Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Dylan Dog – Vol. 11: Diabolô, O Grande

Crítica | Dylan Dog – Vol. 11: Diabolô, O Grande

por Luiz Santiago
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O mundo da mágica e a fauna de mágicos espalhados por tantas histórias de terror, em diversas mídias, nos faz colocar esse tipo de personagem numa lista muito especial de possível “veículo do oculto”. Na verdade, histórias de terror com mágicos como protagonistas tendem a manter uma enorme elegância e, quase sempre, uma comédia ácida e provocativa, pegando o espectador ou leitor de surpresa nos momentos de assassinato, nos momentos de preparação ou mesmo reflexão sobre um ato vil. É muito por conta dessas características, especialmente pelo tipo de humor envolvido, que entendo por quê Tiziano Sclavi preferiu deixar Groucho fora da maior parte dessa história, fazendo-o apenas aparecer brevemente em duas cenas.

É de Groucho que vem toda a onda cômica das histórias de Dylan Dog, mas não só a presente aventura não precisava do tipo de humor mais sarcástico e meio nonsense de Groucho, como a versão de um humor já está representada aqui, através dos sombrios truques do mágico Diabolô, cujo número inicial de “cabeça cortada” — que se passa no Texas, em 1984 — abre a história e nos deixa bastante intrigados sobre o tipo de relação que o tal Erich (desenhado de forma muito similar às feições do grande diretor Erich von Stroheim) com o mágico fracassado que parece ser o “Grande” Diabolô.

A história parece bem diferente em relação às anteriores, e em muitas vezes na série, até o presente momento, eu reagi dessa forma, o que o prova que os roteiros, nessa primeira grande leva, estavam preocupados em trazer as mais diferentes aventuras, onde o Detetive do Pesadelo se envolvia com o maior número de estranhezas e possibilidades macabras possíveis. De recorrente, mesmo, o que temos é a classificação, pois trata-se de uma trama de serial killer. O fato de ser protagonizada por um mágico faz muita coisa ser diferente, inclusive a plasticidade das cenas de morte, a percepção dessas mortes (às vezes falsas, às vezes uma ilusão criada para o leitor, às vezes real) e aquilo que ela causa no protagonista; considerando que a primeira vítima londrina de Diabolô é um interesse romântico de Dylan Dog.

Duas canções são tocadas aqui, ambas com um enorme poder de contexto e integração com as cenas em que aparecem. A primeira delas é Old Souls, de Jessica Harper em O Fantasma do Paraíso, que aparece logo após o assassinato da ficante do protagonista. A segunda é a fantástica Moon Over Bourbon Street, do primeiro álbum de Sting. Essas canções exemplificam um estado de espírito de Dylan Dog e marcam bem dois momentos dessa investigação que, na verdade, não é bem uma investigação assim. Como acontece também em diversos gialli no cinema, às vezes temos a impressão de que o caso se conduz sozinho, e que a pessoa responsável por buscar as pistas está ali apenas reagindo aos atos à sua volta, sem entender absolutamente nada.

Embora eu preferisse que a história tivesse um pouquinho a mais de pé no chão, não pude deixar de apreciar as diversas pistas dúbias em seu desenvolvimento. Mesmo o encerramento quase anticlimático escolhido por Sclavi, trazendo tudo à tona ao mesmo tempo a confissão, os motivos, os ajuntamento das pistas e a resolução do problema, foi uma escolha acertada. Meu único grande problema com esse volume é o ponto sobrenatural do final, que me pareceu forçado e indesejado, pois tirou aquilo que transformava o enredo em algo bem mais interessante: a manifestação do boneco, das vozes e das visões espirituais sendo produto da mente louca de Diabolô, mais um assassino do tipo “filhinho da mamãe” (ah, Freud…). O sobrenatural no decorrer da história é “neutralizado” quando a verdade sobre Diabolô e Erich Dummy se revela, assim, os espíritos reunidos de mãe e filho-boneco, na página final, me pareceram uma tentativa tardia do autor em deixar tudo mais complexo, acabando por tirar a força de algo melhor estruturado no desenvolvimento da edição.

Dylan Dog #11: Diabolô, O Grande (Diabolo il Grande) — Itália, agosto de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Luca Dell’Uomo
Capa: Claudio Villa
100 páginas

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