Crítica | Dylan Dog: Os Herdeiros do Crepúsculo

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Os Herdeiros do Crepúsculo (2006) é uma espécie de reafirmação dos conceitos trabalhados por Tiziano Sclavi em A Zona do Crepúsculo e Retorno ao Crepúsculo, dentro de uma ideia geral que me fez questionar, ao longo de toda a leitura, o “por que” de sua existência. Escrita por Michele Masiero, a saga acena para uma “grande conclusão” desse arco separado por tantos anos, colocando o Detetive do Pesadelo novamente em Inverary, mas reescrevendo parte do conceito estabelecido antes por Sclavi, o que pode ser algo absolutamente fascinante se o leitor interpretar isso como um renovo isolado ou, como é o meu caso, uma boa história que enrola demais para mostrar a que veio e, ainda assim, termina exatamente no local onde começou, ou seja, no grande mistério.

O meu impasse com o roteiro é justamente a tentativa de Masiero em pensar uma evolução ou renovação da Zona do Crepúsculo, basicamente complicando o já complicado conceito de sonho & realidade dentro de um sonho-&-outra-realidade que vimos na aventura de 1991. Particularmente não tenho nenhum problema com esse tipo de reescrita, desde que o autor saiba exatamente em que patamar pretende deixar a nova criação. A dubiedade e confusão fixadas por Sclavi era interessante e permitia sólidas interpretações pelos mais diversos lados, dependendo do gosto do leitor — e isso é a parte mais interessante em torno da Zona: a não-definição absoluta, mas a deixa de conceitos suficientes para que o leitor possa apontar caminhos interpretativos, como a morte ou não-morte de Dylan Dog na aventura anterior e coisas do tipo.

Aqui, porém, o renovo é desnecessariamente cifrado em todo o seu trajeto e não há nenhuma compensação ou novidade que justifique a existência dessa história. Embora mantenha grande respeito frente ao trabalho passado de Sclavi — o autor até faz a retomada do “conto impossível” de Poe, no caso, uma segunda continuação de A Verdade Sobre o Caso do Sr. Valdemar –, o roteiro explora frequentes viagens, sonhos, alucinações e caídas no “vórtice” do pobre Dylan Dog para, ao cabo, concluir aquilo que já havia sido concluído em Retorno ao Crepúsculo. Chega a ser frustrante.

Gli eredi del Crepuscolo #238 - plano critico os herdeiros do crepusculo dylan dog

A realidade dentro do sonho, dentro da realidade, dentro do sonho…

Os muito afetuosos podem argumentar que a história “dá uma nova interpretação para a questão do Buraco Negro” e sim, isso é verdade, mas a maneira como esse mesmo roteiro conduz tal informação faz com que ela chegue aonde? Que coisa diferente a gente tem com essa reinterpretação? As mesmas perguntas podemos fazer em relação às tantas revisitas do personagem à Zona. Em algumas páginas, parece que tem algo absolutamente inédito sendo construído, mas nem o grande “êxodo da entropia” que o Dr. Hicks propicia para a população de Inverary termina com alguma novidade. É como se Masiero tivesse todas essas ideias, mas no fim, ficou com medo de oficializá-las, cobrindo tudo isso com o amargo manto do “talvez seja um sonho… talvez seja realidade…”.

Mas sendo justo com a história isoladamente, com a arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani ou com o conjunto inicial de ideias, Os Herdeiros do Crepúsculo é uma boa história. Toda a minha chatice “falando mal” do volume tem a ver com a sua PROPOSTA, que se dilui frequentemente, mas as viagens malucas de Dylan, o conceito de horror aqui explorado, a brincadeira com a “evolução no tempo e no espaço” da cidade… tudo isso garante uma boa leitura, mas é como assistir a um filme de Mario Bava: você fica vidrado e maravilhado com o conceito, maravilhado com a estética e com a abordagem de certos pontos, mas no todo, a obra irrita por não concluir bem a maioria (ou nenhum) dos conceitos que apresentou.

Dylan Dog #238: Os Herdeiros do Crepúsculo (Gli Eredi del Crepuscolo) — Itália, junho de 2006
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Michele Masiero
Arte: Giuseppe Montanari, Ernesto Grassani
Capa: Angelo Stano
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.