Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Duelo em Hiroshima

Crítica | Duelo em Hiroshima

por Ritter Fan
3 views (a partir de agosto de 2020)

Como acontece com algumas séries de TV hoje em dia, a luz verde para a continuação de Luta Sem Código de Honra veio antes mesmo que sequer as filmagens do primeiro filme tivessem sido completadas, tamanha era a confiança da Toei no projeto de Kinji Fukasaku. No entanto, isso causou um problema imediato para o roteirista Kazuo Kasahara, já que toda proposta era ficcionalizar histórias verdadeiras publicadas em forma de artigos jornalísticos por Kōichi Iiboshi a partir de relatos de Kōzō Minō, líder de uma família real da Yakuza em Hiroshima e que fora preso em 1963, artigos esses que ainda estavam sendo publicados.

Portanto, Fukasaku e Kasahara não tinham material suficiente para continuar efetivamente a história de Shozo Hirono, o protagonista que faz as vezes do mafioso preso e que fora vivido por Bunta Sugawara. Mas, como não é de bom tom desperdiçar o entusiasmo da produtora com “detalhes” assim, a dupla arregaçou as mangas ainda durante a finalização da obra original, decidindo fazer algo arriscado, mas ao mesmo tempo inteligente: um spin-off focado em Shoji Yamanaka (Mitsuji Yamagami, na vida real), que aparece muito rapidamente no primeiro longa. Para conseguir isso, Kasahara debruçou-se sobre o material fonte e até mesmo entrevistou Minō e outros membros da gangue para ter anedotas suficientes para costurar seu roteiro. Além disso, mesmo sendo um spin-off, era essencial que o personagem de Sugawara, o principal da saga, tivesse participação, mesmo que o roteirista tivesse que “dobrar” a realidade, considerando que as versões reais dos dois personagens jamais se encontraram.

Mesmo com as dificuldades inerentes, Kasahara saiu vitorioso em seu trabalho, levando Fukasaku a um filme estruturado em cima do conceito de “ascensão e queda” do protagonista que, aqui, é efetivamente Yamanaka, com Hirono apenas fazendo breves pontas glorificadas que estabelecem ainda cedo na projeção uma conexão importante entre os dois personagens, quando eles ainda estão na prisão (o mesmo encarceramento que retira Hirono de um bom pedaço do primeiro filme a partir de 1950). A história, portanto, é substancialmente simples, com Yamanaka galgando degraus na família mafiosa de Tsuneo Muraoka (Hiroshi Nawa), depois de criar inimizade mortal com o enlouquecido Katsutoshi Otomo (Sonny Chiba) e uma conexão amorosa com a viúva Yasuko Uehara (Meiko Kaji), sobrinha de Muraoka.

A vantagem desse segundo filme sobre o anterior é seu foco. O elenco é mais fácil de seguir aqui, com a câmera mantendo Yamanaka constantemente em destaque em uma história mais universal e familiar, com começo, meio e fim bem definidos. Fukasaku percebe isso e usa essa circunstância a seu favor, construindo um excelente e trágico protagonista, com uma boa atuação de Kinya Kitaoji e um trabalho de maquiagem e figurino melhor ainda que representa bem a ascensão e queda do personagem. Além disso, o cineasta, provavelmente mais seguro de sua franquia em nascimento, esbanja em sequências memoráveis, como uma fenomenal – pela confusão, pela violência e pela crueza – luta ainda no terço inicial da projeção em que sua câmera faz o espectador efetivamente participar do imbróglio, com ângulos difíceis e uma coreografia que parece ser quase que completamente improvisada, mas que fascina do começo ao fim.

Já mais para o final, há uma sequência de tentativa de assassinato e perseguição – essa retratada na imagem da crítica – que tem ecos fortes de faroeste em meio a uma Hiroshima composta de favelas originadas a partir da explosão da bomba atômica. A reconstrução de época é, aliás, outro ponto alto da obra, com a produção, claro, aproveitando muito dos cenários e das locações do primeiro, mas dando mais tempo para o espectador explorar esse submundo que causa intensa estranheza pela imagem quase mítica que o Japão tem na mente de muitos. A sujeira, a pobreza e degradação reinam nessa história de Yakuza que não tem um pingo do glamour que filmes anteriores japoneses e americanos trouxeram em mais um capítulo no esforço de Kasahara e Fukasaku de desconstruir pré-conceitos românticos.

Duelo em Hiroshima pode ter sido originado da empolgação exagerada de um estúdio e do desespero do roteirista em achar material que fizesse sentido, mas a verdade é que nem parece que é isso. Há uma firmeza maior nessa continuação, além de mais foco e um protagonista mais bem utilizado. Um feito impressionante que colore ainda mais a saga de Shozo Hirono, sem sequer precisar focar no personagem.

Duelo em Hiroshima (Hiroshima Shitō-hen / Jingi Naki Tatakai: Hiroshima Shitō-hen, Japão – 1973)
Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: Kazuo Kasahara (baseado em história de Koichi Iiboshi)
Elenco: Kinya Kitaoji, Bunta Sugawara, Shinichi Chiba (Sonny Chiba), Meiko Kaji, Tatsuo Endō, Hiroshi Nawa, Mikio Narita, Asao Koike, Shingo Yamashiro, Hideo Murota, Tatsuo Endo, Yoshi Katō, Kinji Nakamura, Gin Maeda, Nobuo Kaneko, Toshie Kimura, Takuzo Kawatani, Nobuo Yana, Eizo Kitamura, Akira Shioji, Junko Matsudaira
Duração: 100 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais