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Crítica | “Ella Sings Gershwin” — Ella Fitzgerald

O primeiro disco de estúdio de Ella Fitzgerald.

por Luiz Santiago
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As gravações de Ella Sings Gershwin duraram apenas dois dias, ocorrendo entre 11 e 12 de setembro de 1950. O disco saiu pela Decca Records, gravadora com a qual Ella Fitzgerald tinha contrato na época, e (vejam só) foi o primeiro projeto solo e em estúdio da cantora, o que é um absurdo se pensarmos que ela começou sua carreira nos anos 1930 — criticamente, conseguimos explicar isso se pensarmos como funcionava a indústria fonográfica nos Estados Unidos para pessoas negras e, pior ainda, para as mulheres. É sintomático que uma artista já consagrada nos palcos tivesse que esperar quase duas décadas para registrar um álbum que levasse apenas o seu nome. A Decca priorizava singles, duetos esporádicos e gravações com bandas, evitando investir em um LP autoral de uma mulher negra num mercado ainda concebido para brancos de classe média.

Aparentemente os anos de 1933 e parte de 1934 (entre os seus 16 e 17 anos de idade) marcaram o início humilde de Ella como artista, cantando nas ruas do Harlem. Em 21 de novembro de 1934, a jovem artista fez uma apresentação num dos primeiros eventos do Teatro Apollo, chamado Amateur Nights, de onde saiu com o prêmio da noite. Essa foi a abertura de uma porta importante para ela, que em janeiro de 1935 se apresentou com a banda de Tiny Bradshaw, no Harlem Opera House. Foi nesta ocasião que, ao ser apresentada ao baterista Chick Webb pelo cantor Charlie Linton, passou a moldar-se como cantora, mudando o seu estilo pessoal (ela era considerada muito desleixada com a aparência nessa época) e ganhando lugar cativo na banda, que após o falecimento de Webb, em 1939, passou a se chamar Ella and Her Famous Orchestra. Durante todo esse período e ao longo da década de 1940, Ella realizou centenas de gravações com a banda e também com outros músicos, mas nunca produzindo um álbum solo. Isso mudou em 1950, quando ela tinha 33 anos de idade e 16 de carreira. E não deixa de ser irônico que seu primeiro LP individual não fosse um disco de standards variados ou composições inéditas, mas sim um projeto devotado à dupla George Gershwin (música) e Ira Gershwin (letras), cujo repertório ela já vinha interpretando havia anos na noite nova-iorquina.

O álbum traz a voz de Ella interpretando canções que falam de amor, de situações do dia a dia envolvendo casais e também da busca pela felicidade. A fineza do jazz interpretado pela artista empresta uma delicadeza ainda maior para todo o projeto, e as faixas trazem formações diferentes nos componentes instrumentais, nos ritmos e na exigência vocal, que algumas vezes está em um registro mais confortável e contralto, e em outras vai para tons bem mais agudos, onde Ella consegue fazer uma bela projeção e ainda sustentar notas com impacto. Entre as canções presentes estão Someone to Watch Over Me, How Long Has This Been Going On?, But Not for Me e Looking for a Boy — faixas já consolidadas na tradição do Great American Songbook, mas que ganham, aqui, um colorido particular, ora com arranjos mínimos e intimistas, ora com linhas mais cheias, conduzidas pelo pianista Ellis Larkins. O diálogo entre voz e piano cria uma estética quase camerística, e o álbum, curiosamente, não aposta em exuberância, mas em contenção, brilho moderado e delicadeza auditiva.

Ella Sings Gershwin é um projeto tecnicamente confortável para Ella, tocando em temas que seriam revisitados pela cantora ao longo dos anos seguintes e trazendo algumas das canções inesquecíveis dos Gershwin em uma voz igualmente inesquecível para a música mundial. E o que chama a atenção é justamente o efeito retroativo que o álbum produz: ouvimos uma artista madura oferecendo interpretações típicas de um começo, mas embebidas de um domínio vocal e expressivo que poucos iniciantes teriam. Não é à toa que, seis anos depois, ela iniciaria na Verve Records a monumental série de songbooks, onde revisitava compositores como Cole Porter, Ellington e Rodgers & Hart com uma amplitude estética muito mais intensa. Em retrospecto, Ella Sings Gershwin é um laboratório de intimidade, um primeiro gesto de apropriação consciente de repertório e uma prova de que a canção americana ganhava outra vida em sua voz. Um baita início de discografia solo!

Aumenta!: Someone to Watch Over Me
Diminui!: —-
Canção favorita do álbum: Soon

Ella Sings Gershwin
Artista: Ella Fitzgerald
País: Estados Unidos
Lançamento: Setembro de 1950
Gravadora: Decca Records
Estilo: Jazz

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