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Crítica | Eliminação (Com o Coração na Garganta)

Mistureba visual e narrativa que acaba dando certo.

por Luiz Santiago
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Eliminação (Com o Coração na Garganta) é uma daquelas farofas cinematográficas que deixam a gente tonto. Dirigido por Tinto Brass (sim, o mesmo diretor de Calígula) o longa é uma livre adaptação do romance Il Sepolcro di Carta (1955), de Sergio Donati, e está focado em um enigma envolvendo um assassinato inicial, algumas fotos perdidas, uma jovem indefesa e um ator que conhece essa jovem e passa a “investigar” o caso. Na maioria das publicações a respeito deste filme temos a indicação de que se trata de um giallo, denominação da qual discordo firmemente. É verdade que a obra flerta com o gênero, mas de uma maneira muito peculiar, estando mais na linha de filmes como Os Profissionais do Sadismo ou mesmo de um famoso poliziotteschi de Sergio Marino, intitulado Morte Suspeita de uma Adolescente, do que de um giallo propriamente dito.

Das anedotas que se contam sobre a obra, diz-se que Tinto Brass enganou o ator Jean-Louis Trintignant para convencê-lo a fazer o filme, o que não é nada difícil de se imaginar. O fato é que o livro no qual a obra se baseia é mesmo um giallo, mas Brass procurou criar a sua própria versão psicodélica, que, como ele mesmo disse, era um enigma genuíno, com uma camada da história adentrando à outra e confundindo-se, para criar uma nova realidade. E no meio de tudo isso, o espectador verá na tela referências sem-fim à pop art, aos quadrinhos e a diversos filmes de Hollywood… tudo mergulhado numa atmosfera à la Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), que tem um de seus diálogos reproduzidos aqui, com citação direta a Michelangelo Antonioni e tudo.

O que faz uma história de investigação, uma aventura onde o crime deve tomar o centro das atenções? Bem, o mínimo que esse tipo de enredo precisa fazer é entregar uma boa quantidade de perseguições, ação e crimes (nesse caso, mortes); e quando se trata de um giallo, as tais mortes precisam ter requintes de detalhes e ocorrer em cenários com uma direção de arte nada discreta. Aqui em Eliminação, este último aspecto pode ser encontrado facilmente. Já os outros são vistos costurados a inúmeras distrações. Não existe, na realidade, uma preocupação para que a investigação aconteça, e o “detetive amador” vivido pelo personagem de Trintignant, é apenas um apaixonado que cai nos braços da irresistível Jane (Ewa Aulin, simplesmente fascinante em sua beleza inocente), o que constantemente o colocará em maus lençóis, dos quais nem ele e nem o roteiro conseguem sair.

Os assassinatos principais aqui são todos cometidos em elipse e, como o processo de busca pelos bandidos não dá em muita coisa, o roteiro tenta fechar alguns buracos colocando Bernard e Jane nas mãos de mafiosos, fazendo com que pelo menos a perseguição e um pouco do suspense aguardados sejam sentidos no desenvolvimento da fita. Mas entram no caminho as distrações que citei no parágrafo anterior. A montagem é carregada, as cenas possuem interferências de elementos visuais inúteis e quanto mais o filme avança, mais percebemos que as coisas se tornam confusas e a verdadeira missão, o verdadeiro sentido da película dilui-se num mar de coisas que não ajudam a enriquecer a história, a dar pistas, a indicar os suspeitos pelos assassinatos. Nem nos gialli obscuros do início do gênero, como A Hiena de Londres ou A… de Assassino (só para citar dois) percebíamos tal dispersão.

Concordo que o longa é psicodélico e que abraça uma tendência artística em voga nos anos 1960, não à toa vemos aqui referências a Blow-Up. Socos visualmente mostrados nos moldes exagerados das HQs; montagem em split screen (tela dividida); cenas de soft porn e uma libido latente que parece receber mais atenção da direção do que a própria história ajudam a furar a unidade geral desse mistério, que tem diversos méritos e muitas de suas escolhas acabam nos chamando bastante atenção. E ainda devo dizer que, embora a alternância entre cor e preto e branco não tenha sido uma escolha artística mas uma necessidade da produção, o efeito acabou sendo bem interessante para a obra, combinando com toda a loucura que ela se propõe. Eliminação (Com o Coração na Garganta) é um filme cheio de misturas estilísticas que se perde muito facilmente em seu próprio umbigo narrativo, esquecendo-se de nos contar uma história sólida.

Eliminação (Col Cuore in Gola) — Itália, França, 1967
Direção: Tinto Brass
Roteiro: Tinto Brass, Francesco Longo, Pierre Lévy-Corti (baseado na obra de Sergio Donati)
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Ewa Aulin, Roberto Bisacco, Charles Kohler, Luigi Bellini, Monique Scoazec, Enzo Consoli, Vira Silenti, Skip Martin, David Prowse, Janet Street-Porter
Duração: 104 min.

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