Crítica | Dylan Dog: Jack, o Estripador

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Londres, outubro de 1986. Numa sessão espírita com um grupo costumeiro de pessoas, uma médium invoca o espírito de Jack, o Estripador. Pouco tempo depois, mortes misteriosas passam a acontecer por toda a cidade, começando pela própria médium, perseguida e assassinada na rua. Depois, o rastro de morte segue os outros indivíduos que fizeram parte da sessão, e começa a eliminar um a um, não antes de todos eles se tornarem suspeitos pela polícia… Esse é o resumo geral para esta fantástica segunda história de Dylan Dog, lançada na Itália em novembro de 1986. Nela, o Detetive do Pesadelo está diante de um inimigo que não consegue ver, ou pelo menos é isso que ele acha à primeira vista. Já neste ponto o leitor ergue as sobrancelhas, porque sabe que nas histórias do personagem a primeira percepção é sempre alterada ou corrompida no decorrer da leitura… e algo mais “fora desse mundo” acaba assumindo o seu lugar.

A ligação entre o crime e o detetive “pega-monstros” acontece de forma bastante peculiar, com a enteada da rica médium assassinada procurando ajuda e quase sendo esmagada, ironia das ironias, por um busto de metal de Jack, o Estripador, que Dylan Dog tem em casa. Considerando toda a linha narrativa do momento em que isso acontece, num maravilhoso diálogo entre o protagonista e seu companheiro Groucho, vê-se logo a habilidade de Tiziano Sclavi em mesclar a tragédia, o horror e a comédia em uma cena rápida e despreocupada, mas de caráter muito importante para o desenrolar da trama. Na mesma sequência de eventos temos a entrada do Inspetor Bloch, da Scotland Yard, que tem um papel relevante nesta investigação, após aparecer rapidamente no número de abertura da série, O Despertar dos Mortos-Vivos.

O roteiro trabalha no melhor “estilo Agatha Christie” de guiar diferentes pontos de vista detetivescos através do contraponto de métodos, embora não haja animosidade e sim camaradagem entre Bloch e Dog. As pistas, os suspeitos e os muitos ingredientes do gênero giallo vão pouco a pouco tomando forma e o leitor tem um boa lista (com boas justificativas) para quem possa ter cometido os crimes. Na reta final da história, porém, o texto adota um didatismo que não combina com a esperteza que guiou a trama a maior parte do tempo, mas isso dá para relevar. Toda aquela explicação final no Museu de Cera (aliás, a arte de Gustavo Trigo faz um belíssimo trabalho de representação de ângulos diferentes e assustadores, numa baita sacada cinematográfica) acaba sendo uma lição deslocada de clichês, no molde de “vilão revelando planos“, o que não é nada agradável de se ver numa história como essa.

O bom é que esta trama, que considera um infame fantasma como autor dos crimes e mistura essa percepção sobrenatural com as muitas possibilidades reais, está o tempo inteiro incentivando o leitor a procurar respostas e dar palpites, o que se torna cada vez mais divertido (e macabro) à medida que mais mortes violentas acontecem e que o ciclo em torno do assassino se fecha. Os assassinatos ocorrem de distintas maneiras, fora de qualquer padrão que os ligue, de fato, ao famoso ‘Jack’ — o que também é um ponto de destaque do roteiro e que faz a coleta de pistas e atribuição de culpa ainda mais difícil, mesmo que em dado momento da saga a visão de um “culpado verdadeiro” venha fácil demais, para ambos os detetives do caso. O real desfecho deste segundo volume é simplesmente maravilhoso, em texto e arte; um último lembrete que não nos deixa esquecer que esta é uma revista de Dylan Dog e que o impossível, o absurdo e o pesadelo são as verdadeiras regras em cena.

Dylan Dog — O Detetive do Pesadelo #2: Jack lo Squartatore (Itália, novembro de 1986)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Record, setembro de 1991
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Gustavo Trigo
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.