Crítica | Elon Não Acredita na Morte

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Uma laranja bem azeda na boca de quem acredita que o Brasil não produz obras boas há tempos, Elon Não Acredita na Morte surge com uma proposta interessante, que se sustenta não só nas questões levantadas, mas também na ousada construção de imagens do diretor Ricardo Alves Jr.. Prejudicado arduamente pela falta de orçamento, infelizmente o projeto não pôde mostrar toda sua força, ficando limitado a pontos específicos que, a longo prazo, acabam por cansar. Na história, Elon (Rômulo Braga) parte em uma busca incansável atrás de sua esposa desaparecida misteriosamente.

Um protagonista paranoico, uma fotografia pra lá de escura, alguns personagens comuns na cinematografia brasileira e um roteiro com uma mensagem interessante é mais do que suficiente para a construção de um projeto chamativo. O título em questão aposta em uma narrativa de certo modo previsível, mas que cativa por gerar aquela dúvida de “o protagonista está certo ou errado?”. Por exemplo, basta assistir a trinta minutos da trama para entendermos a metáfora por trás da narrativa, sobretudo pelo excesso de diálogos com o mesmo teor moralista (um defeito a ser destacado, visto que, em certos pontos, a conversa entre os personagens parece forçada). No entanto, apesar da sobrecarga moralista que torna o roteiro previsível, somos envolvidos na história que, com sucesso, levanta duas questões: A paranoia de Elon é justificável? Além disso: as ações do personagem o tornam hipócrita? E, para chegarmos numa conclusão — que, realço positivamente, é um desfecho singular, ou seja, que varia de cada espectador –, é preciso assistir a todas as cenas com atenção. Dessa forma, mesmo que o final seja de fato óbvio, não largamos o filme pela metade porque a película não se fecha nela mesma: nós que damos o julgamento final.

E talvez pensando nesse caráter singular, o diretor constrói uma abordagem que sempre acompanha o ator pelas costas, dos ombros para cima. Esse fator é interessante por reforçar o interesse do projeto em ser uma história que poderia vir da realidade, ou seja, não pretende relembrar o espectador que são cenas construídas ou roteirizadas para gerar um desfecho planejado. Aqui, isso é um elogio até pela proposta individual que o final quis levantar, porém abre um paradoxo quando lembramos do excesso de moralismo. Se a história não queria parecer artificial, qual o sentido de introduzir tantas cargas metafóricas nos diálogos? Ninguém na vida real tende a utilizar termos que são usados na obra. 

Outro fator que incomoda é o abuso de cenas lentas sem qualquer sentido ou motivação. Porém, esse aspecto é completamente perdoável quando considerado o baixíssimo orçamento, somado à necessidade do projeto em se tornar um longa-metragem. Basta analisarmos a duração do material final (75 minutos) para percebermos o esforço dos produtores em passar do “tempo mínimo requerido para ser um longa”. Infelizmente, esse ponto cansa bastante o espectador. Claro que, com mais verbas, esses “espaços em branco” poderiam ser melhores aproveitados, aumentando ainda mais a tensão principal e, assim, elevando a complexidade do espectador em chegar em uma resposta convincente sobre as questões levantadas pela obra.

Enfim, Elon Não Acredita na Morte é um ótimo filme brasileiro. Mesmo que conte com um final previsível, diálogos forçados e cenas eventualmente cansativas, o projeto cativa pelo assunto principal, montagem construtiva e, sobretudo, uma ousadia pra lá de notória tanto do roteiro quanto do diretor. Claro que seria muito mais impactante se a verba não fosse um fator tão limitador. Em suma, dentro dos limites, a obra faz bem o que é necessário.

Elon Não Acredita na Morte – Brasil, 2016
Diretor: Ricardo Alves Jr.
Roteiro: Ricardo Alves Jr.
Elenco: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Grace Passô, Lourenço Mutarelli, Helvecio Alves Izabel, Francisco Loyola, Claudio Marcio, Olavino Marçal, Germano Melo, Eduardo Moreira, Maria José Novais Oliveira, Vinicius Rezende, Carlos Magno Ribeiro, Shima
Duração: 75 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.