Crítica | Em Ritmo de Fuga

estrelas 4,5

“Thank you very much, ladies and gentlemen
 Right now, I got to tell ya about
 The fabulous, most groovy
 Bellbottoms”

A maior parte dos projetos cinematográficos de Edgar Wright, como Scott Pilgrim Contra o Mundo e Todo Mundo Quase Morto, sustentaram perfeitamente a assinatura artística do cineasta. Um dos mais talentosos de sua geração, Wright desenvolve em seu mais novo longa-metragem o ápice estilístico de uma carreira – que promete ser composta, futuramente, por mais picos de qualidade inquestionável. Acerca dessa sua nova composição fílmica, curiosamente, o diretor dirigira, anos atrás, para o grupo Mint Royale, o videoclipe de “Blue Song”, mostrando, no vídeo, um motorista de fuga, amante de música. A mesma premissa retorna para embalar Em Ritmo de Fuga, longa-metragem que, apesar de ter um título abrasileirado ridiculamente genérico, é único ao buscar situações inimagináveis com muito vigor, embasando-se sobre camadas de puro ritmo. O motorista agora ganha um codinome, além de um background vistoso. Na trama, visto que possui uma dívida com Doc (Kevin Spacey), um misterioso mestre do crime, Baby (Ansel Elgort) é o único membro da equipe de assaltantes a bancos comandada por este criminoso a participar de todas as operações criadas. O exímio motorista começa a atrair a atenção de seus outros parceiros de equipe devido o seu jeito calado e presumivelmente prepotente. No entanto, memórias de um passado trágico acobertam uma personalidade mais sensível, passível de compaixão pelo público, apesar da vida moralmente dúbia.

O enredo simples é construído em meio a sequências frenéticas e extremamente dinâmicas. O filme soa como uma dança excepcionalmente bem ritmada, e seu primeiro ato deixa a intenção de Wright muito clara. Fora a belíssima condução da sequência de abertura, destacando-se a montagem perfeitamente sincronizada, memorável, portanto, desde a sua concepção, como um marco, é interessantíssimo notar como o cineasta consegue deixar um simples caminhar a uma cafeteria local, logo no início da fita, tornar-se divertidamente empolgante. A grande diferença da ideia inserida nesse projeto das de outras obras estrelando automóveis é que o cineasta, dessa vez, nunca cria cenas de ação, mas números musicais, coreografias movidas pela estética e não pelo pulso da vitalidade humana. Os passos de Ansel Elgort, detentor de uma fisicalidade envolvente, compõem uma coreografia mágica, tão sensacionalmente conduzida quanto as de musicais factuais. No mais, a habilidade ao volante de Baby também é muito bem saboreada pelo argumento, trazendo, em consequência, mais paralelos relacionando o mundo construído às quatro rodas, exaltando um passado pungente que comove constantemente o personagem. As gravações em fitas, um dos diversos aspectos vintage do filme, também possuem suas próprias camadas de desenvolvimento, sendo artefatos narrativos bem apresentados e dissertados pelo roteiro.

Entretanto, é digno notar que, além dos planos curtos, presentes na primeira sequência de ação e em outras, Wright tem como um aliado magistral a excelente trilha sonora musical do filme, salientando ainda mais o acelerado ritmo da obra – o caráter frenético demora para diminuir. Até chegarmos a isso, a personalidade calada de Baby, muito bem incorporada por Elgort, argumenta a favor das escolhas musicais, fazendo com que as melodias diegéticas ganhem mais significado do que a contribuição delas como mero ornamento estético “irado”. A música assume, dessa forma, um papel narrativo importantíssimo, quase como o que vimos recentemente no blockbuster Guardiões da Galáxia Vol. 2. A adesão de um pano de fundo, justificando o constante uso de fones de ouvidos, é questionável, por tirar um pouco da graça de se ver um personagem que seja cool apenas por ser cool, mas realmente não dá para discordar da qualidade na intenção de Wright em humanizar Baby, nunca deixando-o de lado em seu texto. O cineasta ainda guarda bons momentos relacionados ao jovem e seu pai adotivo surdo Joe (CJ Jones). As interações entre os dois exteriorizam graciosismo, tanto por parte de Baby, quanto por parte de Joe, visto que o idoso definitivamente preocupa-se com os caminhos que seu filho está tomando.

Com tanta excentricidade e diversão, seria fácil que o diretor acabasse levando a obra para um retrato glamourizado da vida criminal. O que acontece é exatamente o contrário. Em meio a algumas possíveis alusões à franquia de jogos Grand Theft Auto, o cineasta não só denuncia – de forma muito legal – a perversidade envolvida nesse meio, como também busca mostrar outros lados, estes mais complexos e menos maniqueístas. As caricaturas dos famigerados “caras maus” tomam forma nas figuras de personagens como Bats (Jamie Foxx), uma contribuição para o deslocamento do protagonista de sua mentalidade “alienada”, fazendo-o tomar ciência das consequências de suas atitudes. A graça de Em Ritmo de Fuga é que nenhum coadjuvante é levado ao estado de implausibilidade existencial. Bats, por exemplo, transmite muito bem a ilustração de um alguém movido por impulsos insanos, a beira da loucura psicótica, enquanto Buddy (Jon Hamm) leva sua impulsividade às causas passionais, nunca suficientemente justificáveis. Quando o filme pensa em caminhar para um exagero de si mesmo, a veia cômica de Edgar Wright mostra-se extremamente apurada, com muitas referências e gags. O que dizer da confusão hilariante envolvendo as máscaras de Michael Myers?

Já nos termos de um outro plano de ritmo, o segundo ato desacelera um pouco o filme, focando na construção do relacionamento entre Baby e Deborah (Lily James). Mesmo assim, é inegável a ótima condução harmônica de Edgar, que novamente alia a trilha sonora a performances corporais bem coreografadas. A química entre esses dois personagens é estabelecida logo na cena da lavanderia e, apesar de rápida, funciona de modo considerável. Por outro lado, o terceiro ato parte para uma visceralidade abrupta tarantinesca. Infelizmente, esse aspecto inesperado da trama evidencia uma construção rasa de personagens. A necessidade de um desenvolvimento mais amplo de personalidades não se faz tão presente aqui quantos em outros filmes semelhantes, tendo em vista que a obra funciona perfeitamente sem uma decoração narrativa formal. O problema é que algumas decisões do roteiro, ao final do filme, clamam por uma condução melhor contornada pelas mãos de Wright. Soam um pouco artificias sem isso, mas longe de destabilizar uma das obras, surpreendentemente, mais pé no chão do cineasta Edgar Wright; um de seus mais sensacionais longas. A mente do cineasta torna tudo mais fluido e interessante, sem que seu argumento, não tão fenomenal quanto sua direção, impeça o sucesso da obra. Um dos filmes mais divertidos e originais do ano, em toda a sua informalidade – sobretudo, um espetacular musical de ação.

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) — EUA/Reino Unido, 2017
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright
Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González, Jon Hamm, Jamie Foxx, Jon Bernthal, Flea, Lanny Joon, CJ Jones
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.