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Crítica | Em Um Pátio de Paris

por Karam
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O clima melancólico de Em Um Pátio em Paris já se estabelece de cara em sua cena de abertura quando vemos um Antoine (nosso personagem principal) soturno e disperso, perdido em seu camarim, indiferente ao show que deve fazer dentro de poucos minutos. Ele é pressionado a subir ao palco. O que faz? Não sobe: passa sobre ele, carregando consigo uma mala. E é tremendamente vaiado. Adeus, música.

Num banco de praça, ele fica. E não reage a nada. Sua face é de pura tristeza contida. Ele não se expressa, mas ao não se expressar, fala muito de si, silenciosamente – e com o rosto. Quando lhe aconselham que ele sorria em uma entrevista de emprego rimos ao mesmo tempo em que sentimos a dimensão de sua angústia. Ele não é de sorrir. É de se fechar e de não ser ninguém a não ser ele mesmo, perdido, confuso, sereno por fora, atordoado por dentro.

A cena da entrevista de emprego – uma cena-chave, pois trata-se da apresentação de Mathilde, a persongem de Deneuve – é hilária e muito bem escrita: Antoine está nervosíssimo e, pra variar, não faz a mínima ideia de como reagir diante de seus dois entrevistadores, que são casados. A mulher passa a maior parte do tempo da entrevista falando ao telefone e já percebemos, em sua forma de se expressar, que ela “não bate muito bem da cabeça”. Em determinado momento, o marido de Mathilde sai para o pátio e vai reclamar com ela por ela não estar participando da entrevista. Nisso, ele percebe que Antoine, inseguro que é, treina sua apresentação diante de… ninguém. O marido de Mathilde, receoso em contratar Antoine por motivos de “estranheza”, comenta com a mulher (apontando para o entrevistado), que ainda está alucinada resolvendo um problema ao telefone: “Ele está falando sozinho!” ao que a mulher, amalucada que só – aplausos para a performance de Deneuve! –, lhe responde: “Melhor para ele! Assim não se entediará”. É assim que Mathilde convence o marido a contratar Antoine. E surge então uma relação de amizade verdadeira, que é o combustível que faz com que Em Um Pátio em Paris engrene.

O filme funciona muito bem ao antecipar através de cenas precisamente construídas a relação entre Antoine e Mathilde: percebemos suas idiossincrasias e logo entendemos que duas almas gêmeas se encontraram e que a estória começa então a partir deste encontro. Ao mesmo tempo em que isso é um ponto positivo, também revela-se esquemático – já vimos isto muitas e muitas e muitas vezes – pois mostra uma certa falta de vontade de inovação por parte do roteiro. É um roteiro que, na verdade, poderia ser escrito por qualquer roteirista profissional com uma boa bagagem de estudo e pesquisa. O fator “novidade”, que só é capaz de se fazer presente através de uma escrita de Sensibilidade Maior e Intuição Apurada, não existe aqui.

Ainda é legal perceber como a obra poderia cair facilmente numa pretensão vazia e nos mergulhar no mesmo tédio em que o protagonista se encontra… mas não o faz. Apesar de possuir uma temática que favorece um ritmo mais contemplativo, o filme não é lento. A verdade é que Em Um Pátio em Paris prefere não ser algo além do que é, e nos diverte ao mesmo tempo em que faz com que nos importemos de verdade com aqueles carismáticos – porém desajustados – indivíduos que estão na tela.

A gente vê gradativamente aqueles dois ficando mais felizes um ao lado do outro. Suas vidas mudam, de fato. Eles se entendem muito bem e se sentem melhor quando estão juntos, pois partilham de manias e loucuras semelhantes. Antoine e Mathilde foram feitos um para o outro. Pode parecer que estou falando de uma estória de amor, mas é amizade. Profunda amizade. Não se enganem: assim como Verdadeiro Amor, Profunda Amizade existe sim, e não é invenção do Cinema…

Mathilde tem um marido que não é compreensível, pois é pragmático e apesar de amá-la, sabe que ambos não são compatíveis. Antoine é o porto seguro de Mathilde, como ela mesma chega a dizer para o próprio marido em certo momento. “Diga-me que me entende”, Mathilde pergunta mais tarde para Antoine. “Eu te entendo”, ele responde. O marido de Mathilde se afasta cada vez mais dela: ele não compactua com suas “estranhezas”. Durante os acessos de loucura de Mathilde, Antoine sempre a apoia, fica ao seu lado, faz tudo para fazer com que ela pareça, diante dos olhos dos outros, uma pessoa sã.

É interessante este contraponto: Antoine é depressivo e encontra uma pessoa que passa por problema semelhante em uma intensidade – ao que parece –ainda mais forte. A relação entre eles tinha tudo para ser devastadora, mas na verdade é de apoio mútuo, de crescimento. Uma jornada já retratada pelo Cinema diversas vezes, às vezes com sucesso, outras sem. Neste caso, é com sucesso, mas sucesso moderado, pois embora a estória seja bem contada, não há nada que diferencie este dos demais filmes de amadurecimento – ou seja lá como você queira chamar (consulte o livro Story, de Robert McKee, lá deve ter uma definição que se encaixe aqui perfeitamente).

Outros personagens aparecem, mas nenhum ocupa o espaço que os dois protagonistas ocupam, não têm o mesmo efeito. Existe um ou outro coadjuvante que acaba roubando a cena por alguns segundos como, por exemplo, o homem que late pela janela (é…) e a velha doida cheia das teorias da conspiração. O filme está repleto de personagens, digamos assim, diferenciados. Mas é claro que sua força vem toda da dinâmica entre Mathilde e Antoine.

Do ponto de vista técnico é sóbrio, sem grandes aspirações. Quer contar uma estória e a conta apoiada num roteiro conciso, repleto de bons diálogos, e atores ótimos em sintonia. Aliás, os diálogos merecem destaque mesmo: “Não quer enrijecer a alma?”;“Não, é muito amável de sua parte, mas prefiro conservá-la flácida”. Fazer graça com a desgraça é sempre uma aposta certa. Em Um Pátio Em Paris sabe disso.

Conclusão: é um filme simpático, que diverte e não faz mal a ninguém. É mais uma daquelas estórias de amizade que nos cativam durante o tempo em que nos são contadas, embora não fiquem conosco após a conclusão da narrativa. Esquecível, porém bonito e doce.

Em Um Pátio Em Paris (Dans La Cour) – França, 2014
Direção:
Pierre Salvadori
Elenco:
Catherine Deneuve, Gustave Kervern, Féodor Atkine, Pio Marmai, Michèle Moretii, Nicolas Bouchaud, Oleg Kupchik, Garance Clavel
Roteiro:
Pierre Salvadori, David Léotard, Benoît Graffin (colaboração)
Duração:
97 min

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