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Crítica | É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo, de Amal el-Mohtar e Max Gladstone

por Luiz Santiago
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Acredito que seja muito comum os leitores serem atraídos para uma obra ou para um determinado Universo a partir de similaridades ou referências que reconhecem de ambientes que já visitaram. Comigo foi assim em relação a É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo. Eu bati o olho no título e mesmo sabendo que o livro não tinha nada a ver com Doctor Who (ou será que tem? Hehehe), me interessei por ele após o destaque para o termo “Guerra do Tempo”. Era apenas uma curiosidade para saber como uma ficção científica fresquinha, fora de um Universo conhecido por mim, trabalharia com esse tipo de guerra. E para todos os efeitos direi que foi uma experiência interessante. E muitíssimo diferente de qualquer coisa que eu poderia imaginar.

É importante deixar claro que o livro não irá abordar verdadeiramente a tal Guerra do Tempo, mas a essência da obra é justamente essa. No enredo, duas agentes inimigas viajam através do tempo e do espaço, esbarrando aqui e ali no trabalho uma da outra. No tempo futuro em que elas vivem, duas facções lutam para chegar a um determinado ponto da História e fazer algum tipo de alteração (das menores e aparentemente insignificantes até as grandiosas, como acontece com Atlântida) a fim de favorecer o seu lado no futuro. A agente Red pertence à Agência, uma civilização tecnológica pós-singularidade. A agente Blue pertence ao Jardim, uma consciência embutida na matéria orgânica. E após os caminhos dessas agentes cruzarem-se diversas vezes, uma observando e tentando desfazer, criar uma situação reversiva ou intrusiva diante do trabalho da outra, uma correspondência se dá entre elas, inicialmente voltada para a provocação e reafirmação de que seu lado ganharia a guerra, mas pouco a pouco mudando de tom e assunto.

A editora Simon & Schuster chegou a vender o livro como “Spy vs. Spy encontra Romeu e Julietae esta é uma das muitas aproximações que podemos atribuir ao presente livro de Amal el-Mohtar e Max Gladstone, mas uma não muito boa. Primeiro porque o romance aqui é de uma ordem muito diferente daquilo a que estamos acostumados (e é por isso, aliás, que ele não estraga a trama) e segundo porque o entorno e o meio de comunicação entre essas agentes ganha paulatinamente os maios mais criativos e bizarros (no bom sentido, aqui) de escrita. Essa troca de mensagens faz do livro uma obra epistolar e os autores somam a isso uma abordagem lírica para os parágrafos em terceira pessoa, o que muitas vezes funciona e outas vezes parece-nos aquele tipo de texto tão polido, mas tão polido, que se torna um tantinho forçado. Ou, em análise geral do conteúdo, algo onde a forma suplanta parcialmente a substância.

Penso que cada leitor verá de maneira diferente a ausência de informações e contexto a respeito da Guerra do Tempo e até mesmo das duas facções (e espécies?) em luta. Como a escrita lírica serve mais ao propósito descritivo da cena histórica, dos sentimentos ou do espaço geográfico onde a próxima carta será recebida e/ou escrita, o leitor praticamente não tem informações que o faça conhecer melhor a origem dessas duas personagens. Sabemos apenas o básico para o entendimento da oposição entre Red e Blue (oposição que ganha “força externa” na parte final, quando uma traição e uma reviravolta acontecem) e sabemos algumas outras coisas sobre o comando de um dos lados e até mesmo o comportamento geral dos Exércitos. Mas não espere uma real construção de personagens aqui ou o desenvolvimento de um contexto para tudo o que acontece, porque não haverá.

Em alguns momentos me lembrei do incrível conto Rise and Fall, de George Mann, e até da forma peculiar de o Dr. Manhattan enxergar as cosas. Mesmo que o uso da viagem no tempo não tenha aqui a marcação de ficção científica hard, os autores sabem utilizá-la de maneira divertida e que serve ao propósito do livro, sem inventar muitas reviravoltas para poder combinar linhas distintas e tentar explicar paradoxos. Como a escrita blinda o entendimento do leitor para algumas coisas, pode-se até argumentar que isso foi uma preferência dos autores para mostrar que as ações por impulso, os sentimentos e o acaso, combinados, merecem mais atenção do que a guerra ou a civilização que a gerou. É um ponto válido, mas não creio que faça bem ao livro o tempo todo. A grande sorte é que estamos diante de uma obra curta, o que impede essa escolha atrapalhar a ponto de tornar o livro ruim.

É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo tem uma premissa instigante e passagens lindíssimas de compartilhamento de afeto, amizade e amor. As vidas vividas e as ações militares de Red e Blue mudam de figura à medida que vemos as cartas ganharem um toque mais pessoal, um certo tom cômico e sinais de sentimento de uma agente pela outra. A própria expressão desse sentimento e o encadeamento social que gera para as duas, no desfecho do livro, ganham pontos em nosso coração e ajudam a tornar a obra marcante, juntamente com as passagens criativas na escrita das cartas, que são, disparadas, as minhas favoritas do volume. É um livro sobre comunicação entre inimigos, sobre o horror da guerra e sobre o nascimento de algo diferente em um terreno onde só poderia haver o ódio.

É Assim Que se Perde a Guerra do Tempo (This Is How You Lose the Time War) — EUA, 2019
Autores: Amal el-Mohtar e Max Gladstone
Editora original: Simon & Schuster
No Brasil: Suma de Letras, 8 de fevereiro de 2021
Tradução: Natalia Borges Polesso
209 páginas

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