo de representação da subjetividade do olhar diante da imagem, De Palma flerta Janela Indiscreta, e ainda mais, com Um Corpo Que Cai,  numa narrativa que cativa visualmente por demonstrar o trabalho de alguém fascinado pela cultura que atua, num complexo jogo que envolve um filme dentro de outro filme, referências alheias e menções ao seu próprio universo, além de camadas generosas de ironia e humor para traçar um painel de críticas sociais ao sistema de produção em Hollywood, negativamente ressonante na vida de quem infelizmente não consegue se estabelecer com conforto neste território tóxico.

Ao adicionar a habitual violência, física e psicológica, comum aos seus trabalhos, o cineasta assume a realização da história que também assina em parceria com Robert J. Avrech, uma trama rocambolesca sobre Jake Scully (Craig Wasson), ator que além de estar desempregado, descobre a infidelidade da companheira da pior maneira possível. Ele perdeu o seu último trabalho depois de sofrer um ataque claustrofóbico no set de filmagens. Com o término do relacionamento, as coisas ficam ainda mais tensas, pois terá que arranjar um novo lugar para morar, pois a moradia onde se encontra instalado não lhe pertence. Caos total. Fragilizado, a sua devastação o faz se sentir o maior dos perdedores. Quem aparece para ajudar é Sam Bouchard (Gregg Henry), figurão da indústria hollywoodiana que o oferta moradia temporariamente. A casa luxuosa é puro clima cinematográfico. Será lá que Jake utilizará um telescópio para observar uma vizinha mais entusiasmada que o normal. Salvaguardadas as devidas proporções, ele será como o personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, um homem supostamente errado e no lugar errado, sem sequer sonhar que foi incluso num plano diabólico, arquitetado por mentes sombrias, situação que envolve crimes, traumas e os excessos comuns aos trabalhos do diretor.

Trivial, ele é uma vítima dentro de um processo em espiral que o engole vertiginosamente. Sem pose de herói, tampouco exatamente um perdedor, o protagonista atravessa os 114 minutos do extenso desenvolvimento de Dublê de Corpo com uma carga pesadíssima nas costas. E a cada momento, os mistérios e suposições vão somando e ampliando a sua conta, o deixando numa situação caótica e rocambolesca, repleta de reviravoltas que nos deixam tão perdidos quanto o próprio personagem. Quem é a misteriosa vizinha? Ela está ciente do olhar alheio ou é vítima de um processo de objetificação? Estaria Jake louco ou tudo não passa de uma atmosfera exclusivamente onírica em seu cotidiano? São muitas as questões levantadas pela trama que de acordo com a tradição estabelecida pelo cineasta, é o que menos importa. O essencial é contemplar como Brian De Palma concebe as imagens em seus filmes, delírios visuais de um esteta em profusão criativa. É tudo muito esplendoroso, muitas vezes caricato, mas exibe beleza pulsante dentro de uma estética que algumas vezes beira ao kitsch. Passamos o tempo inteiro em busca de respostas para o assassino que tem Jake como principal testemunha, num jogo narrativo que começa movimentado, mas depois da primeira meia hora, se arrasta bastante.

Apesar de seu trabalho estético apurado, considero Dublê de Corpo um dos mais exaustivos filmes do cineasta. Acompanhar a parte dramática é um sacrifício que nos pede bastante suspensão da descrença e muito exercício da paciência, pois caso não fossem os desdobramentos estéticos, a cafonice do material afastaria ainda mais os seus detratores, pessoas que o consideram um dos maiores plagiadores da história da arte. Convenhamos, esses indivíduos estabelecem tais acusações, mas não percebem que o pastiche elaborado de Brian De Palma vai muito além do plágio e funciona como um feixe de referências intensas, relidas em prol da ressignificação do que já foi contado, agora pelo olhar de quem contemplou as coisas que servem como ponto de partida. Para a condução musical do filme, ele contou mais uma vez com a textura percussiva de Pino Donaggio, material denso e imersivo, por vezes agoniante, exaurido aos extremos em cada passagem da narrativa que conta também com o adequado design de produção de Ida Random, detalhista nos pormenores que permitem a ambientação ideal para comprarmos algumas ideias propostas pela história de sedução e manipulação. Para fazer funcionar, a sua equipe técnica investe numa atmosfera pulsante e com paleta enérgica.

O vermelho, por sinal, nunca foi utilizado de forma tão vibrante em um filme assinado por De Palma, cor que amplifica o clima de sensualidade e sexualidade apresentado pelo enredo. Esses ambientes que também são, acima de tudo, exóticos, ganham a contemplação das câmeras de Stephen H. Burum, diretor de fotografia que no processo de orientação do cineasta, concebe passagens com angulação excêntrica, sobreposição de imagens e outros recursos vistos também em Carrie – A Estranha, Vestida Para Matar, dentre outros. Aqui, três tramas se sobrepõem para mesclar os conflitos e nessa mistura, criar turbulência na concepção objetiva das coisas. Além do próprio Dublê de Corpo, temos o filme de terror que Jake trabalha e a trama pornográfica protagonizada por Holly Brody (Melaine Griffth), personagem que por sinal, desenvolve um papel de importância no jogo de simulacros perpetuado pela produção que retarda ao máximo as coisas e controla as emoções do público por meio da tensão. Uma pena que o ritmo se perca e por um triz, não deixamos de lado o interesse vibrante pelas imagens, tamanho o material enfadonho que é contado, conteúdo extraído do voyeurismo de Janela Indiscreta, mas muito mais próximo de Um Corpo Que Cai e seu clima de claustrofobia que às vezes é bastante fantasmagórico.

Dublê de Corpo (Body Double) — EUA, 1984
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrech
Elenco: Al Israel, B.J. Jones, Chuck Waters, Craig Wasson, David Haskell, David Ursin, Deborah Shelton, Denise Loveday, Dennis Franz, Douglas Warhit, Emmett Brown,  H. David Fletcher, Jack Mayhall, Jeremy Lawrence, Jerry Brutsche, Lane Davies, Larry Flash Jenkins, Linda Shaw, Lindsay Freeman, Marcia del Mar, Melanie Griffith
Duração: 110 min.

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