Crítica | Dylan Dog: A Beleza do Demônio

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Esta história de Tiziano Sclavi me pegou desprevenido em diversos aspectos. Originalmente publicada em março de 1987, A Beleza do Demônio tem uma premissa tão simples e enconde um enredo tão inteligente, que o leitor não consegue se desvencilhar logo das obviedades esperadas, insiste em olhar para as pistas mais simbólicas da trama e simplesmente se esquece do essencial, daquilo para o qual o autor nos chama a atenção desde o título.

Começamos com um Prólogo em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesta parte do roteiro, o texto nos apresenta as três peças centrais do enigma que rondará o Detetive do Pesadelo nesta edição, e é através de suas distintas formas de ver e de se apresentar ao mundo que o leitor também se confundirá e buscará respostas por todo canto. O monólogo desalentado de Larry Varedo, um assassino profissional, leva-o a tentar um pacto com o Diabo, colocando em cena a figura de um frágil homenzinho chamado Clarence Oddbody (pegaram a referência ao anjo de A Felicidade Não se Compra?) e a contratação para o assassinato de uma mulher infame chamada Mala.

Como disse anteriormente, a história me pegou desprevenido porque, até o momento, mesmo na excelente Os Matadores, Sclavi evitou jogar no campo da ressignificação ampla, procurando mais brincar com ambiguidades, piscadelas, meias-respostas ou diversas formas de justificativas e explicações para as situações enfrentadas por Dylan Dog desde a sua estreia, em O Despertar dos Mortos-Vivos. E aqui estamos diante de algo completamente diferente para o personagem. Através de uma história que espelha um Fausto via um filme de René Clair chamado Entre a Mulher e o Diabo (1950) — cujo título original é exatamente o título dessa edição: La Beauté du Diable — Sclavi elenca a questão do Céu e Inferno para DD, terminando por ressignificar essa questão, além de criar uma história de investigação em torno desse mito, o que é ainda mais impressionante.

DD #6 - a beleza do demonio salvação de dylan dog

Ah, nada como um soninho tranquilo…

A arte de Gustavo Trigo combina perfeitamente com esse tipo de temática, sendo perfeita a escalação do desenhista para ilustrar a história (lembrando que ele já tinha desenhado Jack, o Estripador). Elencando sem reservas a ideia da existência e remodelação da noção de Diabo e de Inferno, o artista entrega momentos impagáveis como a entrada engraçada de Oddbody em cena e sua oposição à figura durona (humanamente demoníaca) de Varedo, claramente inspirado em um detetive noir.

O que impressiona nesta sexta edição da série Dylan Dog é a forma como uma premissa inicialmente confusa e meio absurda vai pouco a pouco ganhando ares mitológicos, filosóficos e termina por cair em uma reinterpretação da realidade (ou de aspectos culturais e místicos da realidade), sempre com a investigação do protagonista em destaque. As pequenas lombadas do texto em torno da aparição e desaparecimento de personagens são rapidamente colocadas de lado quando temos algo tão mais interessante acontecendo e clamando por atenção. A história nos traz referências visuais que vão de Psicose (o corpo morto na cadeira) até manifestações e ambientações típicas dos gialli ou de outros tipos de terror. Uma saga impressionante e verdadeiramente bela pra diabo…

Dylan Dog #6: A Beleza do Demônio (La Bellezza del Demonio) — Itália, março de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Dylan Dog n°6 (Record, 1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Gustavo Trigo
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.