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Crítica | E Sua Mãe Também

O desbloqueio da identidade de um país através da sexualidade.

por Iann Jeliel
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E Sua Mãe Também

Depois de vender sua imagem como diretor em Hollywood através de duas adaptações de livros conhecidos, Alfonso Cuarón tem seu primeiro “retorno às  origens” para colaborar com o ápice do período de emersão do cinema mexicano ocorrido na virada do século, apresentando um coming-off age sexual simbólico sobre a busca de identidade de um país através de jovens distantes de  sua realidade. Quando digo “distantes de  sua realidade” não me refiro apenas ao mantra de ignorância vindo da condição social elevada dos protagonistas – um caso raro no cinema latino, que normalmente retrata o país através dos olhos da pobreza – sobre as problemáticas do México apresentado, mas principalmente no conhecimento particular as motivações dos prazeres que tanto buscam. E Sua Mãe Também poderia ser resumido em muita bebida, drogas e sexo.

Uma tríade de coisas amplamente colocadas pela sociedade como tabu, repugnante e, especialmente no universo adolescente, um pretexto de vagabundagem e inconsequência. Júlio (Gael García Bernal) e Tenoch (Diego Luna) são, nesse sentido, “vagabundos”. Não precisam se preocupar com estudos, ignoram parentes que protestam nas ruas que recentemente tinham descoberto a democracia, reclamando o quanto as manifestações o atrasam para  ver os amigos, para poder beber cachaça, fumar mais baseados e conversar sobre putaria mesmo estando namorando. Contudo, ao contrário do que poderia, Cuarón não condena a personalidade mesquinha e egoísta dos protagonistas, nem a condiciona na jornada de amadurecimento posterior (quando o filme adota a estrutura road-movie) a uma transformação sem a vivência descompromissada e desprovida dos gozos vindos pelos tabus mencionados.

Na verdade, a construção de aprendizado do coming-off age respalda em como saber saborear melhor esses regalos e, consequentemente, adquirir um olhar mais holístico sobre o entorno. Os olhos distantes dos personagens escolhidos são os espelhos perfeitos para que Cuarón consiga evidenciar o verdadeiro México que até então era desconhecido na indústria cultural exterior, seja em suas problemáticas sociais sutilmente colocadas nos arredores das ambientações, seja no potencial artístico do seu cinema dado o apuro técnico – a fotografia absurda de Emmanuel Lubezki. Não à toa, E Sua Mãe Também foi um dos filmes latinos mais vistos da história, sendo amplamente premiado, com direito a vitória de Melhor Roteiro e Melhor Ator no Festival de Veneza e indicações ao Oscar por Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original.

Ao convidarem Luisa (Maribel Verdú) – uma mulher mais velha, esposa do primo (Juan Carlos Remolina) de um deles (Tenoch) – para fazer uma viagem até uma praia paradisíaca só como uma desculpa para que pudessem “pegá-la”, Julio e Tenoch passam por uma jornada de descoberta da própria sexualidade, conduzida por um estudo de masculinidade bastante sensível. Os dois amigos são muito próximos, chegam a tomar banho e até se masturbam juntos. E ainda, apesar disso, eles se sentem desconfortáveis ​​com o outro tendo experiências sexuais com a mesma mulher. Os conflitos do filme surgem a partir da descoberta de traições compartilhadas entre suas namoradas e a disputa particular por Luisa com quem  ambos só aguentam transar por alguns segundos, tamanha a ansiedade gerada pela necessidade se provarem como “homem” para uma mulher experiente.

Luisa, por sua vez, também passa por uma jornada própria de descoberta, não exatamente de sexualidade, mas da possibilidade não monogâmica de um relacionamento. O caminho de sua liberdade sexual educa os jovens acerca dos erros que cometeram nas suas respectivas vivências com mulheres (a personagem tem um arco dramático de superação das traições do marido) e ilustra o caminho para que aproveitem  melhor seus verdadeiros desejos. O final é revelador nesse sentido. A construção da sintonia no triângulo  fornece a beleza do sexo em seu estado mais puro, sendo filmado por Cuarón de forma extremamente naturalista, sem deixar de ser plenamente sensual. O famoso “sexy sem ser vulgar”. As performances físicas do trio de atores (Garcia e Luna virariam astros depois daqui) são absolutamente sincronizadas e equilibradas nesse meio entre o erótico e o realismo minucioso buscados na proposta.

Se fosse para colocar algum problema em E Sua Mãe Também, seria para as narrações oniscientes em off que didatizam os fundamentos políticos presentes na história e ditam a sobriedade no tom narrativo. Se esse narrador fosse algum dos personagens presentes faria mais sentido a sua presença com várias inserções de quebra diegética do som em cenas que ficam bem incômodas. Como não é, o filme ganha apontamentos que limitam sua amplitude temática, por mais ampla que ela seja concebida nas circunstâncias criadas pela construção cenográfica. Ademais, é inegavelmente um drama sensual entusiasmante e inspirador, que  dá vontade de sair por aí, mundo afora, e mostrar para todo mundo quem realmente somos.

E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También | México, 2001) 
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Carlos Cuarón
Elenco:  Diego Luna, Gael García Bernal, Ana López Mercado, Daniel Giménez Cacho, Nathan Grinberg, Verónica Langer, María Aura, Giselle Audirac, Arturo Ríos, Andrés Almeida, Diana Bracho, Emilio Echevarría, Marta Aura, Maribel Verdú, Juan Carlos Remolina, Liboria Rodríguez, Silverio Palacios, Mayra Serbulo, Andrea López, Amaury Sérbulo
Duração: 106 minutos

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