Home FilmesCríticas Crítica | Em Chamas (2018)

Crítica | Em Chamas (2018)

por Luiz Santiago
1136 views (a partir de agosto de 2020)

Lee Chang-dong é um diretor de filmes longos. Sol Secreto (2007) e Poesia (2010), suas duas produções imediatamente anteriores a Em Chamas (2018) também ficaram por volta das 2h25 de duração e todas mantinham um ritmo bastante peculiar. Nesta fita de 2018, porém, a questão da duração e o encadeamento do drama se estruturam de uma forma em que a lentidão deixa de ser um jogo positivo; um convite a entender, acompanhar e construir personagens, e passa a ser o resultado final de um corte que poderia facilmente ficar com meia hora a menos.

Falar sobre Em Chamas é difícil. Baseado no conto Barn Burning, de Haruki Murakami e também numa obra de mesmo nome, de William Faulkner, a película é um longo estudo de personagem, marcado por um encontro casual de vizinhos de infância, pela solidão de dois jovens que lutam por seus sonhos e por uma divisão misteriosa de caminhos. O roteiro, de Chang-dong e Oh Jung-Mi é rápido em nos conectar com Lee Jong-su (personagem maravilhosamente interpretado por Yoo Ah-In), mas essa é a única rapidez que teremos no filme. A partir do momento em que o vemos se encontrar com Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), o filme nos dá pedaços do cotidiano da dupla, mostrando a relutância e a angústia de cada um, fazendo-nos entender uma delicada relação que em pouco tempo conheceria um estranho impasse.

Os primeiros 36 minutos do filme são de indícios comportamentais. Neles, a câmera destaca os olhares de ansiedade, de confusão diante do novo, de adaptação. Os diálogos dão conta de questões externas, enquanto que a câmera e a muito precisa trilha sonora (bem escolhida e aplicada) nos indicam o interior dos personagens. Um gato precisando ser alimentado é a última fronteira da normalidade. Até que uma viagem e um encontro fora de tela nos traz aquilo que faz com que o filme passe para o seu segundo ato, onde é introduzido Ben, o personagem de Steven Yeun (sim, sim, o Glenn, de The Walking Dead), que não começa com uma boa interpretação mas, aos poucos, vai refinando sua presença em tela e termina absolutamente fascinante.

SPOILERS!

A partir da chegada de Ben e Hae-mi de uma viagem à África, as coisas começam a mudar e o filme perde um pouco de sua força inicial, porque o núcleo é paulatinamente substituído por um outro tipo de história — e não é a única vez que veremos esse tipo de readequação narrativa no enredo. Daí em diante, a construção dos personagens contará com um tipo de quebra de expectativas para o amor, com Lee sendo escanteado por Hae-mi, que cai nas graças do ricaço Ben.

Por mais que este segundo ato não tenha uma boa chegada, ele acaba se tornando o mais interessante da fita. É aí que o jogo de símbolos do filme ganha toda a sua força e temos dois dos melhores momentos da fotografia de Em Chamas, o primeiro, com a dança nua de Hae-mi ao entardecer; e o segundo, com a conversa entre Ben e Lee, na mesma tarde, enquanto o Sol se põe, uma cena que demorou cerca de um mês para ser finalizada, porque o diretor e o fotógrafo só podiam filmar alguns minutos por dia, para pegar a luz correta e acertar a passagem do tempo com a montagem. Um trabalho hercúleo que resultou em um triunfo visual. É neste ato do filme que Ben pede para que Hae-mi pergunte a Lee o que é uma metáfora. E esta é a principal pista que a gente vai ter a respeito de Ben ser um assassino em série de mulheres. Um assassino nada comum.

Dos 36 minutos até 1h21, o ato do triângulo quase amoroso é construído. Como já apontei, não penso que seja um bloco que começa bem, mas certamente termina com chave de ouro, após a história do jovem rico sobre “queimar estufas” e o sonho de Lee, criança, vendo uma estufa queimar. Notem que a partir daí, Hae-mi não aparecerá mais na história. E Lee, que não entendeu a metáfora, fica procurando uma “estufa queimada nas redondezas”. Daí para frente, temos o ato da busca e da muda descoberta, que segue até o final do filme. Nele, mantém-se o excelente uso da trilha sonora, uma atuação cada vez mais aplaudível de Steven Yeun — que nessa reta final se sobressai a Yoo Ah-In — e uma angustiante sensação de que há algo para ser dito, mas nunca é. Particularmente gosto dessa escolha dos roteiristas, que em nenhum momento subestimam a inteligência do espectador. No entanto, a lentidão do filme, já a este ponto, é desnecessária, e muitas cenas de contexto e identificação acabam parecendo um loop de sofrimento que já havia ficado claro meia hora antes. E então o filme passa a flertar com a redundância.

