Crítica | Elfos – Livro 3: Elfo Branco, Coração Negro

Elves #03 - White Elf, Black Heart (2013 PLANO CRITICO ELFO BRANCO CORAÇÃO NEGRO ELFOS

Elfo Branco, Coração Negro (2013) é um livro muito diferente dos dois que o antecederam na série Elfos. E aqui o leitor pode até se rir e pensar que esta é uma afirmação óbvia, já que anteriormente tivemos os Elfos Azuis e os Elfos Silvestres em destaque, enquanto este volume é dedicado aos Elfos Brancos. Sim, isso também. Mas eu me refiro mesmo a uma diferença de trabalho conceitual, em apresentação de um povo, de uma cultura fantástica, como aconteceu nos outros tomos. Aqui, o roteirista Olivier Peru fala muito menos das caraterísticas principais dos elfos protagonistas da história e dá mais espaço para um conflito individual, onde Fall, um jovem elfo branco, está caçando com seu pai Meliatell (filho de Oolonéia, irmão de Micalatéia). É na trilha dessa caçada a um raro dragão branco que o roteiro irá construir mais este novo mundo, acompanhado pela excelente arte de Stéphane Bileau e pelas também excelentes cores de Luca Merli.

Essa grande diferença em relação aos livros anteriores foi o que me gerou o primeiro “afastamento” em relação à história. Sim, ela é muito boa e se mantém solidamente acima da média, mas em comparação à qualidade geral das outras duas tramas, está certamente abaixo, tanto por utilizar um caminho tangente para abordar aquilo que deveria ser o assunto principal do enredo, quanto por adotar um estilo narrativo absurdamente elíptico, beirando o insuportável.

Começamos a história no meio da jornada de pai e filho, com um diálogo sobre o comportamento de busca pela grandeza e tendência à destruição típicas dos humanos. Uma antiga cidade destruída é vista em uma bela página dupla e já aí entendemos a grandiosidade dos caminhos percorridos pela dupla de caçadores. A diferença de idade e o olhar para o mundo também se contrastam no roteiro e, num primeiro momento, isso é muito bom.

Pouco a pouco algumas informações práticas nos são dadas, mas nada muito informativo sobre os elfos brancos. Sabemos mais sobre o dragão e alguns mistérios que o ligam ao jovem Fall, paulatinamente colocado em contato com a mente dos animais, o que levanta suspeitas para ele mesmo, se não é, na verdade, um Elfo Silvestre. Ele sabe que é adotado, mas sua origem lhe é um mistério, algo que o texto da HQ explora bem, mas por passar tanto tempo afastado do território dos Elfos Brancos e por haver tanta elipse no meio do caminho, fica difícil aproveitar e até digerir bem a relação de Fall com o seu passado e o que significam os seus estranhos sonhos.

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Da resiliência à pura ira.

Exceto pela noção visual de perspectiva e tamanho do dragão nas primeiras cenas, temos a arte dessa história como uma acompanhante de luxo, dando muito mais elementos para o leitor analisar e considerar do que o próprio roteiro. Se vale uma crítica às representações de Stéphane Bileau (em termos de conteúdo mesmo), eu poderia dizer que ela se torna problemática quando Fall retorna à Ilha principal dos Elfos Brancos. Os quadros que exibem a arquitetura local são mínimos e a finalização não acompanha o padrão do restante do tomo, deixando uma certa ausência. Curiosamente, a cor também tem um ponto baixo nessa cena. Por um lado é possível entender esse uso, se pensarmos em uma criação de atmosfera densa, mas por outro, concluímos que a própria revelação daquela sociedade e a aplicação viva de cores, como fora em todo o restante do livro, fariam um serviço ainda melhor do que a predominância do branco com leves reflexos laranjas no quadro.

O texto poderia adotar um caminho que não entregasse elipses temporais de décadas em cada página. As sutis e belas escolhas para a mudança de temporalidade (basicamente, as estações do ano) não bastam para pavimentar organicamente esse caminho, isso porque há um exagero no uso dessa passagem do tempo, sem um real peso nos diálogos ou necessárias mudanças para os caçadores. Apenas quando o humano Alornell entra em cena é que essa passagem acaba tendo uma melhor demarcação (visual, apenas), porque o reencontramos aos 16 anos e notamos o crescimento de sua barba, estatura, gostos, vestimentas e diálogos, o que indica que alguns desses padrões poderiam ser utilizadas na primeira metade da saga, mesmo considerando a longa vida e o lento envelhecimento dos elfos. Na reta final, uma antiga profecia é revelada e muita coisa que antes era apenas um enigma, se revela, dando sentido a certos caminhos da história e principalmente ao título, que mais indica a exploração desse povo élfico num futuro volume da série do que de fato o apresenta para o público aqui. A história é boa, mas seria ainda melhor se mostrasse mais daqueles que deveriam ser os protagonistas da vez.

Elfes – Tome 3: Elfe Blanc, Cœur Noir (França, 2013)
Editora original: Soleil Productions
No Brasil: Mythos, 2018 (Elfos – Volume 2: encadernado contendo esta segunda e a terceira história da série)
Roteiro: Olivier Peru
Arte: Stéphane Bileau
Cores: Luca Merli
60 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.