Crítica | Dylan Dog: Os Matadores

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Londres, agosto de 1987. Assim começa esta intensa e violenta história escrita por Tiziano Sclavi e desenhada com muita habilidade de ação e variedade na bordagem dos métodos de assassinato por Luca Dell’Uomo. No enredo, uma aterradora onda de assassinatos está assombrando a cidade de Londres, juntamente com um imenso calor, um padrão curioso de criação de perigo que atormenta a população inteira, acrescentando ares de neurose ou hipnose coletiva à tragédia. Algo dramaticamente divertido em torno disso é que o calor vira um eficiente McGuffin, para o qual o roteiro nos dá um baita pagamento no final, para mim, a melhor aventura de Dylan Dog até aqui (esta é a quinta revista do personagem, só para deixar claro).

Algo que delineia ainda mais o horror é que vemos pessoas comuns enlouquecerem e cometerem crimes brutais. Não se trata de indivíduos entregues ao demônio, psicopatas de larga experiência ou contratados para matar. E justamente por serem pessoas comuns (um segurança, um açougueiro, a tia velha de um jovem rebelde, um homem com um guarda-chuva, uma operadora de caixa…) é que os assassinatos por elas cometidos ganham ainda mais força nas páginas, dada a ligação imediata do leitor com as ocupações desses indivíduos. O que Sclavi faz aqui é uma desglamourização do giallo, elemento que observamos em alguns filmes do gênero justamente quando o propósito é tornar mais comum, mais “povão”, mais aberto o leque de ações do horror à solta, justamente a ideia geral desta história.

As piadas de Groucho aqui são majoritariamente maravilhosas (sempre tem uma ou outra sem graça ou que eu não entendo o gancho cômico, mas a maioria sempre me faz rir bastante) e sua participação na trama é ao mesmo tempo boba, inútil e necessária, uma junção de palavras contraditórias que quem conhece o personagem entende exatamente o que eu quero dizer. No meio da investigação de Dylan Dog para “a febre assassina”, temos também a presença do Inspetor Bloch (que culpabiliza o forte calor do verão pela onda de violência) e de um bizarro professor Lord H.G. Wells (desenhado com a cara de David Niven, embora “incorpore” o famoso escritor), uma junção de personas com as mais diversas abordagens e pontos de vista enfrentando um perigo imenso, capaz de atingi-los a qualquer momento, fazendo valer a sua inspiração conceitual que é o filme O Exército do Extermínio (1973), de George A. Romero.

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A história desta vez é finalizada de maneira impiedosa, com Dylan Dog assumindo a vez de juiz e algoz dos criminosos envolvidos com os assassinatos espalhados pela cidade, projeto que tem o dedo do Doutor Xabaras — que não aparece mas é citado aqui, fazendo o próprio Dylan lembrar de seu encontro com o infame Doutor em O Despertar dos Mortos-Vivos. Eu não acho nada demais a explicação para o quê estava causando o desejo de matar nas pessoas, mas dentro do contexto, acaba sendo uma explicação satisfatória. E o final mesmo, embora excelente, é antecedido por uma pequena ondulação de qualidade, especialmente na questão de ritmo, com direito a uma elipse um pouquinho problemática que dá ares de “finalização apressada” à história, embora a rigor, não o seja. Os Matadores é uma história que daria um ágil episódio de TV. Um conto de sangue, investigação cheia de improbabilidades e uma aparência de crônica de “coisas comuns” que coroa todos os acontecimentos e torna a história mais real do que deveria.

Dylan Dog — O Detetive do Pesadelo #5: Gli Uccisori (Itália, fevereiro de 1987)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Record, janeiro de 1992
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Luca Dell’Uomo
Capa: Claudio Villa
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.