Pelo seu significado e final poderoso, Em Chamas (2018) é um filme que merece atenção. O problema é que essa atenção não é nada fácil de conquistar. A longa duração e especialmente o último ato da fita não facilitam muito o acesso ao público, que ainda deve ter considerável dificuldade em ligar algumas pontas, o que não necessariamente é “culpa do filme”, mas é um dado que não podemos ignorar: a obra é bastante aberta a interpretações e sugestões. Dependendo do espectador, uma viagem de 148 minutos para se ter o trabalho de arrumar, sozinho, as imagens poéticas, pode não valer tanto a pena assim.

Em Chamas (Beoning) — Coreia do Sul, 2018
Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong, Oh Jung-Mi (baseado em de Barn Burning Haruki Murakami)
Elenco: Ah-In Yoo, Steven Yeun, Jong-seo Jeon, Soo-Kyung Kim, Seung-ho Choi, Seong-kun Mun, Bok-gi Min, Soo-Jeong Lee, Hye-ra Ban, Mi-Kyung Cha, Bong-ryeon Lee
Duração: 148 min.

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31 comentários

Marcos Nan 29 de julho de 2020 - 17:25

Acabei de assistir esse filme fantastico e muito pouco divulgado. E assim, não sei o que dizer, nao tenho certeza de nada, todas as teorias abaixo e da resenha em si são plausiveis pra mim, e sinceramente esse e o plus desse filme. 5 estrelas facilmente.

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Ingmar 29 de junho de 2020 - 15:55

Não sei se tem algum significado, mas na trilha há uma faixa de Miles Davis, da trilha sonora do noir Ascensor para o Cadafalso de Louis Malle.

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Edson A. de Araújo 26 de dezembro de 2019 - 20:18

Não me canso de ficar impressionado com a forma como diretores asiáticos usam o silêncio e uma passada mais lenta do desdobramento da narrativa de vários filmes. Talvez eu esteja enganado, mas no cinema ocidental isso não existe. É sempre corrido e explosivo. Muito raro haver momentos contemplativos em filmes ocidentais. Eu daria mais estrelas pra esse filme, mas suas palavras na críticas são bem precisas. Parabéns.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 26 de dezembro de 2019 - 20:18

Pois é, existe uma tradição contemplativa bem forte em muitos países asiáticos, o que se reflete no estilo de diversos diretores, gerando obras fantásticas como essas.

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Somar 3 de abril de 2020 - 10:46

Olá, existe um vídeo no YouTube chamado “a importância do vazio” é um dos meus vídeos preferidos de todos os tempos, nele o dono do canal cita o Studio Ghibli, e explora essa questão de momentos contemplativa e silenciosos que acontecem bastante no cinema asiático, vale muito a pena assistir, o vídeo a qual me refiro pertence ao canal “Quadro em branco”.

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nuwgott 9 de setembro de 2019 - 10:37

“E Lee, que não entendeu a metáfora, fica procurando uma “estufa queimada nas redondezas”

Eu acredito que Lee compreendeu desde o princípio, tanto que interrompe Ben para dizer: “eu a amo”.

Por outro lado, ele foi cúmplice. Pois, mesmo compreendendo, nada fez para impedir. Foi submisso (por isso Ben ri enquanto percebe que Lee compreendeu tudo).

O filme é fabuloso e não achei longo.

Obrigado pela crítica.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 9 de setembro de 2019 - 14:29

Tivemos compreensões diferentes da obra. Esse filme realmente dá abertura para isso, inclusive na recepção, que para mim, fez sentir BEM essas quase 2h30 aí. Para mim não foi fabuloso, mas um filme muito bom, com alguns excelentes momentos, especialmente na estética e na dramaturgia.

