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Crítica | Em um Bairro de Nova York

por Luiz Santiago
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Versão cinematográfica de um dos musicais divisores de águas nos palcos da Broadway, In the Heights foi o primeiro grande passo de Lin-Manuel Miranda na conquista de uma merecida posição de destaque no teatro, na TV e em Hollywood, algo que nos deu de presente o grandioso Hamilton (2020) e que agora nos faz voltar os olhos e os ouvidos para um recorte cultural diferente, a versão do compositor para a comunidade latina onde ele cresceu, o bairro de Washington Heights, em Nova York.

O filme demorou bastante para conseguir ver a luz do dia. O primeiro anúncio de adaptação aconteceu no final de 2008, pela Universal, com previsão de lançamento para 2011. Por questões orçamentárias e divergências de opinião com Lin-Manuel Miranda em relação ao elenco (o estúdio só via a possibilidade de fazer o filme se alguma estrela assumisse o papel principal, e Shakira e Jennifer Lopez foram cotadas), o projeto acabou sendo cancelado em março de 2011. Um ano depois a discussão voltaria à mesa, mas a ocupação de Miranda com Hamilton e o subsequente escândalo envolvendo Harvey Weinstein fizeram os direitos do musical voltar para o compositor, que negociou com a Warner e, finalmente, em junho de 2019, o longa começou a ser filmado, com Jon M. Chu atrás das câmeras.

Todo mundo tem um trabalho, todo mundo tem um sonho“. Este é um verso que ouvimos no número de abertura do filme, e que resume bem a cara do que Em um Bairro de Nova York pretende ser: uma obra que fala sobre sonhar e sobre trabalhar para que esse sonho se realize. Com os pés no chão, o roteiro não se entrega à visão meritocrática em torno dessa busca pessoal por algo, como é de praxe em produções americanas. E tem a honestidade de deixar claro que, muitas vezes, apenas o árduo trabalho não basta: alguns sonhos dependem de forças que estão muito além do esforço pessoal do sonhador. E mesmo assim, o enredo consegue criar algo bonito em cima disso, fazendo com que personagens assumam riscos e façam apostas altas na vida (o caso de Sonny com o Green Card, é o maior exemplo), mesmo sabendo que, no fim, essa aposta pode se tornar uma grande decepção.

A sorte e alguns bons contatos também fazem parte da vida e das relações entre esses personagens, e para a média social representada no filme, é uma boa forma de mostrar como as coisas funcionam para a maioria, tentando conseguir o básico com o pouco dinheiro que conseguem ganhar. Essa base social e economicamente realista no estabelecimento cotidiano desses indivíduos reforçam aquilo que o restante do roteiro desenvolve, ou seja, as dificuldades individuais juntamente com as necessidades da comunidade. E cada grupo ganha um número musical para expor aquilo que deseja, os empecilhos que encontram para chegar ao sonho, indo da faculdade ao aluguel de um apartamento; do sonho de gerir uma bodega de sucesso a ter documentos pessoais, sendo um imigrante.

O número de introdução do filme é um de seus melhores momentos (perde apenas para o glorioso Paciencia y Fe, de abuela Claudia, personagem de Olga Merediz; este sim, o melhor número musical de todo o filme) e define com precisão todos os blocos narrativos da obra, com motivações para os principais personagens e alguns detalhes sobre aquele espaço geográfico, que também se torna um personagem. Mesmo que o destaque narrativo seja de Usnavi (Anthony Ramos), é o momento do filme que cria todas as molas narrativas necessárias para que o drama se desenvolva, sempre focando nessa ideia de sonhar e de realizar um sonho a partir de diferentes pontos de vista.

Em seu desenvolvimento, o roteiro acaba deixando um pouco essa ideia geral e infelizmente foca em dramas individuais ligados ao amor. Apesar de fazerem parte do cotidiano dos personagens e adicionarem um sabor diferente à história, esses dramas não possuem a força que pretendem e desviam mais do que deveriam o foco da obra, trazendo momentos estéreis para o filme, comparados à maioria dos outros números, quer falem de sonhos, quer falem da história de vida e de possibilidades futuras para os personagens, como no caso da canção 96.000 e da já citada Paciencia y Fe. Nessa seara eu também incluiria Alabanza, que é uma belíssima canção de despedida, com tempero gospel e tudo.

O ciclo de conquistas e de dificuldades vistas em In the Heights está o tempo inteiro marcada por ações bonitas de alguém da comunidade e também por chamadas à luta, à vida, quando tudo parece perdido. Vejam Carnaval del Barrio, por exemplo. Isso reforça todos os grandes momentos de dança na obra, não só pela excelência na coreografia e na direção de todos eles, mas pelo fato de serem grandes momentos de reafirmação de uma identidade ou mesmo de clamor por uma força que parece extinta, a exemplo da situação modorrenta em que o bairro mergulha depois do blecaute: todo mundo procurando por alguma coisa gelada e sofrendo sem ventilador. Planos inteligentes como o do elenco de dançarinos refletido no vidro da bodega de Usnavi, enquanto este canta uma estrofe da canção de abertura; ou toda a sequência de 96.000, desde as cenas na rua até as cenas na piscina, mostram que a produção realmente aproveitou as possibilidades que o palco não permitiria (por falar em palco, há um easter-egg hilário de Hamilton aqui, pegaram?) e através delas, criou momentos visualmente marcantes.

Me incomoda na obra o desvio de foco para uma linha mais romântica, que não me soa tão boa quanto o restante, e devo dizer que não sou um grande fã do direcionamento final para o sonho de Usnavi, embora esta seja uma lição que o texto propositalmente quer deixar: de que sonhos também poder ser reescritos, repensados, readequados a novas realidades. Ah, não poderia deixar de falar também daquela caneta tira-manchas que até funciona como propaganda da primeira vez em que aparece, mas nas outras duas… meu Deus, que coisa mais horrível!

Em um Bairro de Nova York é uma produção muito gostosa de se ver, com excelente música e números de dança, além de ter uma história central que fala a todos nós. Porque todos sonhamos, todos temos histórias de grandes obstáculos percorridos. E todos conseguimos, pelo menos alguma vez, uma vitória. A sensação de alegria e ao mesmo tempo a percepção de que essa luta é “uma luta para toda a vida” é a cara do filme, que faz um aplaudível recorte da cultura latina em um bairro de Nova York, colocando na tela as faces, as palavras e algumas histórias de uma porção desses indivíduos. Um filme que poderia conseguir muitíssimo mais do que realmente conseguirá com arrecadação e destaque na temporada de premiações… se não fosse o obtuso massacre que andam fazendo à obra, acusando-a de cometer colorismo contra afro-latinos. Mas isso é assunto para um Plano Polêmico. Até breve!

Em um Bairro de Nova York (In the Heights) — EUA, 2021
Direção: Jon M. Chu
Roteiro: Quiara Alegría Hudes (baseado no musical de Lin-Manuel Miranda)
Elenco: Lin-Manuel Miranda, Anthony Ramos, Melissa Barrera, Leslie Grace, Corey Hawkins, Olga Merediz, Jimmy Smits, Gregory Diaz IV, Daphne Rubin-Vega, Stephanie Beatriz, Dascha Polanco, Noah Catala, Mateo Gómez, Marc Anthony, Patrick Page, Olivia Perez, Analia Gomez, Chris Jackson
Duração: 143 min.

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