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Crítica | Durval Discos

por Guilherme Coral
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Treze anos antes de chamar atenção do Brasil com Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert iniciou com toda força sua carreira de diretora de Cinema com seu primeiro longa-metragem, Durval Discos. Repleta de humor negro, por vezes pautado no absurdo, a obra traz um olhar distorcido da simplicidade, criando situações inesperadas que nos pegam de surpresa durante toda a projeção, revelando, desde então, o quão promissora seria a carreira de Muylaert.

São Paulo, 1995. Durval (Ary França), é dono de uma loja de LP, que ocupa a parte da frente de sua casa, onde mora com sua mãe, Carmita (Etty Fraser). Visto que a mãe já está em idade avançada e, principalmente, incapaz de fazer comida do jeito que ele gosta, Durval decide contratar alguém para limpar, cozinhar e realizar outras tarefas domésticas. O que não esperava é que a doméstica contratada, Célia (Letícia Sabatella), simplesmente sumiria de um dia para o outro, deixando uma menina, supostamente sua filha, na casa, para que Durval e Carmita cuidassem dela. Não demora muito para que a casa fosse tomada pela loucura, com um evento inesperado acontecendo atrás do outro.

Já no trecho inicial podemos observar que Muylaert não se importa apenas com a história, mas a forma como ela é contada. Com um longo travelling, focando em placas nas ruas daquele bairro, lemos os nomes do elenco, recurso estilístico que já nos prepara para o ar de simplicidade dos personagens apresentados. Tal sensação permanece conosco e molda nossa percepção da obra, nos fazendo acreditar que iremos ver um retrato do dia-a-dia, não muito diferente de inúmeras outras produções nacionais de destaque, como o próprio, já citado, filme de 2015 da diretora. Não poderíamos estar mais enganados.

De supetão, o tom é alterado bruscamente pela primeira vez, renovando a energia da narrativa bem antes dela se esgotar, fator que aparece mais algumas vezes durante a projeção, jamais permitindo que nos cansemos da obra. É curioso observar como mesmo o humor do roteiro vai se adaptando à atmosfera vigente, sendo primeiro pautado na identificação do espectador com a “normalidade” que nos é mostrada e, posteriormente, pautado nas quebras de expectativas produzidas pelas situações absurdas vivenciadas pelos personagens centrais, em perfeita oposição à simplicidade que acompanhamos nos primeiros atos.

Apesar das bruscas mudanças, é preciso observar a coesão do roteiro, que desde cedo vai introduzindo elementos aqui e lá, apenas para resgatá-los posteriormente, tornando toda a narrativa fluida e orgânica. A própria loja que dá nome ao longa-metragem já funciona para nos preparar para o centro dos problemas enfrentados pelos personagens mais adiante: a inabilidade de Durval em contrariar sua mãe. A loja de LPs, em plena era de CDs dialoga com o fato do protagonista ainda morar com a mãe, ele se recusa a sair do lugar, da zona de conforto, a evoluir, permanecendo preso na mesma situação de sempre.

Durante todo esse tempo, nos vemos como observadores não fora da tela, mas dentro dela, como se estivéssemos nos cômodos adjuntos aos quais os personagens se encontram, ponto constantemente reiterado através da decupagem de Muylaert, que traz inúmeros enquadramentos com os batentes das portas em cena. É preciso notar, também, a forma como a diretora constrói a linguagem de seu filme utilizando a profundidade de campo, com ações ocorrendo, simultaneamente, em primeiro, segundo e, às vezes, em terceiro plano, obrigando o espectador a percorrer toda a tela ativamente, aspecto que influencia diretamente na dinâmica da narrativa, tornando-a mais ágil, capaz de nos entreter a qualquer momento, simplesmente através da movimentação dos elementos presentes na imagem.

Durval Discos é, portanto, um verdadeiro triunfo de Anna Muylaert, que, desde cedo, demonstra ser uma promissora cineasta, capaz de nos encantar com a normalidade e o absurdo, tudo em um filme só. Com personagens cativantes e bem construídos, presos em uma verdadeira espiral de loucura, esse longa-metragem de estreia da diretora nos faz rir e nos emocionar, enquanto nos identificamos, torcemos por e xingamos os personagens, enquanto forte tensão e agonia vai tomando conta de nós, fazendo desta uma obra verdadeiramente imperdível.

Durval Discos — Brasil, 2002
Direção:
 Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Ary França, Etty Fraser, Isabela Guasco, Marisa Orth,  Letícia Sabatella,  Rita Lee,  André Abujamra
Duração: 96 min.

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