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Crítica | Em um Bairro de Nova York

por Luiz Santiago
2263 views (a partir de agosto de 2020)

Versão cinematográfica de um dos musicais divisores de águas nos palcos da Broadway, In the Heights foi o primeiro grande passo de Lin-Manuel Miranda na conquista de uma merecida posição de destaque no teatro, na TV e em Hollywood, algo que nos deu de presente o grandioso Hamilton (2020) e que agora nos faz voltar os olhos e os ouvidos para um recorte cultural diferente, a versão do compositor para a comunidade latina onde ele cresceu, o bairro de Washington Heights, em Nova York.

O filme demorou bastante para conseguir ver a luz do dia. O primeiro anúncio de adaptação aconteceu no final de 2008, pela Universal, com previsão de lançamento para 2011. Por questões orçamentárias e divergências de opinião com Lin-Manuel Miranda em relação ao elenco (o estúdio só via a possibilidade de fazer o filme se alguma estrela assumisse o papel principal, e Shakira e Jennifer Lopez foram cotadas), o projeto acabou sendo cancelado em março de 2011. Um ano depois a discussão voltaria à mesa, mas a ocupação de Miranda com Hamilton e o subsequente escândalo envolvendo Harvey Weinstein fizeram os direitos do musical voltar para o compositor, que negociou com a Warner e, finalmente, em junho de 2019, o longa começou a ser filmado, com Jon M. Chu atrás das câmeras.

Todo mundo tem um trabalho, todo mundo tem um sonho“. Este é um verso que ouvimos no número de abertura do filme, e que resume bem a cara do que Em um Bairro de Nova York pretende ser: uma obra que fala sobre sonhar e sobre trabalhar para que esse sonho se realize. Com os pés no chão, o roteiro não se entrega à visão meritocrática em torno dessa busca pessoal por algo, como é de praxe em produções americanas. E tem a honestidade de deixar claro que, muitas vezes, apenas o árduo trabalho não basta: alguns sonhos dependem de forças que estão muito além do esforço pessoal do sonhador. E mesmo assim, o enredo consegue criar algo bonito em cima disso, fazendo com que personagens assumam riscos e façam apostas altas na vida (o caso de Sonny com o Green Card, é o maior exemplo), mesmo sabendo que, no fim, essa aposta pode se tornar uma grande decepção.

A sorte e alguns bons contatos também fazem parte da vida e das relações entre esses personagens, e para a média social representada no filme, é uma boa forma de mostrar como as coisas funcionam para a maioria, tentando conseguir o básico com o pouco dinheiro que conseguem ganhar. Essa base social e economicamente realista no estabelecimento cotidiano desses indivíduos reforçam aquilo que o restante do roteiro desenvolve, ou seja, as dificuldades individuais juntamente com as necessidades da comunidade. E cada grupo ganha um número musical para expor aquilo que deseja, os empecilhos que encontram para chegar ao sonho, indo da faculdade ao aluguel de um apartamento; do sonho de gerir uma bodega de sucesso a ter documentos pessoais, sendo um imigrante.

O número de introdução do filme é um de seus melhores momentos (perde apenas para o glorioso Paciencia y Fe, de abuela Claudia, personagem de Olga Merediz; este sim, o melhor número musical de todo o filme) e define com precisão todos os blocos narrativos da obra, com motivações para os principais personagens e alguns detalhes sobre aquele espaço geográfico, que também se torna um personagem. Mesmo que o destaque narrativo seja de Usnavi (Anthony Ramos), é o momento do filme que cria todas as molas narrativas necessárias para que o drama se desenvolva, sempre focando nessa ideia de sonhar e de realizar um sonho a partir de diferentes pontos de vista.

Em seu desenvolvimento, o roteiro acaba deixando um pouco essa ideia geral e infelizmente foca em dramas individuais ligados ao amor. Apesar de fazerem parte do cotidiano dos personagens e adicionarem um sabor diferente à história, esses dramas não possuem a força que pretendem e desviam mais do que deveriam o foco da obra, trazendo momentos estéreis para o filme, comparados à maioria dos outros números, quer falem de sonhos, quer falem da história de vida e de possibilidades futuras para os personagens, como no caso da canção 96.000 e da já citada Paciencia y Fe. Nessa seara eu também incluiria Alabanza, que é uma belíssima canção de despedida, com tempero gospel e tudo.

O ciclo de conquistas e de dificuldades vistas em In the Heights está o tempo inteiro marcada por ações bonitas de alguém da comunidade e também por chamadas à luta, à vida, quando tudo parece perdido. Vejam Carnaval del Barrio, por exemplo. Isso reforça todos os grandes momentos de dança na obra, não só pela excelência na coreografia e na direção de todos eles, mas pelo fato de serem grandes momentos de reafirmação de uma identidade ou mesmo de clamor por uma força que parece extinta, a exemplo da situação modorrenta em que o bairro mergulha depois do blecaute: todo mundo procurando por alguma coisa gelada e sofrendo sem ventilador. Planos inteligentes como o do elenco de dançarinos refletido no vidro da bodega de Usnavi, enquanto este canta uma estrofe da canção de abertura; ou toda a sequência de 96.000, desde as cenas na rua até as cenas na piscina, mostram que a produção realmente aproveitou as possibilidades que o palco não permitiria (por falar em palco, há um easter-egg hilário de Hamilton aqui, pegaram?) e através delas, criou momentos visualmente marcantes.

Me incomoda na obra o desvio de foco para uma linha mais romântica, que não me soa tão boa quanto o restante, e devo dizer que não sou um grande fã do direcionamento final para o sonho de Usnavi, embora esta seja uma lição que o texto propositalmente quer deixar: de que sonhos também poder ser reescritos, repensados, readequados a novas realidades. Ah, não poderia deixar de falar também daquela caneta tira-manchas que até funciona como propaganda da primeira vez em que aparece, mas nas outras duas… meu Deus, que coisa mais horrível!

Em um Bairro de Nova York é uma produção muito gostosa de se ver, com excelente música e números de dança, além de ter uma história central que fala a todos nós. Porque todos sonhamos, todos temos histórias de grandes obstáculos percorridos. E todos conseguimos, pelo menos alguma vez, uma vitória. A sensação de alegria e ao mesmo tempo a percepção de que essa luta é “uma luta para toda a vida” é a cara do filme, que faz um aplaudível recorte da cultura latina em um bairro de Nova York, colocando na tela as faces, as palavras e algumas histórias de uma porção desses indivíduos. Um filme que poderia conseguir muitíssimo mais do que realmente conseguirá com arrecadação e destaque na temporada de premiações… se não fosse o obtuso massacre que andam fazendo à obra, acusando-a de cometer colorismo contra afro-latinos. Mas isso é assunto para um Plano Polêmico. Até breve!

Em um Bairro de Nova York (In the Heights) — EUA, 2021
Direção: Jon M. Chu
Roteiro: Quiara Alegría Hudes (baseado no musical de Lin-Manuel Miranda)
Elenco: Lin-Manuel Miranda, Anthony Ramos, Melissa Barrera, Leslie Grace, Corey Hawkins, Olga Merediz, Jimmy Smits, Gregory Diaz IV, Daphne Rubin-Vega, Stephanie Beatriz, Dascha Polanco, Noah Catala, Mateo Gómez, Marc Anthony, Patrick Page, Olivia Perez, Analia Gomez, Chris Jackson
Duração: 143 min.

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