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cara legalzinho 31 de dezembro de 2019 - 02:09

pra mim está claro q ele não tinha entendido NAQUELE MOMENTO q o cara estava falando de assassinatos e não de queimar estufas

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Léo Nunes 18 de fevereiro de 2020 - 23:15

Também acredito que ele não entendeu o que o Ben falou, e falou que a ama porque o Ben tinha acabado de se abrir com ele sobre um “segredo” seu, então ele acabou indo na onda e se abrindo também. Sem contar que o fato do Ben ser um serial killer nunca é revelado se ele é mesmo ou não, isso fica bastante em aberto, mesmo o filme passando em um plano que talvez ele seja, num plano mais atrás tem várias “pistas” de que ele talvez não seja. E tudo é uma forçação do próprio Jong-Su para tentar ligar as “peças” que ele vai encontrando. Exemplo; No inicio do filme tem aquele monologo da Hae-mi falando sobre Patomima e dizendo que ao desejar o “objeto” ele poderia se tornar real em sua mente. Talvez o Ben não tenha matado ninguém, e tudo não passou de um “desejo” da mente do Jong-su, por isso todas as pistas encontradas podem ser descartadas por motivos plausíveis e apresentados pelo filme em alguns momentos. E no fim não a uma real revelação de tudo, apenas uma catarse do personagem liberando sua raiva no vilão que ele escolheu.

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nuwgott 19 de fevereiro de 2020 - 00:16

Vou assistir o filme novamente por tua causa.

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Léo Nunes 17 de outubro de 2020 - 15:36

Eae, assistiu? Se ver aqui depois me diz se chegou a tal conclusão!

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Alexandre R 3 de maio de 2020 - 14:45

Achei sua colocação perfeita. Devemos lembrar que todo o filme é sob a perspectiva do Lee Jong-su. Existem vários sinais que Ben pode não ser um assassino: a falha na procura da estufa; o gato nunca vista da Hae-Mi; o poço que não sabemos se existia; Hae-mi declara suas tendências suicidas; na cena final, Ben chega perguntando da Hae-Mi, etc…Na verdade, achei o filme muito bom, lembrou-me Dom Casmurro no sentido que tudo que vemos é a visão do protagonista.
Gostei da critica, mas não considerei o filme cansativo e olha que assisti de madrugada rsrs.

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Léo Nunes 17 de outubro de 2020 - 15:36

Voltei só agr, meu Deus, esse filme é muito foda. Lembro também de uma pista no final do filme já que ele encontra um relógio que supostamente seria da Hae-Mi na gaveta do Ben. Esse mesmo relógio no começo do filme é dado como brinde em uma loja para os clientes que compram lá, ou sorteado, algo assim. Isso reafirma o fato de que ele tá ali como uma “prova” de que o cara é o assassino aparentemente, porém essa cena inicial também diz que ele pode simplesmente ter ganhado em qualquer loja que ele passou e comprou alguma coisa, algo que é aparentemente comum na região.

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Vitrolazul Azul 25 de março de 2019 - 01:36

Em algumas cenas, como as q lee segue ben por toda a parte sem ser visto, principalmente aquela que acaba numa estrada de terra entao ele sobe uma colina e vê ben olhando um lago – nesta cena houve um corte super abrupto – me parecem bem surreais.
No final terceiro ato ele está no “ap da garota” e lá pelas tantas aparece digitando num laptop.
Nao seria o filme inteiro um romance q ele está escrevendo, cujo final apoteótico do livro – filme – tenha sido escrito nesta cena?

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Luiz Santi⚡GADO 25 de março de 2019 - 07:03

Não consigo ver dessa forma, mas é uma interpretação interessante também. Esse filme parece que está gerando muitos pensamentos diferentes!

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Anônimo 16 de julho de 2019 - 19:34
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Armando Ribeiro 24 de agosto de 2019 - 18:35

MUITO obrigado pelo spoiler…..

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Anônimo 25 de agosto de 2019 - 14:54
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Ricardo Kanashiro 8 de março de 2019 - 19:16

****** SPOILER ALERT ****************
Será que só eu não achou que o Ben é um assassino? Ele é gay, e mostrou interesse em Jong-su desde o início (no primeiro encontro no café, Ben diz que Hae-mi “queria muito te ver” e ela responde que “ele é quem insistiu na sua presença”)… a grande “declaração” fica quase no final onde ele toca no peito de Jong-su e ele fica desconfortável. E o final fica evidente que Ben é gay (pelo modo sutil como age sem ter ninguém olhando ao colocar as lentes e pelo fato de estar maquiando a nova amiga) e culmina no último encontro, onde ele pergunta a Jong-su onde estaria Hae-mi e nisso, acontece o que aconteceu. O filme deixa em aberto o paradeiro de Hae-mi, mas com certeza não foi Ben… o fato dos itens femininos na casa dele, são provavelmente itens esquecidos na casa dele, já que sempre tem alguma reunião com diversas pessoas (em sua maioria, mulheres).
Excelente filme, onde a “lentidão” apenas dá espaço para desenvolver os personagens e cada detalhe pode ser parte de um quebra cabeça maior…

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Luiz Santiago 8 de março de 2019 - 19:17

É uma interessante interpretação. Aqui, muitas são possíveis. O filme abre essa possibilidade.

