Crítica | Dylan Dog: Através do Espelho

Rowena, uma antiga paixão de Dylan Dog, está dando uma festa a fantasia e tudo parece correr bem no salão de dança, mas desde o momento em que esta história de Tiziano Sclavi começa, percebemos que existe um convidado muito especial no lugar. Sem perder tempo, o roteiro nos apresenta o mistério do espelho já nas primeiras páginas, e a partir da intriga aí causada, vai mexer com a nossa percepção da realidade (estamos vendo a Rowena verdadeira ou a Rowena do outro lado do espelho? A Morte, em si?) e trazer outra investigação cheia de camadas e possibilidades de interpretação para Dylan Dog.

Das nove tramas anteriores do personagem, apenas A Beleza do Demônio e A Zona do Crepúsculo possuem um nível tão vasto de abordagem para coisas inexplicáveis ou muito misteriosas da existência humana e do Universo. Ou seja, após lidar com o Diabo (ou um tipo de) e com a remodelagem do próprio corpo na dimensão de quase-existência  (que conhecemos já em estado crítico) chega um novo concorrente ao páreo: a Morte. Eu nem preciso discorrer por muito tempo sobre essa personalidade, não é mesmo? Desde muito pequenos nós tomamos ciência da morte e passamos a vida inteira com uma única e imutável certeza, que é a de que não importa o que a gente faça, se a gente tem medo ou se é corajoso, se a gente tem ou não uma crença, se cuida ou não da saúde: todos vamos morrer. E é com esse fato que o roteiro de Através do Espelho brinca, não só flertando com história de Alice e A Máscara da Morte Vermelha, mas novamente com a questão dimensional.

Existe até um princípio narcísico envolvido na trama, que está repleta de espelhos e reflexos em diversas superfícies, condição que se ajusta na ideia para que a “grande diversão” da Morte começasse numa festa a fantasia. Essa necessidade de fingir, de ver o outro de outra forma diferente, de tentar descobrir a verdade por trás da máscara é um dos princípios que o autor trabalha no decorrer do texto, assim com Giampiero Casertano o faz na arte, representando fielmente duas pinturas lindas de Magritte, a saber, A Reprodução Proibida (do homem no espelho) e Tempo Trespassado (do trem saindo da lareira): a primeira dialogando com a identidade e a segunda com as dimensões e o tempo de ação das pessoas ou das coisas. E já que estou falando da arte, vale citar aqui uma referência explicada pelo próprio Casertano, que disse ter se inspirado na compleição e movimentos do ator Bengt Ekerot no clássico O Sétimo Selo para desenhar a Morte.

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A jornada da ceifadora nessa história vem acompanhada de situações paralelas, de memórias do passado para alguns personagens e narrativas em verso e prosa sobre a inevitabilidade da morte e uma espécie de carma ou destino se agarrando ao processo, tudo isso sem cair para uma linha de interpretação religiosa ou sem se entregar completamente a uma visão fantasiosa. Este é o charme das aventuras de Dylan Dog, na verdade. Muito do que ele investiga tem diversos lados para se enxergar, considerar, julgar e explicar, de modo que o sobrenatural ganha ares de mito e assume-se como verdade apenas para aqueles que tiveram a experiência (e o leitor que as viu acontecer). É um dilema interessante.

O que temos aqui é uma junção de visões e histórias sobre a morte, costuradas de maneira bastante inteligente. Alguns momentos podem até representar uma dispersão da trama central, mas ainda assim obedecem à lógica da história como um todo. Através do Espelho é uma daquelas aventuras que fazem a gente ter medo do nosso próprio reflexo, depois de lê-la. Ou de tirar fotos. Ou de pensar no reloginho da vida que não para de tiquetaquear para todos nós.

Dylan Dog #10: Através do Espelho (Attraverso lo specchio ) — Itália, julho de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Giampiero Casertano
Capa: Claudio Villa (original), Alex Dante (especial e não oficial, usada nesta crítica)
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.