Crítica | Dylan Dog: Alfa e Ômega

O título dessa história já diz muito para qualquer pessoa que tenha algum conhecimento da mitologia bíblica. Alfa e Ômega são letras do alfabeto grego (a primeira e a última) e aparecem como simbolismo para a essência de Deus e o caráter de sua natureza indescritível, como nos mostra o Livro do Apocalipse (embora essa mesma referência de ser “o primeiro e o último” também possa ser encontrada em diversos lugares das profecias de Isaías e em outros lugares do Apocalipse, além do famoso Capítulo 22). Nesta nona edição da série do Detetive do Pesadelo, o mesmo conceito é utilizado por Tiziano Sclavi dentro de um cenário de ficção científica — que em certo momento fez a história mais parecer algo ligado a Nathan Never do que ao próprio Dylan Dog, para falar a verdade.

A aventura começa em junho de 1987, quando Amy e Daniel estão namorando em um carro, num lugar afastado, e então aparece uma suposta estrela cadente que acaba se transformando em algo mais, um pesadelo que teria ainda uma outra transformação adiante. Para quem gosta de ficção científica, uma história desse porte traz à memória diversas comparações ou referências bem precisas, desde certas abordagens na literatura e no cinema sobre relações sexuais entre aliens e humanos, até obras como 2001: Uma Odisseia no Espaço, o clássico Planeta dos Macacos e, de maneira ainda mais direta, Blade Runner, o Caçador de Androides. Aplicado a um conceito de terror e investigação + ceticismo inicial, esse tipo de trama ganha um sabor diferente, assustando ao mesmo tempo em que reflete sobre a vida, a existência e as ações do homem ou a forma como podem agir seres vindos do Espaço para a Terra.

Aqui o roteiro demora um pouco mais de tempo para engatar, o que não é bom numa história com essa temática. O início, inclusive, tem um sentido geral que se mostra bem diferente daquilo que é mostrado nas páginas finais da revista, e isso até poder ser bastante positivo em termos de experiência de leitura, mas que depõe contra a estrutura de roteiro pensada por Sclavi. Vale dizer que eu não defendo que o autor deveria plantar algo mais profundo e menos “espetáculo” desde o início — embora isso não fosse ruim. Meu apontamento é de coerência mesmo. Sua linha inicial é de uma ordem, enquanto a final é de outra, como se fizesse parte de uma história diferente. E é curioso essa falha na abordagem, porque o autor já havia feito o mesmo exercício de forma exemplar em A Beleza do Demônio, e num contexto bem mais difícil de se acertar, convenhamos.

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Corrado Roi está claramente se divertindo nos desenhos dessa história, não só levando de maneira muito inteligente a relação entre realidade, horror e sci-fi, como também brincando no processo, com referências visuais aos Smurfs, a um episódio hilário de Asterix e os Bretões (a cena do homenzinho e seu verdejante campo que tanto tempo demorou para se tornar “quase perfeito“) e às próprias indicações cinematográficas que o roteiro traz. Como disse antes, a história tem um peso e uma qualidade bem maiores no final do que no início, e a forma como se encerra marca mais uma vez a visão de Dylan Dog para as coisas além da imaginação. É uma história solidamente acima da média, mas que pega fôlego tarde demais para conseguir voos muito altos. Ainda assim, daria abertura para uma espécie de continuação, num crossover entre Dylan e Martin Mystère chamado O Fim do Mundo. Mas isso é assunto para uma outra ocasião.

Dylan Dog #9: Alfa e Ômega (Alfa e Omega) — Itália, junho de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Corrado Roi
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.