Crítica | El Camino: A Breaking Bad Film

Um pouco mais de seis anos depois que vimos Jesse Pinkman (Aaron Paul) fugir de seu cativeiro no Chevrolet El Camino, depois de libertado por seu ex-mentor Walter White (Bryan Cranston), Vince Gilligan retorna à sua criação para revelar o fim do co-protagonista de sua série. Não só o nome escolhido para batizar o longa-metragem como toda a ideia de fuga levava a crer que veríamos uma espécie de road movie ou, no mínimo, algo que mandasse Jesse para bem longe de onde veio.

Mas Gilligan é Gilligan e ele raramente faz o óbvio. Muito diferente de um filme sobre liberdade, sobre deixar uma vida para trás, somos presenteados com uma segunda prisão para Jesse que não consegue desvencilhar-se de Albuquerque, no Novo México e de seu trauma do cativeiro. Começando com uma sequência bucólica com uma ponta de Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) que aponta para o futuro e reitera a errônea ideia que muitos – inclusive eu! – tinham do que seria o longa, o diretor e roteirista nos leva para exatamente o último momento de Jesse na série e logo revela que, no lugar de dirigir até não poder mais, como era de se esperar, ele vai quase que por reflexo para a casa de seus amigos Badger (Matt Jones) e Skinny Pete (Charles Baker) onde se recompõe um pouco.

Intercalando flashbacks que “retconam” o fatídico cativeiro de Jesse e acrescentando um evento que o faz descobrir que Todd (Jesse Plemons) tinha dinheiro escondido em seu apartamento, o roteiro de Gilligan estabelece um plano simples para seu personagem que é executado no estilo Breaking Bad de ser, ou seja, da maneira mais tortuosa e tensa possível, mantendo o mistério por um bom tempo. Entretanto, há surpreendentemente pouca violência e o tão famoso “bitch” que Aaron Paul transformou em vírgula está estranhamente ausente, mas Gilligan cria um epílogo que respeita sua série e traz satisfação ao fã.

Essa satisfação vem não só pela revelação do fim de Jesse em si, como também – e talvez principalmente – pela quantidade de menções e referências à série principal, algo que é marca em Better Call Saul. Mas, diferente da série-prelúdio sobre a origem do advogado salafrário vivido por Bob Odenkirk, não há espaço e tempo em El Camino para algo homeopático. Com isso, Gilligan acaba exagerando na dose e arrumando maneiras por vezes cansativas de martelar o máximo possível de pontas ilustres nas duas horas de projeção, expandindo a história básica por mais tempo que talvez devesse. Sei muito bem que tem muita gente que aprecia filmes-referência e El Camino nem é o mais carregado exemplar, mas, mesmo assim, percebe-se que o roteiro foi talhado de forma a permitir inserções e piscadelas que pouco desenvolvem a história sendo contada e estão lá mesmo somente pelo famoso fan service.

No entanto, é aquilo: o próprio longa é um grande fan service que, se espremermos, não acrescenta tanto assim à mitologia. Portanto, essa abordagem de Gilligan era a esperada e, aqui, ele não surpreende ninguém e entrega exatamente o que era antecipado, ainda que eu, pessoalmente, tivesse preferido mais parcimônia. Seja como for, a participação do grande Roberto Forster, que infelizmente faleceu no dia do lançamento mundial do longa, reprisando seu papel de Ed lá do penúltimo episódio de Breaking Bad, é muito bem vinda e perfaz um dos pontos altos do filme em um momento que parece algo saído do manual de instruções de Quentin Tarantino.

O olhar sempre esteticamente irrepreensível de Vince Gilligan se faz presente em toda a produção, com a fotografia de Marshall Adams (de Better Call Saul) mantendo a harmonia com a série-mãe, com alguns belíssimos planos em que as câmeras são colocadas em ângulos mais radicais, valendo especial destaque para a sequência em plongée em que vemos Jesse (ou vários Jesses) em time lapse desmontando o apartamento de Todd e, claro, para toda a calma e tensão da câmera quase que completamente estática em toda a longa sequência na loja de aspiradores de pó de Ed.

Aaron Paul, que nunca realmente conseguiu desvencilhar-se de seu Jesse Pinkman em sua carreira pós-Breaking Bad ganha todo o espaço para mostrar que, nesse papel, ele é rei. Parece até que não se passou um dia sequer desde que Felina foi ao ar, com o ator não só fisicamente igual, como atuando como se tivesse filmado El Caminho semanas após o encerramento da série que o revelou. Melhor ainda, seu Pinkman é muito claramente o Pinkman que passou por toda ascensão e queda que acompanhamos ao longo de cinco anos e que aprendeu sua lição. No lugar de sucumbir à saídas fáceis e gratuitamente violentas, o personagem mantem-se fiel ao que ele era, com Gilligan escrevendo-o com cuidado, o que justifica uma certa lentidão na narrativa e a tentativa de o personagem sair de suas enrascadas na conversa, quase que implorando, com as atitudes extremas sendo apenas o último recurso.

Inescapavelmente, porém, El Camino é um episódio estendido (demais) da série, um epílogo que vive e respira o que veio antes a ponto de ser quase que ininteligível para quem não acompanhou os 62 episódios que contaram a saga de Walter White. Mas é para ser assim mesmo, senão o risco seria de tornar tudo extremamente aborrecido e didático. Trata-se de um presente para os fãs, ainda que o longa pudesse ser bem mais do que apenas isso.

Gilligan, no final das contas e como já esperado, entrega uma obra robusta, mesmo que ele tenha conscientemente trocado conteúdo por muito estilo e muito fan service. Mas que mal há nisso de vez em quando, não é mesmo?

El Camino: A Breaking Bad Film (EUA – 11 de outubro de 2019)
Direção: Vince Gilligan
Roteiro: Vince Gilligan
Elenco: Aaron Paul,Jesse Plemons, Krysten Ritter, Charles Baker, Matt Jones, Scott Shepherd, Scott MacArthur, Tom Bower, Kevin Rankin, Larry Hankin, Tess Harper, Marla Gibbs, Brendan Sexton III, Johnny Ortiz, Robert Forster, Jonathan Banks, Bryan Cranston
Duração: 122 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.