Crítica | Duna, de Frank Herbert

(arte: John Schoenherr)

Classificar Duna apenas como uma obra de ficção-científica é um desserviço reducionista à obra-prima de Frank Herbert. Muito mais do que uma história que se passa em um futuro distante, com tecnologia alienígena, seres e planetas bizarros, o épico cuja primeira versão começou a ser publicada de forma serializada na revista sci-fi Analog (ex-Astounding Stories), em 1963, tem a ambição de ser bem mais do que isso. Duna é, para todos os efeitos, uma narrativa de construção de mito ou lenda tendo como pano de fundo um contexto fortemente ambientalista e religioso que estruturalmente ecoa e transcende elementos retirados diretamente da História do Mundo, desde as óbvias influências médio-orientais, passando pela ascensão e queda de impérios em uma Jornada do Herói que foge ao que se espera da estrutura grega clássica e que também funciona como um profundo e doloroso aviso sobre o preço do fanatismo cego que se segue ao estabelecimento da figura messiânica. E, mesmo assim, talvez essa minha tentativa de alargamento de escopo da obra seja ainda reducionista, mas certamente faz mais justiça do que classificar Duna apenas como ficção científica, arriscando uma leitura rasa e com expectativas equivocadas deste trabalho quase sem paralelo.

Mas sei que me adiantei. Deixe-me, então, rebobinar meu raciocínio, começando pelo proverbial começo.

A carreira de Frank Herbert como escritor de obras de ficção-científica começou em 1952, com o conto Looking for Something, publicado na revista mensal Startling Stories. A essa primeira obra, outras três se seguiram até que, em 1955, ele publicou seu primeiro romance, só que em forma serializada, como era comum na época para o gênero. Já nesse primeiro romance, a preocupação do autor com questões ambientais se fazia presente, algo que seria um dos alicerces de sua celebrada série literária tendo o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna, como epicentro. Pode-se dizer que 1955 marcou seu ingresso definitivo na carreira de escritor, com The Dragon in the Sea, que, assim como seus textos anteriores, serviram de semente para sua grande obra.

Duna foi o resultado de dois fatores inusitados (o segundo considerando-se a época, claro) quase simultâneos: uma encomenda que Herbert recebera para escrever um artigo sobre dunas de areia no Oregon e sua esposa, Beverly Ann Stuart, com quem já tinha dois filhos, tornou-se a provedora do lar. Com tempo em sua mãos, ele dedicou-se desproporcionalmente ao referido artigo, o que resultou em material vasto sobre o tema que, claro, resvalava nas questões ambientais que ele tanto gostava. Curiosamente, o artigo jamais foi efetivamente escrito, mas sua pesquisa abriu o caminho definitivo para o espetacular começo de sua saga que germinaria vagarosamente ao longo de nada menos do que seis anos de dedicação.

Mas, obras de ficção científica, àquela época, eram para consumo rápido e o tamanho do material assustou e afastou os editores mais envolvidos com a matéria, em mais um exemplo de falta de visão que, em retrospecto, torna tudo ainda mais pitoresco. Só para se ter uma ideia, depois de publicar Duna de forma serializada na referida revista Analog, Herbert ouviu não de mais de duas dezenas de editores ao sugerir a publicação como livro propriamente dito. Quem realmente acabou se interessando foi Sterling E. Lanier, editor da Chilton Book Company, especializada, pasmem, em manuais de conserto dos mais variados equipamentos. E Lanier, com isso, entrou para a história como o editor que trouxe Duna à tona e transformou a obra no sucesso de crítica (imediatamente) e público (o que demoraria um pouco) que ela até hoje em dia é.

No livro, Frank Herbert estabelece um fascinante universo que gira em torno de uma valiosíssima substância: a especiaria, droga produzida apenas no planeta Arrakis, mais conhecido como Duna, comandado com mão de ferro pela Casa Harkonnen, tendo o Barão Vladimir Harkonnen como seu patriarca. Quando a obra começa, uma grande mudança está prestes a acontecer, com a Casa Harkonnen saindo de Duna e abrindo espaço para que o planeta completamente desértico e pontilhado de temíveis e gigantescos vermes de areia que dificultam a extração da especiaria passe para o comando da Casa Atreides, chefiada pelo Duque Leto Atreides que tem como concubina Lady Jessica, uma Bene Gesserit, e, com ela, o filho Paul Atreides, de apenas 15 anos, mas já extremamente maduro para sua idade. É o jovem Paul o protagonista da história e é sua trajetória que seguimos do começo ao fim aqui, um fim que, claro, continua no livro seguinte, mas que é bem marcado narrativamente, não deixando finais em aberto ou situações sem resolução.

Não ousarei, aqui, entrar nas minúcias do universo criado por Herbert, pois essa seria uma tarefa não só fútil, como eu tenho certeza que jamais conseguiria fazer jus ao que o autor estabelece. A divisão dos poderes em “Casas” que não necessariamente se gostam debaixo do comando do Imperador Shaddam IV, a importância da especiaria nesse contexto, já que suas propriedades lisérgicas é que permitem as viagens em velocidade de dobra, o duro e sofrido povo Fremen, nativos aparentemente subjugados de Arrakis, os vermes de areia, traições, reviravoltas e um sem-número de outros fascinantes aspectos criam um todo absolutamente coeso e lógico que, por incrível que pareça e, apesar da tamanho do livro e da existência de um glossário ao final das palavras e expressões inventadas resultam em uma leitura fluida, ainda que não necessariamente rápida devido à atenção necessária.

