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Crítica | Eduardo II (1991)

por César Barzine
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Releitura da história do rei Edward II (ou Eduardo II), que governou a Inglaterra de 1307 a 1327, o longa-metragem experimental de Derek Jarman não apenas reformula parcialmente a ambientação do século XIV para os dias atuais, como também incorpora uma certa subversão em sua condição cinematográfica dentro desse mesmo espectro revisionista dos fatos. A história de Edward (tanto o personagem quanto a personalidade histórica) possui dois pontos de partida: a sua paixão pelo plebeu Gaveston e o início de seu reinado com a morte do rei Edward I. “Me curvarei somente ao rei“, estas palavras ditas por Gaveston sinalizam sua soberba e sua paixão. E é por esta mesma paixão que surge o conflito do novo rei com seus súditos, que exigem o exílio de Gaveston. Edward compra a batalha, e de forma persistente passa a negar tal exigência, mesmo que a estabilidade de seu reinado esteja em jogo.

Jarman poderia ir para o caminho da simples iconoclastia que busca satirizar o formalismo das instituições medievais, mas aqui ele está mais focado numa representação alheia a qualquer juízo de valor sobre este passado. Seu foco é apenas com o poder da encenação conduzida pelas junções de teatro e cinema, passado e presente, ficção e realidade. Todas essas fusões funcionam como uma espécie de autoanálise de cada maneirismo citado, onde o que importa não é a presença de cada maneirismo de modo isolado, mas a aplicação deles em um espectro antagônico a si próprio; uma síntese resultada da tese e antítese. Podemos ver isso nas interpretações de todo o elenco, que não correspondem ao modo de ser do cinema, mas sim do teatro (o filme é justamente baseado numa peça); na direção de arte ligada mais ao presente do que ao passado; assim como o eixo moral do retrato da homossexualidade dentro daquela conjuntura que mistura a presença pública dos gays com o mesmo destemor do presente, enquanto a posição dos súditos carrega uma índole reacionária; por fim, os cenários e a iluminação expostos num estado de enorme discrição, extremamente minimalista, demonstram mais um deslocamento do cinema para o teatro.

E em meio a tantos arranjos em que cada um se caracteriza pelas diferenças dentro de si próprio, há também uma unidade estilística que amarra cada um deles. Trata-se de uma abordagem teatral que se encaixa no cinema muito mais como uma “novela experimental” do que um “drama sério“. O fator histórico, aqui, acaba funcionando de maneira distante devido a uma peculiar caricatura impressa nos personagens e na completa abordagem formal adotada. Esse aspecto teatral dá um tom de comédia ao filme, uma comédia que não é explícita, mas que funciona em razão de sua unidade. E cabe repetir que o filme de forma alguma se rende a sátira, mesmo com essa junção de revisionismo e comédia. O que acontece é que em boa parte do tempo o longa possui também uma dinâmica de ódio e fúria entre seus personagens, e pelo clima azedo aplicado sobre essas intrigas, acaba havendo um claro equilíbrio entre o drama e a comédia.  

A mise-en-scène de Edward II é extremamente semelhante com a de Dogville, de Lars von Trier. Há aqui a ausência de uma construção cênica convencional, onde o predomínio é a ausência daquilo que é fundamental na composição de um cenário – assim como em Blue, também de Jarman, que se concentra inteiramente em um único plano. A mobília presente nos ambientes é mínima, o que abre espaço não apenas para sua forma teatral, como também experimental e obscura. E, obviamente, a iluminação quase que nula é um grande fator que contribui para esse lado noturno imposto ao filme. O vazio daquela escuridão penetra em cada plano, oscilando entre o negro e o naval, chegando a ofuscar a presença dos personagens enquadrados, consumindo-os pela pouca luz em seus corpos. Todos esses elementos – vazio cênico, sentimentos execráveis, poder e conflitos – caminham para algo quase que macabro, pois ao lado de toda a negatividade que impera sua unidade, há também a completa antipatia dos personagens. 

Talvez o personagem menos desprezível de todo esse caos seja o próprio Edward. Um homem que, do início ao fim, apenas quis amar o seu companheiro, e que em várias ocasiões demonstrou esse afeto, rendendo alguns dos poucos momentos ternos do filme. Isabella, jovem comprometida ao novo rei, também possui seus instantes de ternura – graças à paixão que ela sente por Edward -, embora esses sentimentos terão uma invertida com a rejeição dele por ela. De qualquer forma, não deixa de ter a atuação mais humana e versátil do elenco, ao passo que o restante dos atores possuem performances pomposas e um pouco risíveis ao mesmo tempo.

Como dito, apesar de ser um filme experimental, Edward II tem uma aparência de novela. Isso se deve a narrativa envolta de disputas de poder, amor proibido, rejeição amorosa e preconceito, mas também graças ao fato de haver múltiplos núcleos dramáticos no roteiro. Esses diversos núcleos são divididos em dois polos antagônicos e, em meio ao conflito central da história, a montagem se articula perfeitamente nos deslocamentos de cada trama. O dinamismo que ela imprime faz um bom aproveitamento das intrigas que formam os confrontos presentes, sendo o principal responsável pelo caráter cinematográfico nessa disputa de poder. Mas no final das contas, o grande choque formado pelas diferenças de elementos presentes em todo o filme encontra-se na reunião de cinema, teatro e telenovela promovida aqui.

Eduardo II (Edward II) – Reino Unido, 1991
Direção: Derek Jarman
Roteiro: Christopher Marlowe (peça teatral), Ken Butler, Steve Clark-Hall, Derek Jarman, Stephen McBride, Antony Root
Elenco: Steven Waddington, Kevin Collins, Andrew Tiernan, John Lynch, Dudley Sutton, Tilda Swinton, Jerome Flynn, Jody Grabe, Nigel Terry
Duração: 90 minutos.

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