Crítica | Dylan Dog: As Noites de Lua Cheia e O Fantasma de Anna Never

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Em Noites de Lua Cheia (originalmente publicada em dezembro de 1986), Tiziano Sclavi coloca do Detetive do Pesadelo para investigar o desaparecimento de uma garota na Alemanha. Contratados pelo pai da menina, Dylan e Groucho nos são apresentados aqui em plena Floresta Negra, numa inicial cena que sugere o horror e flerta bastante com a comédia, já que as coisas mais absurdas (e negativas) pensadas ou ditas pelo sidekick incomum do protagonista acabam “milagrosamente” se realizando na noite escura da floresta. Nada parece colaborar para que eles cheguem à escola para meninas onde devem iniciar a investigação.

A ótima arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani são, para mim, o grande destaque dessa edição. Com muitos quadros de contexto, silêncio ou espaço para movimentação dos lobisomens, os artistas conseguem falar muito através de seu trabalho, inclusive adicionando coisas que o roteiro não explica e nem faz questão de se aprofundar muito, talvez por um motivo bem especial: há aqui uma clara influência de Suspiria (1977) na construção da trama. Me pareceu que Sclavi se apegou fortemente à base do roteiro de Dario Argento e Daria Nicolodi, mas quis adicionar outro aspecto de lendas urbanas, ou seja, a presença dos lobisomens. O resultado é positivo, mas não tão bom quanto aqueles apresentados pelo autor nas duas aventuras anteriores desta saga: O Despertar dos Mortos-VivosJack, o Estripador — esta última, referenciada por Groucho em dado momento da narrativa.

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O final parece estender a história ainda mais do que deveria, correndo o perigo de sobrepor conflitos e estragar a noção de “fim da investigação” que o leitor já tinha entendido. Talvez isso seja uma armadilha incontornável do roteiro, visto que a magia estava ligada à questão dessa “nova espécie”, mas certamente não deu à aventura o desfecho prático ou mais orgânico que merecia. Em contrapartida, a derradeira cena tem um impacto positivo no leitor, porque fecha o ciclo abrindo uma possibilidade para o futuro, tudo de maneira rápida e sem criar teorias ou firmar pé em algum tipo de vingança, esperança, contra-ataque. Não é exatamente um final aberto, mas não tira de cena a possibilidade de mais esse pesadelo voltar a assombrar Dylan Dog no futuro.

Dylan Dog — O Detetive do Pesadelo #3: Le Notti della Luna Piena (Itália, dezembro de 1986)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Record, outubro de 1991
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Giuseppe Montanari, Ernesto Grassani
Capa: Claudio Villa
100 páginas

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O Fantasma de Anna Never

Desenhada por Corrado Roi, O Fantasma de Anna Never abriu o ano de 1987 para a série Dylan Dog, com uma história de fantasma que mescla hipnose, múltiplas realidades e delírio, num roteiro cheio de boas ideias que são trabalhadas aos borbotões, a ponto de não permitir que o leitor desfrute de cada uma das teorias individualmente. Diferente de As Noites de Lua Cheia, Tiziano Sclavi procura inovar em seu roteiro, saindo o máximo possível da caixa e, pela ideia geral que ele apresenta aqui, consegue fazer essa saída até um certo ponto. O problema está na forma como o autor funde essas ideias a uma grande confusão de perspectivas da realidade. Não esclarecidas pelo texto a tempo, elas colocam uma parte da trama a perder.

Uma vez que a ameaça fantasma (hehehe) é o grande ponto de dubiedade no roteiro, o leitor espera desde cedo que se brinque com a narrativa em torno dessa premissa e é exatamente o que acontece aqui, indo da básica negação com a frase “foi só um sonho” até o entendimento fatídico daquilo que realmente está acontecendo, a revelação que concentra o maior problema dessa edição para mim. No processo, o detetive e Groucho seguem buscando uma explicação racional para os sonhos de Guy Rogers, amigo de Dylan e ator de filmes B que faz um tratamento contra o alcoolismo e o tabagismo, motivos que levam o detetive a questionar os tormentos do pobre homem. Aos poucos, a questão do delírio, do sonho e dos fantasmas fica mais séria e a realidade paulatinamente se confunde com a fantasia. Eu realmente gostei da passagem do sonho para uma cena de filmagens (o filme fictício aqui é Terror and Horror), cercando ainda mais esse território entre verdade e ilusão. Até este ponto, a curiosidade e a dúvida caminhavam lado a lado e em alta conta.

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Quando a atriz Anna Never entra em cena, o texto insere um tipo de McGuffin que francamente, estraga grande parte da história. O fato de Anna ser desastrada e quebrar tudo logra um pequeno charme cômico da primeira vez que acontece (estando ligado a um desastre no set cometido por Groucho) mas depois é rebatido em inúmeras cenas e não há absolutamente nenhuma relação palpável na história que justifique isso. O erro do roteiro aqui foi inserir algo tão forte e que ocupa tantos quadros para que, no final, não haja uma única compensação em relação a este problema. Claro que pode-se falar de “fusão de realidades” como justificativa, utilizando a didática explicação de Dylan  no final, mas isso não dá suporte ao recurso narrativo utilizado.

E ainda tem o fato de a explicação em si forçar bastante a barra: alguém que teve a mente tão aberta numa sessão de hipnose que passou a ver outras realidades e futuros possíveis? Se fosse um arco de duas ou três histórias talvez a premissa ganhasse maior espaço e de fato funcionasse bem, mas não aqui. Não desta forma. Embora a história me agrade até certo ponto, eu realmente não consegui gostar do desfecho. Muitas ideias interessantes emaranhadas e sem uma definição que realmente lhes dê destaque/explicação. Para mim, apenas uma história mediana.

Dylan Dog — O Detetive do Pesadelo #4: Il Fantasma di Anna Never (Itália, janeiro de 1987)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Record, novembro de 1991
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Corrado Roi
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.