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Pablo Martins 1 de julho de 2019 - 09:18

Entendi seu ponto mas a tensão que envolve a atriz que contracena com ele nesse momento da maquiagem pra mim não é bem um lance de amizade, mas sim ele preparando sua próxima vitima, e ela demonstra bem isso no medo ao ser tocada -(é o q eu acho)

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Léo Nunes 18 de fevereiro de 2020 - 23:21

Eu concordo que ele provavelmente não seja um serial killer, mas não cheguei a conclusão que ele fosse gay, talvez não tenha prestado atenção aos fatos que falou. Sobre os itens na casa dele, acho que a explicação é outra e esta explicada no filme. Na cena inicial do filme o Jong-Su recebe o relógio da Hae-mi como um brinde entregue pela loja, num sorteio entre pessoa que compraram ali. Já quase no fim, a nova “amiga” do Ben, fala sobre como no trabalhos eles dão brindes as pessoas que compram coisas caras nas lojas e tal. Em determinado momento do filme o Jong-Su aparece conversando sobre a Hae-mi com outra mulher usando o mesmo relógio. Então 1. aquele era um item comum entre as pessoas porque as lojas davam de brinde para qualquer um e 2. o próprio Ben poderia ter recebido de brinde ao comprar em qualquer lojinha por ai.

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Hans Müller Cetto 1 de outubro de 2020 - 16:53

Ricardo! Acabei de ver o filme e tive a mesma sensação. Aliás, a construção pelo ponto de vista do protagonista te leva a crer que Bem é assassino; entretanto, na cena final, as facadas são desconfortáveis demais e aquele sentimento de vingança nunca chega, eu fiquei com dó do Ben… Comecei a pensar e enxerguei esses mesmos pontos que você citou. Filmaco!

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Guilherme de Almeida 4 de janeiro de 2019 - 21:24

Para mim esse é de longe, disparado, sem comparação, a anos-luz de distância o melhor filme do ano. Hors Concours.

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Luiz Santiago 5 de janeiro de 2019 - 00:41

Eita, mas isso é que é amor!!!

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Hernane Souza 22 de fevereiro de 2019 - 02:09

O melhor do ano por que? Qual a sua analise do filme?

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Armando Ribeiro 24 de agosto de 2019 - 18:35

Não sei se chegaria a tanto, mas que é um filmaço, puxa vida isso é!!!

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Luiz Santiago 12 de dezembro de 2018 - 14:48

São cenas que deixam a gente estasiados. Aquela dança ao por do sol… mano do céu.

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Teco Sodre 12 de dezembro de 2018 - 10:17

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaassisti ontem e confesso que mesmo com os pequenos defeitos/exageros, achei um PUTAFILMAÇO! E eu faço minhas todas as suas palavras nessa resenha: 30 minutos a menos seria uma estrela a mais, Steven Yeun competindo em atuação com Yoo Ah-In e as cenas externas (a cena da dança, a fotografia, trilha sonora e mixagem de som, wow!) – até o cigarro “burning” dava pra se ouvir! <3

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Ana 23 de novembro de 2018 - 12:52

Luiz Santiago, acho a sua avaliação mto boa, apenas não me incomodou a “lentidão” do ritmo da narrativa. Pessoalmente,fez minha angustia e solidão ir crescendo, crescendo até explodir. É um filme de perguntas e nenhuma resposta. É um filme sobre a solidão, o vazio que nunca é preenchido dentro dentro de nós. Dessa vez, os três personagens são jovens, de classe mais humilde e de classe alta. Todos muito sensíveis e como que “rejeitados” e incompreendidos, “abandonados”, entediados A arte da escrita pode ser que salve Jong-su. Aliás, também percebo no filme o desenrolar de um processo criativo. A busca de um sentido, sobre o que escrever? As várias possibilidades… Para mim, um filme muito rico, com várias questões. Se continuo a falar sobre elas, não vou parar tão cedo… Gosto da literatura de Murakami e talvez por isso tenha afinidade com a sua linguagem.
um abraço.

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Luiz Santiago 23 de novembro de 2018 - 15:08

Muito obrigado, @disqus_jiRHUHM8N3:disqus! Gostei da sua leitura mais particular da obra. E sim, você tem razão sobre essa questão do processo criativo. É uma das entrelinhas da obra que de fato dá muito pano pra manga.

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