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Crítica | Dylan Dog – Vol. 15: Canal 666

O poder da televisão.

por Luiz Santiago
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Finalizando o ano de 1987 para a série, Canal 666 coloca Dylan Dog diante uma conspiração, um plano tenebroso criado por um grupo de investidores do entretenimento, cujo objetivo era manipular as pessoas para comprarem qualquer produto exibido em uma propaganda de televisão. A revelação do plano acontece apenas nas últimas páginas do volume, que durante todo o seu desenvolvimento nos mostra os mais estranhos suicídios (que numa interpretação posterior vão se tornar assassinatos), as mais estranhas atitudes e alucinações de pessoas. Além disso, vemos manifestados os mais absurdos seres saídos de um aparelho de TV, cujo objetivo é influenciar a morte dos espectadores.

O escritor Tiziano Sclavi faz aqui um relevante comentário a respeito da manipulação das passas para a compra de banalidades. Por tabela, também chama a atenção para o papel da televisão na sociedade, na maneira como ela orienta as ações das pessoas, como cede o gatilho para determinados atos de violência e como deixa as pessoas dependentes de uma programação diária. Na primeira parte da edição, o leitor fica muito curioso pelo que está oculto nas sombras; pelas forças que estão forçando as pessoas a cometerem suicídio. No processo, se apodera dos indivíduos uma postura niilista em relação à vida, dizendo que nada vale a pena, que nada faz sentido. Depois, vem a trágica morte sugerida. Este é o cenário que se espalha por toda a cidade de Londres, durante alguns dias, chegando, claro, até à porta de Dylan Dog, para ser investigado.

Considerando as manifestações monstruosas, a expressão de um maldito canal em nosso mundo, eu imaginei, por um breve período, que o texto seguiria por um caminho similar ao de A Zona do Crepúsculo, mas nem de perto foi o que aconteceu. Na verdade, a construção até o esclarecimento do caso, com a profusão de bizarros suicídios, é a melhor parte do enredo, preparando o leitor para algo que, infelizmente, não traz uma resposta à altura do enigma que desenvolve. Eu acho a revelação final bem burocrática, didática demais, talvez muito “na nossa cara“, em termos de crítica social. Isso poderia ficar mais interessante se a abordagem fosse relativamente mais sutil. A própria ideia de usar a TV e todo um ambiente de manipulação já era o espaço perfeito para que o público entendesse a proposta. Não era necessário reafirmar mais nada.

Os desenhos de Carlo Ambrosini mostram os bichos saídos da TV e as cenas gore com excelentes ângulos e deformações, deixando o projeto visual do quadrinho incrível. No final da edição, porém, a arte perde a boa diagramação, com quadros pequenos demais, longos textos expositivos e pouca coisa interessante acontecendo. Não tenho problemas com o tom teórico em si, mas com o fato de ele ser longo para algo que é simples e que o leitor já tinha percebido do que se tratava. Além disso, o autor criou um número muito grande de possibilidades sobre quem supostamente estaria fazendo tudo nas sombras, daí quando chega a hora de mostrar quem realmente estava… a revelação parece insatisfatória, se comparada ao mistério. O fato é que a crítica exposta em Canal 666 está cada dia mais real. É uma visão pessimista sobre a TV, é verdade, mas pelo menos em seu aspecto de manipulação de massa, segue em perfeita sintonia com a realidade.

Dylan Dog – Vol. 15: Canal 666 (Canale 666) — Itália, dezembro de 1987
No Brasil:
Mythos, 2003
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Carlo Ambrosini
Capa: Claudio Villa
100 páginas

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