Com o aguardado lançamento de Odisseia, tradução do poema homérico por Nolan, reflexões sobre mitologia grega e seus desdobramentos na atualidade são tópicos temáticos que tem ganhado bastante repercussão na atualidade. Um dos clássicos filosóficos que ajudam a compreender o eixo em questão é O Elogio de Helena, do sofista Górgias, uma das produções atribuídas ao autor que, conforme os especialistas, não é uma defesa sincera da figura mitológica, mas uma demonstração audaciosa e cínica do poder da palavra. Ao argumentar que Helena não é culpada pela Guerra de Troia, o sofista não está interessado na verdade histórica ou na moralidade do ato, mas sim em provar que a retórica, o logos, pode moldar a realidade e a percepção pública. Górgias subverte a lógica tradicional, defendendo o indefensável para exibir sua maestria técnica. Ele sugere que, se Helena foi levada por um deus, por um homem mais forte, pela paixão, ou pela própria persuasão do discurso, sua vontade individual seria irrelevante, diluindo sua responsabilidade moral. Este artifício retórico revela o relativismo sofista, que coloca a persuasão acima da busca pela verdade, num debate ainda bastante pertinente na atualidade.
O texto representa uma crítica contundente aos fundamentos da filosofia clássica, que associava a palavra à busca pela verdade. Para Górgias, a linguagem não é um reflexo fiel da realidade, mas uma ferramenta poderosa capaz de manipular as emoções, a memória e a opinião das pessoas. Ele compara o efeito do logos na alma ao efeito de drogas no corpo, sugerindo que o discurso pode alterar o estado mental de um indivíduo e forçá-lo a agir contra sua vontade. Esta visão utilitarista e relativista da linguagem é o cerne da filosofia sofista e o que a diferencia radicalmente da filosofia platônica, que mais tarde a criticaria por seu caráter amoral.
A ousadia de Górgias ao usar uma figura de tão má reputação como Helena, o arquétipo da mulher adúltera e causa da ruína de Troia, serve para maximizar o impacto de sua demonstração. O Elogio é, portanto, um elogio à própria retórica, não a Helena. O sofista se diverte ao inverter a moralidade convencional, mostrando que qualquer coisa pode ser defendida com eloquência suficiente. O discurso torna-se um jogo intelectual, um espetáculo em que a técnica e o estilo superam o conteúdo. A finalidade do texto não é a justiça, mas a exibição da força performática da palavra. Não posso dizer que é uma leitura “fácil”, mas há traduções acessíveis.
A postura de Górgias levanta questões profundas sobre a relação entre linguagem e realidade, que ressoam até hoje. Ele desafia a noção de que a verdade pode ser comunicada de forma objetiva, sugerindo que tudo que se transmite é uma versão manipulável da realidade. Ao se recusar a distinguir entre persuasão benéfica e maliciosa, Górgias expõe a fragilidade da crença na objetividade do discurso, preparando o terreno para as críticas de Platão, que via a sofística como uma ameaça à moralidade e à busca filosófica pela verdade absoluta. O texto de Górgias não é apenas um exercício de retórica, mas uma provocação filosófica sobre os limites do conhecimento e o poder da linguagem. Em linhas gerais, as suas ideias nos permite compreender o contexto homérico e, consequentemente, traçar ilações com a mulher na contemporaneidade.
A radicalidade de Górgias e seu enfoque na persuasão sem se preocupar com a verdade foram os principais alvos das críticas de Platão. O filósofo viu na sofística uma ameaça à ordem moral e filosófica, buscando estabelecer um conhecimento verdadeiro e imutável. Assim, O Elogio de Helena é uma performance, um show de habilidades retóricas. A audiência não deve acreditar na inocência de Helena, mas admirar a capacidade do orador. Isso aponta para a função social da retórica na Grécia Antiga, que ia além do debate jurídico para o entretenimento público. Ao atribuir a partida de Helena à força, aos deuses ou ao logos, Górgias questiona a liberdade de escolha individual. Ele sugere que as ações humanas são frequentemente resultado de forças externas e irresistíveis, mitigando a responsabilidade moral do indivíduo.
Górgias propõe quatro possíveis causas para o comportamento de Helena: Vontade divina ou destino (Anánkē), isto é, se foi obra dos deuses, não há culpa humana; Violência (bia), se foi raptada à força, é vítima, não culpada; Persuasão pelo discurso (logos), se foi convencida por palavras, foi dominada por um poder irresistível; Eros (amor), ou seja, se foi movida pela paixão, agiu sob um impulso natural e inevitável. Em todas essas hipóteses, Helena é inocente, pois em nenhuma há plena autonomia de ação. O ponto central do texto é o elogio do logos. Para Górgias, o discurso é um “grande soberano” capaz de operar ações divinas com um “corpo pequeno e invisível”. Ele pode inspirar medo, afastar a dor, gerar prazer e provocar paixão. Assim como os remédios agem sobre o corpo, as palavras agem sobre a alma, podem curar ou envenenar. Essa concepção antecipa uma visão estética e psicológica da linguagem, na qual o discurso é uma forma de poder trágico: irresistível, fascinante e perigoso.
Ademais, uma interpretação feminista do texto pode enxergar na argumentação de Górgias não uma desvalorização, mas uma oportunidade para desconstruir narrativas patriarcais. Ao transferir a responsabilidade de Helena para as forças divinas ou a persuasão masculina, Górgias expõe a fragilidade da lógica que tradicionalmente responsabiliza a mulher por transgressões que são, na verdade, produto de um sistema opressor. O Elogio pode ser visto como uma revelação de que a história e a moralidade são construções retóricas que podem ser desfeitas e reinterpretadas. Isso abre um caminho para a crítica feminista, que busca resgatar a autonomia da mulher e desafiar as narrativas históricas que a subjugam.
Elogio de Helena (Grécia, 430 a.C)
Autor: Górgias de Leontinos
Editora: Editora Odysseus
Tradução: Maicon Reus Engler
Páginas: 22