Ousaria dizer que Duna é a amálgama deferente dos clássicos literários de ficção científica que vieram antes dele, mas que estabelece roupagem e voz próprias e, por isso, passaria a ser, por sua vez, a base literária para um outro sem-número de obras futuras do gênero nas mais variadas mídias. Star Wars não seria Star Wars sem Duna (Tatooine não é um planeta desértico à toa) e a própria grandeza do universo de George Lucas é algo sugado diretamente do tamanho do que Herbert cria nesse primeiro livro e expande nos cinco seguintes (ignorarei os que seu filho Brian Herbert escreveu após a morte de seu pai). Duna é, para a ficção científica, em muitos aspectos, o que a Odisseia significou e significa para a literatura épica ocidental.

Herbert traz elementos da Idade Média para Duna, trabalhando conceitos de ficção científica sem abordar aspectos técnicos, sem tentar estabelecer os detalhes de como, por exemplo, a viagem em velocidade de dobra (e essa nomenclatura eu só uso por liberdade crítica, pois o autor não a menciona), exatamente como Philip K. Dick fez em sua bibliografia, o chamado soft science-fiction, ou seja, o oposto da literatura asimoviana. Mas essa é uma escolha deliberada, pois Duna foi construído para ser lido como uma narrativa de intrigas feudais e palacianas com elementos sci-fi aqui e ali e não o contrário. A ficção-científica é o pano de fundo, é a “decoração”, por assim dizer, de um texto que foca na lealdade, nas questões ambientais e ecológicas, no matriarcado como o verdadeiro poder, e também, muito pesadamente, na religião, aqui representada pela figura messiânica em que Paul Atreides acaba se encaixando.

E notem que eu utilizei “encaixando”, pois Paul se amolda ao que se espera dele, manobrando inteligentemente as expectativas (de sua mãe, das Bene Gesserit, dos Fremen, da Casa Harkonnen) e, com isso, aos poucos, transformando-se em um personagem inesquecível. Mas Herbert também não está interessado em ação desenfreada, em pancadaria incessante. Seu texto de ação é enxuto, breve e direto ao ponto, o que pode levar muitos a indagar então como é que o autor precisou de quase 700 páginas para escrever o que escreveu. Mas é justamente isso que torna Duna um expoente em seu gênero. O livro constrói um universo rico, detalhado, repleto de personagens diferentes que orbitam literal e metaforicamente o planeta Arrakis. Se enxugarmos, poderíamos resumir o livro em algumas frases, mas isso seria o mesmo que dizer que a já citada Odisseia é sobre as aventuras de Ulisses em sua viagem de 10 anos a Ítaca depois da Guerra de Troia. Duna extrapola a narrativa óbvia e na base dos 140 caracteres por capítulo. A forma contemplativa que Herbert narra a história exige calma e tranquilidade do leitor, como se ele mesmo, aos poucos, fosse consumindo especiaria e passando a ter olhos azuis profundos que permitem uma visão alargada de mundo.  Duna parte do que conhecemos, de até mesmo estereótipos e clichês do gênero (ainda que Herbert tenha criado aqui muitos dos estereótipos e clichês do gênero) para reempacotá-los em um tour de force marcante que faz perguntas duras ao leitor, perguntas essas que, tenho certeza, são muito mais atuais hoje do que em 1965, bastando lembrar dos radicais islâmicos e seu jihad contra o Ocidente, algo que é uma das bases da narrativa.

No entanto, apesar da qualidade inegável de Duna, é perfeitamente compreensível que muitos concluam que Herbert escreveu um texto frio, distante e que Paul Atreides, assim como diversos outros personagens, são antipáticos e pouco envolventes. Vejo isso, porém, como parte da natureza da narrativa que ele escolhe. Para começar, o ponto-de-vista é do futuro olhando para eventos no passado em Arrakis e contados a partir de Irulan, filha do Imperador, ou seja, a partir da visão aristocrática do ocorrido. Não é que o livro se passe em um grande flashback, mas os capítulos são iniciados por trechos de obras pós-Paul Atreides em mais um daqueles detalhes incríveis que enriquecem a história. Vejo Duna como um tomo histórico, por assim dizer e, como tal, ele carrega um pouco da frieza “científica” de um historiador tentando aproximar-se o máximo possível do que efetivamente aconteceu, sem uma visão “apaixonada” de um lado ou outro. E, como é uma história contada a partir do seio da aristocracia sobre a aristocracia, mesmo que os Fremen – os súditos nesse contexto – tenham participação fundamental, o distanciamento também é esperado. Então sim, Paul Atreides especialmente é quase que uma estátua de cera em sua forma de agir, sempre abordando o mundo como um tabuleiro de xadrez, jamais (ou quase) deixando suas emoções tomarem-lhe completamente. Paul é um garoto que é obrigado a crescer em pouquíssimo tempo e que aprende que ele é muito – mas muito – mais do que um membro de uma Casa Real que “ganha” Arrakis de presente.

Apesar das grandes obras de ficção-científica que eu poderia citar aqui e que merecem todo o respeito, Duna é a quintessência do gênero, é o tratado criador de mundos que estabelece os parâmetros pelos quais os outros devem ser medidos. Frank Herbert cria uma lenda ao contar a saga da Paul Atreides e, no processo, torna-se, ele próprio, um mito.

Duna (Dune, EUA – 1965)
Autor: Frank Herbert
Editora original: Chilton Books
Datas de publicação: agosto de 1965
Editoras no Brasil: Editora Aleph
Datas de publicação no Brasil (Aleph – versão atual): abril de 2017
Tradução (edição atual da Aleph): Maria do Carmo Zanini
Páginas (edição atual da Aleph): 680

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.