Crítica | Elric de Melniboné: A Traição ao Imperador, de Michael Moorcock

plano critico Elric de Melniboné A Traição Ao Imperador plano critico

LEVES  SPOILERS

Escrito no final dos anos 1960, fortemente marcado pelo movimento da contra-cultura literária londrina e com um formulação narrativa auto-proclamada anti-Tolkien (o que faz total sentido dentro de uma fantasia surgida nesse período histórico), Elric de Melniboné: A Traição ao Imperador (Elric of Melniboné, no original) foi oficialmente lançado em 1972. Embora seja o primeiro volume da série Elric, não é a primeira aparição do personagem na literatura de Michael Moorcock.

Elric surgiu na Science Fantasy #47, datada de Junho de 1961, com a novela The Dreaming City, que seria incorporada ao Livro Dois da saga. Ali, o personagem já estava estabelecido no trono, o que não é o caso deste A Traição ao Imperador, que mostra a tentativa de Elric em ganhar o respeito de sua Corte, em se livrar das ameaças de seu primo usurpador Yyrkoon e em consumar o seu amor pela irmã de Yyrkoon, a bela princesa Cymoril. E tudo isso ocorre no Reino de Melniboné, uma nação de uma espécie não-humana (mas mortal), adestradora de dragões e com acesso mais ou menos limitado a diversos tipos de magia e contato com os Deuses do Caos. Em suma, é um apanhado geral de místicas do Quatro Elementos com espada e feitiçaria, mais a jornada do herói, coisas bastante comuns no gênero e nas quais o autor imprime um interessante estilo de “pequenos espetáculos”.

Moorcock nos apresenta os personagens e o cenário de maneira rápida e mais ou menos insuficiente, no primeiro capítulo. O leitor demora um pouco para se localizar e entender algumas premissas para este povo, especialmente porque existe a colocação dos Reinos Jovens, que são reinos humanos vivendo a quilômetros de distância da Ilha do Dragão e da Cidade dos Sonhos, ou Imrryr, a capital melniboneana. Como o autor já tinha escrito muitas histórias do personagem antes de contar, aqui, o que aconteceu com ele nos primeiros anos de seu reinado, boa parte das informações parecem depender de alguns conhecimentos prévios que o leitor, a rigor, não tem. Mas vejam, não estamos falando de nada cifrado ou impossível de ser compreendido a médio prazo. O incômodo do contexto inicial passa rápido e o leitor consegue aproveitar o restante da jornada sem maiores problemas.

Então descobrimos que Elric é um homem fraco. Albino, órfão e com valores morais que diferem bastante daquilo que Melniboné sempre defendeu, este imperador se mantém de pé apenas pelo uso de diversas poções mágicas, capazes de lhe restaurar a vitalidade por um certo período de tempo, fazendo com que ele sempre tenha que voltar a elas caso queira continuar exercendo suas funções. Esta é a parte do livro em que percebemos o motivo da vilania do primo usurpador e até concordarmos com algumas situações de contestação a Elric. Ele não é um imperador realmente “bom”, mas certamente é, sob valores humanos, “melhor” que os outros melniboneanos, julgando-se o fato de ele evitar a guerra e o derramamento de sangue em vão. Embora concorde com a tortura dos invasores de sua terra e planeje punições bastante macabras para seus traidores, Elric passa a maior parte do tempo agindo como se pudesse encontrar lealdade em pessoas que o leitor sabe, desde os primeiros parágrafos, que ele nunca encontrará. E isso torna o personagem absolutamente irritante em muitos pontos do livro. Parece que o autor se recusa a fazer o personagem amadurecer pelo menos um pouco ao longo da jornada.

Comparem, por exemplo, a posição de Elric antes da fuga de Yyrkoon para as terras de Oin e Yu e o comportamento dele após a luta na caverna das “paredes de carne” (me lembrou imensamente a nave orgânica de The Claws of Axos ou uma nave muito similar, mostrada em Terror of the Zygons — enredos escritos, respectivamente, antes e depois de A Traição ao Imperador) e a posse da espada Stormbringer, depois do confronto com a Mournblade. É como se os momentos de ira do personagem, ou seja, a manifestação de sua verdadeira essência melniboneana, se diluíssem a cada arroubo moral, acompanhado de uma justificativa consideravelmente absurda, como a que vemos no final do volume.

Este primeiro livro da saga de Elric de Melniboné mostra um mundo em decadência e sua tentativa de retomar os anos de glória, onde os Reinos Jovens os temiam, onde os dragões procriavam e onde os Deuses do Caos pareciam fortes e amigáveis, realizando acordos e disseminando conhecimentos de magia a quem os procurasse. Tudo, claro, por um bom preço — e que nada tinha a ver com dinheiro. Há momentos do desenvolvimento da obra que são absolutamente instigantes e dos quais não conseguimos desgrudar da leitura. Mas o bloco final, a despeito do significado imenso de tudo o que está acontecendo, não carrega o mesmo vigor, assim como o encerramento do livro, que embora não seja nada decepcionante, poderia muito bem contar com mais detalhes sobre como as coisas ficaram estabelecidas antes da partida de Elric para sua próxima grande aventura. Ainda assim, A Traição ao Imperador funciona como uma apresentação instigante e muito divertida para este Universo de fantasia, mágica, flashes de Idade Média e concepção geral da queda de um grande Império ou fim de uma longa Era. Mais um ponto para a literatura britânica.

Elric de Melniboné: A Traição ao Imperador (Elric of Melniboné) — Reino Unido, 1972
Autor: Michael Moorcock
No Brasil: Editora Generale, 2014
Tradução: Dario Chaves
Capa: Ricardo Troula
182 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.