Na dialética entre a opulência do fragmento e a fragilidade da totalidade histórica, Elizabeth encontra uma irregularidade latente. Ao transpor para a tela a ascensão da “Rainha Virgem”, o diretor Shekhar Kapur não apenas traduz a transição do poder, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de sensibilidade no qual o exagero, por vezes, deixa de ser uma ferramenta de imersão para se tornar um ruído de coerência.
A linguagem cinematográfica adotada pelo diretor indiano revela-se como o seu exercício mais arriscado e, simultaneamente, mais dependente de convenções sensoriais. Ressalto, de partida, a utilização de muletas estéticas que, embora deslumbrantes, denunciam uma segurança cromática que flerta com o exotismo. Kapur veste a Inglaterra de 1558 com as cores e texturas da Índia medieval; os vastos salões ecoantes e as colunas que se perdem nas sombras conferem à fotografia uma densidade que dialoga com o drama como uma real ópera. Entretanto, essa escolha, se por um lado encanta, por outro cria um distanciamento da sobriedade política que o roteiro de Michael Hirst tenta estabelecer. A fotografia é inegavelmente poética, mas não busca o extraordinário pela verdade, e sim pela constância de uma beleza melancólica que, por vezes, sufoca a substância dos fatos. Em outras palavras, me parece que Kapur o tempo inteiro tenta encobrir seu filme de inverdades por, em seu entendimento, achar os fatos históricos desinteressantes demais.
Não desmereço, claro, o desempenho do elenco, encabeçado pela entrega visceral de Cate Blanchett, que é justamente o ponto de equilíbrio de uma obra que tende propositalmente ao excesso. Blanchett interpreta com preciosismo a metamorfose de uma jovem ingênua em uma estrategista determinada. Se o espectador considera a figura de Elizabeth I uma obra de hipérboles políticas e existencialistas, o filme abraça essa característica sem pudor. Blanchett é atrevida e imprudente a princípio, mas sua evolução para a figura marmórea da monarca é de uma competência rara. A dor que na história era registro, na atuação de Blanchett torna-se carne e olhar.
O filme abdica da precisão documental para abraçar o suspense – e tudo funcionaria se feito com equilíbrio, inexistente aqui. As alterações realizadas na transição do fato histórico para a obra fílmica são executadas com uma liberdade que beira a imprecisão temerária. A subtrama envolvendo Maria de Guise (Fanny Ardant) e o subsequente assassinato pelas mãos de Walsingham é uma criação que, embora instigante, subverte a realidade em favor de um clímax emocional. Aqui, o roteiro parece acreditar que a beleza justifica o erro.
O que se observa na tela é uma fidelidade extrema não ao enredo real, mas à atmosfera fílmica. Elizabeth herda uma nação aflita, assolada por dívidas e nobres traidores como Thomas Howard, o Duque de Norfolk (Christopher Eccleston). A narrativa organiza-se em torno de um conceito de poesia visual, onde o que comove não é a surpresa do destino – já que o fim da Rainha Virgem é sabido – mas a inevitabilidade do isolamento afetivo. A relação com Lord Robert Dudley (Joseph Fiennes) é tratada com um ardor que diminui conforme a política exige a castidade como símbolo de poder. Fiennes entrega um Dudley que é o espelho da desilusão da rainha; o momento em que ela percebe que nenhum homem a ama apenas por ela mesma é o ponto de ruptura que fundamenta o mito.
A direção de atores merece um destaque particular dentro dessa engrenagem. As expressões dolorosas de Sir William Cecil, vivido por Richard Attenborough, capturam a transição de uma velha guarda que precisa ceder espaço à nova e sombria eficiência de Walsingham. A humildade comovente de Attenborough diante de sua aposentadoria forçada é um dos momentos em que o filme atinge a sofisticação humanista que se propõe. No entanto, o emaranhado de histórias entrecruzadas — as propostas de casamento enviadas por mensageiros, as intrigas do Duque de Anjou (Vincent Cassel) e as conspirações do Vaticano — por vezes parece raso. O filme subverte a lógica do desenvolvimento político ao retirar a densidade das negociações reais, substituindo-as por uma sucessão de montagens rítmicas e diálogos incisivos que nem sempre sustentam o argumento emocional.
Se Elizabeth se torna uma estrategista que escolhe bem seus conselheiros e ignora os apelos ao casamento, o filme também se torna uma obra que escolhe bem suas imagens e ignora, muitas vezes, a coerência da cronologia.
O olhar estrangeiro da direção sobre a história inglesa é o que confere ao filme sua textura vibrante, mas é também o que o afasta da coesão dramática. O sexo está tão ligado à política que o cotidiano da rainha é vigiado pela inspeção de seus lençóis – uma sociedade que ainda está inventando a elegância entre ratos na cozinha e potes de comida suja nos corredores. O filme acerta ao mostrar que a perfeição de Elizabeth não está na ausência de defeitos, mas na harmonia criada entre peças quebradas de seu reinado.
Ao final, quando Elizabeth anuncia “Tornei-me virgem”, a obra reafirma a potência do mito, consolidando a personagem como uma das raras chefes de Estado a governar com sucesso sem uma aliança masculina. Entretanto, a experiência de assistir ao longa deixa uma sensação de que a sofisticação contemplativa de Kapur por vezes abdica da clareza narrativa necessária. É um filme completo em sua estética, mas que caminha com certa dificuldade entre a realidade histórica e a fantasia romântica. A grandiosidade não basta quando a estrutura que a sustenta é feita de imprecisões deliberadas.
O produto final é de uma sofisticação plástica inegável, feito com um carinho palpável na decupagem cuidadosa. Mas a emoção que transborda no terço final, com a execução de conspiradores e a transformação física de Blanchett na imagem da Virgem Maria, advém de uma narrativa apelativa que comprime décadas em minutos sem muita suavidade. Elizabeth é, em última análise, um filme sobre o peso do poder e a solidão que ele impõe, mas que falha ao tentar ser, ao mesmo tempo, uma aula de história e um suspense mexicano. A imperfeição, neste caso, não é a forma mais pura de perfeição humana, mas apenas o resultado de um olhar que priorizou a textura sobre o conteúdo.
Elizabeth (Idem) – Reino Unido, 1998
Direção: Shekhar Kapur
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Christopher Eccleston, Joseph Fiennes, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassel, Kathy Burke, Eric Cantona, James Frain, Kelly Macdonald, Edward Hardwicke
Duração: 124 min.
