Crítica | Dylan Dog: A Zona do Crepúsculo

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Para qualquer um que tenha um grande apreço por narrativas engenhosas que envolva terror, mistérios e investigação, Dylan Dog é um verdadeiro baú de grandiosas ideias e acontecimentos. Com um título e conceitos que flertam com a série The Twilight Zone, esta sétima aventura da saga do Investigador do Pesadelo apresenta uma ideia que que retornaria no futuro da revista, com as histórias Retorno ao Crepúsculo (1991) e Os Herdeiros do Crepúsculo (2006). É aqui, em A Zona do Crepúsculo (1987), que o primeiro grande contato de Dylan Dog com a cidade de Inveraray, na Escócia, é feito; e onde algumas informações interessantes sobre o seu passado nos são dadas, sendo ainda mais curioso o fato de estarem ligadas ao Dr. Xabaras, presente na vida do personagem desde O Despertar dos Mortos-Vivos.

A história trata de um lugar, uma dimensão entre a vida e a morte em que todos os dias são iguais, onde os indivíduos não envelhecem e onde o corpo está morto, mas a pessoa permanece viva graças a um série de experimentos feitos pelo médico local, num processo de imitação distanciada e limitada dos experimentos de Xabaras, que habitara a Torre de Inveraray no passado, sendo o local destruído pelo fogo, por uma ação do pai de Dylan Dog. Toda a questão pessoal mais o grande mistério a que o roteiro de Tiziano Sclavi nos coloca ganha camadas de complexidade quando o médico explica “teoricamente” para Dylan como se dá o processo de reconstituição dos corpos. Em teoria, ele equipara o seu processo ao magnetismo herdado de Franz Anton Mesmer (o criador do mesmerismo), mas nessa realidade ficcional há uma mistura desse método com uma macabra criação literária.

Curiosamente um dos pontos mais interessantes do roteiro é um dos que eu acredito que tornam a narrativa mais truncada, atrapalhando até o andamento da história: a reconstituição do ótimo e macabro conto de Edgar Allan Poe chamado A Verdade Sobre o Caso do Sr. Valdemar (1845). Apesar de o autor utilizar esse princípio narrativo como item de explicação para o que acontece de fato na Zona do Crepúsculo, as páginas em que vemos a recontagem do conto tira o leitor de uma imersão narrativa interessantíssima, tomando o espaço de algo que poderia ser facilmente explicado e exemplificado de maneira bem mais dinâmica. E o mais frustrante ainda é que, como era de se esperar, não existe uma resposta definitiva sobre os “mortos-vivos” da Zona ou sobre a duração dos corpos nesse estágio. E não estou reclamando deste ponto do roteiro, vejam bem. Defendo que esta sim é uma das coisas para sempre se deixar em meias-explicações, dúvidas, insinuações. O problema é que o roteiro corta a narrativa, reconstitui um conto complexo de Poe para no fim utilizá-lo apenas como sugestão de algo que já havia sido, em linhas gerais, explicado.

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A despeito desse momento, A Zona do Crepúsculo é uma história cativante, imaginativa, que dialoga com as possibilidades da vida após a morte e a possibilidade de um outro plano de existência, talvez uma “fase dois” daquilo que Dylan tivera contato inicialmente em A Beleza do Demônio. Muitas brincadeiras referenciais são feitas aqui, como a presença do personagem Charon guiando o barco para Inveraray (óbvia referência a Caronte); a semelhança da situação descrita por Mabel a Dylan, por telefone, com a que vemos no filme Vampiros de Almas (1956); o destaque para o sobrenome Carpenter, fazendo questão de aludir a um diretor que tem tudo a ver com essa temática; e por fim, mais um outro nome de Xabaras: Dr. Vergerus. Assim como Vogler, Vergerus é um sobrenome de personagens macabros, enigmáticos, dúbios ou problemáticos recorrentes na filmografia de Ingmar Bergman, aparecendo nos filmes O Rosto (1958), A Paixão de Ana (1969), A Hora do Amor (1971), O Ovo da Serpente (1977) e Fanny & Alexander (1982) e que aqui ganha espaço, na narrativa do passado.

Tudo nessa história é forte e tem camadas o bastante para sobreviver a mais de uma edição. Não é à toa que a Zona do Crepúsculo voltaria outras vezes para a vida de Dylan Dog, como estranhas sensações e experiências vivem voltando para nós, de tempos em tempos. Quem sabe não é algo da Zona querendo escapar para o lado de cá? Em caso de dúvidas, é melhor fazer uma visitinha ao Doutor Hicks…

Dylan Dog #7: A Zona do Crepúsculo (La Zona del Crepuscolo) — Itália, abril de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Dylan Dog n°7 (Record, fevereiro de 1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Giuseppe Montanari, Ernesto Grassani
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.