Crítica | Eclipse Total (1995)

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Boa parte da obra do escritor Stephen King trata de como o mundo pode ser violento e cruel por trás dos vernizes sociais, sejam eles os de pequenas comunidades, ou da própria instituição familiar, principalmente para as mulheres, pois, apesar dos importantes avanços conquistados ao longo dos anos, ainda somos uma sociedade essencialmente patriarcal. Eclipse Total, adaptação do livro homônimo de King, foi dirigido em 1995 por Taylor Hackford trata justamente do quão ameaçador e hostil o mundo pode ser para as mulheres, e o quão resilientes elas devem ser para sobreviver nele.

Na trama, Dolores Claiborne (Kathy Bates), uma senhora residente da pequena Ilha de Little Tall, no Maine, é acusada pela morte de Vera Donovan (Judy Parfitt) de quem foi empregada por vinte anos. A acusação provoca o retorno da filha de Dolores, Selena St. George (Jennifer Jason Leigh), que pelos últimos quinze anos, manteve uma relação distante com a mãe. O reencontro entre mãe e filha reabre velhas feridas, envolvendo especialmente a morte do pai de Selena, Joe (David Strathairn), morto em circunstâncias misteriosas após cair em um poço durante um eclipse solar.

O roteiro de Tony Gilroy possui uma estrutura binária, com parte da trama ocorrendo no presente, e a outra no passado, através de flashbacks. Os dois tempos se distinguem pela estética, com a fotografia usando uma paleta cinzenta e ambientes nublados para o presente, em contraste com os ambientes ensolarados e uso de paletas de cores mais brilhantes nos flashbacks. Essa dicotomia estética poderia sugerir um passado idílico, mas o filme explora não só a escuridão existente por trás de uma superfície brilhante, mas tensiona a noção divisória entre passado e presente, algo reforçado pela excelente montagem, que brinca com a perspectiva cronológica dos personagens.

Eclipse Total abre com o que parece ser uma discussão mortal entre Dolores e Vera, que termina com a morte da segunda após rolar a escada, em uma cena construída de modo a nos fazer crer que Dolores é alguém capaz de matar uma velha debilita, embora as cenas seguintes já ponham em xeque essa impressão ao apresentar a personagem de Bates como uma mulher de temperamento difícil, mas essencialmente boa. Da mesma forma, conhecemos Selena como uma jornalista confiante e bem sucedida, mas logo revela demônios internos poderosos, que se manifestam através do seu alcoolismo. Os personagens do filme, as mulheres principalmente, são muito mais do que aparentam na primeira impressão.

Os dois tempos da trama têm em comum uma morte em circunstancias suspeitas, a de Joe no passado e a de Vera no presente. Dolores foi suspeita na primeira morte, e foi inocentada, e agora se vê acusada de novo, atraindo o ódio da pequena ilha onde vive. Mas as ações de personagens como Selena, e o detetive Mackey (Christopher Plummer), que investiga a morte de Vera (e investigou a de Joe no passado) são guiadas não pela morte recente, e sim por questões mal resolvidas que circundaram o fim do patriarca da família St. George. Eclipse Total não é só uma obra sobre a memória de seus personagens, mas também sobre suas perspectivas, como percebemos através das lembranças conflitantes de Dolores e Selena de um mesmo incidente envolvendo uma agressão de Dolores contra Joe.

Mas este é sobretudo um filme sobre a resiliência feminina, um conflito que pode ser percebido principalmente pela relação entre Dolores e seu marido abusivo, mas não somente aí. A maioria dos homens da trama mostram algum grau de machismo ou hostilidade, com o xerife vívido por John C. Reilly sendo o único personagem masculino a ser retratado de forma mais simpática. Em um mundo como esse, como diz uma fala que se torna recorrente durante a obra “Ás vezes, ser uma vaca é tudo o que resta a uma mulher“. Embora bastante pessimista e até simplista, a linha define bem como muitas vezes as mulheres precisam demonstrar o dobro de força e esperteza para sobreviverem (com o filme deixando para o público certos julgamentos morais por certas ações das protagonistas), portanto não é de se surpreender que Dolores, Selena e Vera são cada uma á seu modo, mulheres endurecidas pela vida.

A intensidade exigida pela história é alcançada principalmente pelo brilhante elenco. Jennifer Jason Leigh interpreta Selena como uma mulher que esconde um interior fragilizado através de uma postura cínica e rebelde, quase uma adolescente mau humorada crescida, o que vai de encontro ao seu arco dramático e traumas do passado. Judy Parfitt, por sua vez, vive Vera Donovan como uma mulher que apesar de aparentar superficialidade e possuir certa natureza abusiva com seus empregados, é dona de um caráter implacável, que contrasta com um complexo processo de empatia, como percebemos na interessante relação de amor e ódio que ela e Dolores mantêm ao longo dos anos, desde quando Vera era saudável, até os seus últimos dias, quando começou a sofrer de demência.

Mas o filme pertence mesmo a Kathy Bates, que nos entrega uma Dolores Claiborne cheia de camadas, e extremamente humana, capaz de ser igualmente forte e tenra, frágil e inabalável, diferentes facetas da personagem trabalhadas por Bates nos detalhes, em uma atuação que deveria ser mais reconhecida. Não posso encerrar sem falar dos competentes trabalhos de Plummer como o Detetive Mackey, criando um bom antagonista para a Dolores de Bates, enquanto David Strathairn constrói Joe St. George como um homem repulsivo que realmente conseguimos odiar, e cujas ações vão se tornando mais revoltantes á medida em que a narrativa avança. Por fim, deve-se elogiar o trabalho de Ellen Muth, como a jovem Selena, por conseguir segurar algumas cenas bem fortes tanto com Bates quanto com Strathairn.

Taylor Hackford entrega com Eclipse Total um melodrama gótico moderno, que trata sobre o peso dos segredos, a escuridão que o passado pode lançar sobre o presente se não for encarado, e da força da mulher diante das mais terríveis adversidades, tudo isso coroado por um excelente elenco, encabeçado por uma Kathy Bates inspiradíssima, em um de seus melhores trabalhos. Eis aqui uma adaptação de Stephen King muito subestimada, e que merecia mais destaque do que tem atualmente.

Eclipse Total (Dolores Claiborne), Estados Unidos. 1995.
Direção: Taylor Hackford
Roteiro: Tony Gilroy (Baseado em Romance de Stephen King)
Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Judy Parfitt, Christopher Plummer, David Strathairn, Eric Bogosian, John C. Reilly, Ellen Muth, Bob Gunton, Wayne Robson.
Duração: 132 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.