Crítica | Em Trânsito (2018)

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Juntamente com Barbara (2012) e Fênix (2014), o longa Em Trânsito fecha uma trilogia de filmes que o próprio diretor Christian Petzold chamou de “Amor em Tempos de Sistemas Opressivos“. De certa forma, os três roteiros têm inspiração em Transit, no livro de Anna Seghers publicado em 1944, mas é apenas nesta película de 2018 que o diretor e roteirista faz de fato uma adaptação do volume, mostrando as experiências de um intelectual vivendo em Marselha, França, nas semanas anteriores à chegada dos nazistas.

Aqui, porém, a “trama de guerra”, no sentido historicamente mais conhecido do cinema, é deixada de lado. A ameaça fascista está em toda parte, as denúncias existem em todas as cidades, mas não vemos os invasores. O roteiro não está preocupado — e esta é uma sábia escolha — em mostrar a reação das pessoas frente ao inimigo. A luta pela vida, nesse caso, é colocada juntamente com uma espera que causa medo e força as pessoas a pedirem vistos, buscarem novos documentos e viverem em trânsito, de cidade em cidade, de país em país. O objetivo é chegar a um destino onde possam, longe dos agentes do Reich, continuar (ou, nesse caso, reconstruir) suas vidas.

Uma intriga não imediatamente posta no roteiro, mas que será o núcleo do filme, é a questão da identidade de Georg, interessante personagem de Franz Rogowski que parece o tempo inteiro perdido, esperando que algo aconteça ou que possa encontrar um lugar de paz e pensar, viver, existir. Sua postura frente aos desafios é de espanto e tentativa imediata de compreensão. Ele não busca confusões. Seu senso de sobrevivência acaba sendo, até certa parte do filme, bem maior do que a imprudência e a desorganização que sua persona sugere, algo que muda pouco a pouco na obra, a partir do momento que o vemos se estabelecer em Marselha e criar laços afetivos; primeiro um “paternal”, com o garoto Driss (Lilien Batman), depois com a bela Marie (Paula Beer).

Nesse ambiente de preparação de fuga e a anunciada chegada dos nazistas é que vemos os sentimentos aflorarem e se complicarem. A identidade de Georg se torna o “ponto de intriga” que citei antes, mas o roteiro também não está interessado em se aprofundar no suspense que isso normalmente geraria. A angústia de viver essas questões é que está em cena. E mesmo com uma escolha incomum do fotógrafo Hans Fromm — de mostrar tudo muito iluminado, com cores claras, vivas; com dias fortemente ensolarados, afastando qualquer possibilidade sombria desse período histórico –, o espectador sente uma gama de sentimentos aflorarem e se intensificarem, chegado ao limite quando as muitas confusões para o embarque (e definitiva saída do lugar) começam a vir à tona.

Mas a fotografia não é a única (e nem a mais) estranha escolha do filme. Na verdade, ela não incomoda de fato. É apenas uma escolha… curiosa. Ressaltando ou impedindo certos sentimentos através da cor e da luz, algo que o roteiro definitivamente não conseguiria fazer. A real escolha incômoda no plano estético, aqui, é a de reconstrução de época, que simplesmente não acontece. E por mais boa vontade que o espectador tenha, por mais deslocamento mental ou atributos simbólicos, metafóricos, íntimos (mas nunca narrativos!) que tenha, não há como defender como uma escolha benéfica para o filme a representação de Marselha nos anos 1940 com a tecnologia e ambientes de 2018. Por melhor que seja a direção de arte e que as escolhas, ao menos para os ambientes internos, façam lembrar prédios históricos, antigos, nada nos transporta realmente para o tempo e espaço pretendidos pelo diretor, sendo este o maior erro de toda a fita.

Em Trânsito é um filme que nos coloca num estranho limite de percepção e recepção do amor em meio à opressão. A obra suscita mais a angústia de não viver, nem como um rápido aperitivo, esse sentimento amoroso. Cercados pela França e polícia francesa contemporâneas, mas falando do país nos anos 40, a obra acaba exigindo um deslocamento temporal muito grande do espectador, que ora não consegue perceber toda a ameaça grandiosamente posta no texto; ora não consegue saber no quê focar para sentir melhor a obra. É um filme intenso, mas de uma maneira não óbvia. Exceto pelo seu desenho de produção, é um projeto interessante, com boa premissa e um final enigmático que deixará muita gente falando sobre a manutenção neurótica desse ciclo de fuga, onde ninguém parece ter coragem o bastante para fazer o que deve ser feito: fugir.

Em Trânsito (Transit) — Alemanha, França, 2018
Direção: Christian Petzold
Roteiro: Christian Petzold (baseado na obra de Anna Seghers)
Elenco: Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Lilien Batman, Maryam Zaree, Barbara Auer, Matthias Brandt, Sebastian Hülk, Emilie de Preissac, Antoine Oppenheim, Louison Tresallet, Justus von Dohnányi, Alex Brendemühl, Trystan Pütter, Ronald Kukulies
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.